Jornal Mundo Espírita

Maio de 2021 Número 1642 Ano 89

O Pensamento Pedagógico de Hippolyte Léon Denizard Rivail *

dezembro/2019

O contato com dois textos do Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, o futuro Allan Kardec, escritos em 1828 e 1834, respectivamente, nos possibilitou a confirmação da palavra de reverência com que Espíritos benfeitores têm se referido ao Codificador, dentre os quais Bezerra de Menezes, Emmanuel, Vianna de Carvalho, Irmão X.

As condições evolutivas desse extraordinário Espírito que reencarnou na França, no início do século XIX, aliadas às experiências educacionais, que vivenciou junto ao eminente educador suíço Henrique Pestalozzi, imprimiram-lhe a marca indelével do educador nato, do pensador profundo e do idealista operoso, cujo interesse maior foi, ao longo de sua vida, a causa da educação.

Interagir com os textos do Professor Rivail possibilitou-nos reconhecer a fundamentação teórica, a crítica lúcida e a propositura calcada em possibilidades reais, permeadas da convicção do papel que deve ser exercido pela educação, no processo de desenvolvimento integral dos indivíduos e sociedades. Como se isso não bastasse, identificamos, nas falas do jovem professor francês, temáticas que permanecem a desafiar os estudiosos dos dias de hoje, o que lhe faculta pioneirismo e atualidade pedagógica.

Percebemos, também, a forte influência do seu mestre Pestalozzi bem como as leituras de base de autores como Montaigne, Fénelon e Rousseau, dentre outros.

Vamos, pois, aos textos e para facilitar nossa comunicação utilizaremos a divisão temática que segue.

 

Um pouco da Educação na França do século XIX

Émile Durkheim, em sua obra Evolução Pedagógica, afirma que a educação na França, no século XIX, pode ser vista sob a ótica da orientação política vigente, o que dava à direção dos estudos, ora um caráter mais científico, ora um caráter mais filosófico-literário. Para esse autor, em muitos momentos é possível identificar um retrocesso como, por exemplo, a recuperação do velho prestígio do latim e a instabilidade dos Planos de Estudos – quinze, só na primeira metade do século. Portarias e mais portarias se sucedem incluindo mudanças no desenvolvimento dos estudos (sessenta e quatro portarias entre os anos 1802 e 1870) favorecendo um clima instável e de indefinições, o que só poderia trazer prejuízos para a educação nacional.

Essas preocupações estão presentes nos dois textos do Professor Rivail, sob nossa observação, o que nos revela um homem de seu tempo, preocupado com os problemas do seu contexto histórico-social e, o que é mais importante, participativo, empreendedor, engajado nas lutas pela melhoria da qualidade das escolas e do ensino.

 

Sobre a Instrução

Para o jovem professor francês a instrução não se reduziria à aquisição dessa ou daquela ciência. Consistiria, isso sim, no desenvolvimento geral da inteligência o que ocorre a partir das ideias adquiridas pelos educandos.

Rivail aponta dois prejuízos ou entraves ao processo de desenvolvimento da inteligência: a inculcação precoce de ideias (sem a prontidão) e a exigência de resultados rápidos (sem a devida maturação). As consequências desses prejuízos seriam, de um lado, a falta de base sólida para o conhecimento e, de outro, a rotulação empregada para muitos alunos: ignorante, incapaz. Obviamente que esses prejuízos não ocorrem só no território escolar mas acompanham seus proprietários, tanto no campo profissional como nas relações sociais. Em função dessas posições, Rivail apresenta toda uma crítica ao ensino, à organização do sistema educacional e dos Planos de Estudo para, em seguida, aprofundar uma reflexão sobre o sentido da educação (escolar, familiar, moral) e formular propostas para a melhoria das escolas e do ensino, bem como da ação educacional que se dá na família e nas instituições sociais.

 

Críticas ao Ensino e às Escolas

Alguns pontos críticos na educação da época são apontados por Rivail:

  • o ensino era livresco, retórico, de base mecânica e mnemônica, sem sentido ou aplicação para os alunos;
  • havia mais valorização dos resultados imediatos, fruto da memorização, em detrimento de processos mais profundos e significativos de aprendizagem, embora mais lentos e menos visíveis;
  • os professores, devido à visão reduzida sobre educação, eram geralmente despreparados para o desenvolvimento da profissão docente, oriundos de aldeias e sem a própria experiência de uma boa educação, pedantes, agressivos com os alunos, superficiais no domínio dos conteúdos, desconhecedores do verdadeiro significado e abrangência da educação. Para completar o quadro, atuavam em salas superlotadas e não recebiam a formação didática capaz de melhorar sua atuação metodológica: o magistério afastava os homens de mérito e
  • os Planos de Estudo não contemplavam as reais necessidades dos alunos nem uma sólida formação científica, mantendo em seu corpo conteúdos destituídos de significação social.

 

Conceito de Educação

O futuro Codificador do Espiritismo vê na ausência de uma compreensão sobre o sentido e abrangência da palavra educação a causa principal do atraso escolar e da visão distorcida da profissão docente e suas atribuições. Seria necessário, pois, situar o verdadeiro sentido do termo para daí se chegar ao perfil do profissional da educação bem como da sua formação e a organização do sistema e do Plano de Estudos. De quebra, o jovem professor apresenta desdobramentos práticos dessa conceituação para a atuação educativa da família e demais instituições sociais.

A educação, para Rivail, está muito mais além da simples instrução. É, ao mesmo tempo, Arte e Ciência. Arte de formar os homens, isto é, a arte de fazer eclodir neles os germes da virtude e abafar os do vício, ou seja, uma concepção de educação moral com o foco em valores e formação do caráter e construção de hábitos virtuosos. Ciência de observação e pesquisa, apesar de não ter suas bases devidamente constituídas. Poucos eram (não são ainda hoje?) os estudos sobre o fenômeno educativo e sua complexidade, o que dificultava uma visão mais verdadeira e ampliada. Cabe à educação, nessa perspectiva, desenvolver a inteligência e fornecer a instrução, com base nas necessidades dos alunos e da própria sociedade.

A grande meta da educação seria, desse modo, o desenvolvimento das faculdades Morais, Físicas e Intelectuais, o que só pode ser obtido através da compreensão teórico-prática sobre Objetivos e Meios Educacionais. Este o grande desafio de estudiosos, educadores e homens comprometidos com o bem-estar sociomoral das comunidades.

 

A visão de Educação para Rivail engloba:

  • a aquisição, através das experiências cotidianas, de impressões que vão se sedimentando na personalidade humana;
  • a formação de hábitos – uma segunda natureza – gerados pelas referidas impressões;
  • a possibilidade de afloramento das potencialidades do homem;
  • a força do exemplo de todos os que cercam a criança na sedimentação das impressões;
  • a necessidade das disciplinas morais para consolidação de uma personalidade livre e responsável; e
  • todos os instantes da vida compõem o processo educativo dos seres humanos.

 

Propostas

Quanto à Educação (sentido mais geral)

  • Inúmeras são as propostas de Rivail. Destacamos a educação das massas populares e das mulheres, enquanto primeiras educadoras; a educação numa perspectiva integral do educando e não reduzida ao aspecto cognitivo; a educação moral como prioridade para o equilíbrio da sociedade (visão de futuro); o cuidado com o tempo livre para aproveitá-lo de modo educativo, dentre outras, se relacionam com as de Comenius, Pestalozzi, Rousseau, Herbart.

 

Quanto ao Ensino

O pensamento de Rivail, nesse aspecto não é só rico: é repleto de atualidade e antecipações. Vejamos algumas de suas propostas:

  • sólida formação das novas gerações no que se refere aos fundamentos das ciências (aprender a conhecer), o que facilitará, inclusive, uma melhor escolha profissional;
  • o ensino deve partir da realidade do aluno e de suas necessidades (contextualização e interesse);
  • é fundamental para o aluno encontrar sentido no que estuda, o que reclama aplicabilidade dos conteúdos como forma de sua validação (função social do conhecimento);
  • o ensino deve ser interdisciplinar;
  • a motivação do aluno é a base para o gosto pelo estudo;
  • o ensino deve se basear na autoatividade do aluno, antecipando propostas educacionais do século XX;
  • o ensino deve se voltar para o sucesso e não para o fracasso do aluno;
  • agradabilidade e comunicabilidade devem ser constantes nas experiências de ensino;
  • o aluno deve ser estimulado à reflexão e à observação para desenvolver um espírito crítico e de pesquisa;
  • não se pode desprezar a curiosidade do aluno no processo educativo.

 

Quanto ao Professor

 Nesse aspecto, o professor francês, após toda a crítica feita, apresenta ricas propostas, inclusive quanto à formação profissional docente, em que sugere a criação de Escolas de Aplicação gratuitas, numa perspectiva de formação teórico-prática.

  • O professor deve primeiramente rever suas próprias visões sobre as ciências, a educação e sua ação docente, relacionando ensino e aprendizagem, teoria e prática.
  • Deve se tornar um observador da natureza e da aprendizagem do aluno, o que trará mudanças na sua metodologia de trabalho.
  • Deve desenvolver o conteúdo de forma interessante, agradável, demonstrando sua utilidade e fazendo a ligação entre os diversos conhecimentos.
  • Deve buscar ser o educador e não só o professor, dignificando sua ação profissional.

 

Conclusões

Como podemos observar, o futuro Codificador do Espiritismo já possuía uma nítida visão do papel da educação no desenvolvimento humano e social. Antecipa inúmeras teses da escola nova, do construtivismo piagetiano, da nouvelle histoire e da visão apresentada à UNESCO pela Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, que apresenta como princípios os quatro Pilares da educação: conhecer, fazer, conviver e ser.

O pensamento pedagógico de Rivail está presente, e de forma mais amadurecida ainda, no pensamento de Allan Kardec, corroborando a sua afirmativa aos 24 anos de idade:

A educação é a obra da minha vida, e todos os meus instantes são empregados em meditar sobre esta matéria; feliz quando encontro algum meio novo ou quando descubro novas verdades.

De fato, a educação tornou-se a obra de sua vida e a própria obra da Codificação Espírita, toda ela mergulhada numa atmosfera pedagógica, proporcionou a concretização desse ideal que o tornou também um educador da Humanidade.

 

Referências:

  • RIVAIL, Hippolyte Léon Denizard. Textos Pedagógicos. São Paulo: Comenius, 1998.

*Capítulo primeiro do mais recente lançamento da autora, Educação em Foco, editado pela FEP.

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