Jornal Mundo Espírita

Maio de 2021 Número 1642 Ano 89

Histórias cruzadas

outubro/2012 - Por Maria Helena Marcon

Baseado no livro A Resposta, de Kathryn Stockett, publicado no Brasil pela Bertrand Russel, o filme Histórias cruzadas estreou no Brasil em fevereiro do ano em curso [2012]. Enquanto o livro permaneceu na lista de best sellers do jornal New York Times por cento e três semanas, seis delas ocupando o primeiro lugar, o filme foi uma das grandes surpresas em termos de bilheteria.

O diretor do filme, Tate Taylor e a autora Kathryn Stockett são amigos de infância, tendo crescido na cidade de Jackson, no Mississipi, mesmo local onde a história do filme se passa, na década de 60.

Com pouco mais de duas horas de duração, prende pela emoção e o suspense. Entre agressões verbais, desrespeito total ao ser humano, os ataques da Ku-Klux-Klan,o medo é a tônica da comunidade negra ali retratada.

A principal personagem Aibileen é uma empregada negra que já cuidou de dezessete crianças brancas. Extremamente carinhosa e otimista, a mensagem diária que reprisa para a garotinha de quem cuida é Você é esperta, você é boa, você é importante.

Aibi lava, passa, cuida da casa, cozinha e cuida da criança. Tudo em uma cidade extremamente preconceituosa e na qual as regras são ditadas pelas pessoas da considerada sociedade de então.

As empregadas negras têm regras rígidas. Comem na cozinha, servindo-se sempre no mesmo prato, mesma xícara, mesmos talheres, separados dos patrões. Sequer podem utilizar o mesmo sanitário ou o banheiro.

Paradoxalmente, são essas criaturas que cuidam das crianças dos seus patrões, que as banham, as vestem,  as alimentam, as levam para brincar. Crianças que têm por elas especial carinho. Estranha sociedade essa: despreza as criaturas que lhe atendem os filhos, enquanto ela mesma se distrai a fofocar, entregando-se aos encontros domésticos para chás, jogos de azar e toda sorte de frivolidades.

Uma sociedade má, que seleciona, com rigor, os seus membros. Um mínimo deslize e a pessoa logo é excluída. A característica, portanto, é de normose, ou seja, faz-se o que todo mundo adjetiva como normal. Se o negro é tratado como um ser inferior por alguém considerado importante, assim por todos deve ser.

Então, uma jovem recém-formada e que ambiciona se tornar uma grande jornalista, elabora um ousado projeto: escrever a história dessas empregadas, do  ponto de vista delas.

Como elas veem a sociedade que as esmaga, o que sentem cuidando de filhos alheios enquanto os seus estão em casa, sozinhos, os menores cuidados pelos maiores?

A violência doméstica, a maldade armando intrigas para incriminar a quem deseja prejudicar ou de quem se deseja vingar são alguns dos temas que se desenvolvem em meio à trama.

Como bem se expressa uma das personagens, em triste tom: Nós cuidamos dos filhos dos brancos, os filhos dos brancos nos amam. Depois eles crescem e nos tratam como seus pais o fazem.

É uma história de mulheres frívolas. Também de mulheres fortes, que enfrentam a batalha diária do ganha-pão, que educam os filhos, que os ensinam a se conduzirem na vida, que aceitam muitas coisas injustas, mas que também sabem se unir e gritarem, com todas as fibras da alma, que são seres humanos, que têm sentimentos e desejam respeito e possibilidade de viverem com dignidade.

Em alguns momentos, pode-se rir, mas o que ressalta aos olhos, na maior parte do drama, é a maldade humana, que nos leva a questionar: Como pode um ser humano maltratar tanto a outro ser humano?

Como pode um ser humano estabelecer regras discriminatórias a outro, não se preocupando em nenhum momento com sua integridade física? E sem nenhum respeito à velhice?

Como pode um ser humano negar a outro um lugar para sentar no ônibus, simplesmente porque difere de cor a sua pele? Ou lhe negar o atendimento médico, a terapêutica adequada que lhe possa salvaguardar a vida?

Como pode uma sociedade ser tão vazia de valores que reputa mais importante as aparências tolas  do que a valorização de  um ser humano que a serve há mais de vinte ou trinta anos? Alguém que envelheceu no cumprimento do dever.

Como pode uma mãe ser tão desleixada ao ponto de não se dar conta de que sua menina de quatro anos se sente muito mais segura nos braços alheios do que nos seus? Que sua menina acorda e adormece nos braços de outra pessoa enquanto ela mesma sequer lhe conhece os gostos, as preferências, os medos e  anseios?

Como pano de fundo, está Martin Luther King Junior, com seus discursos e a Grande Marcha sobre Washington, culminando com a noticia do seu assassinato. Martin Luther King que sonhou que um dia, mesmo na racista Geórgia, os filhos de escravos e os dos senhores se sentariam na mesa da fraternidade. E que até o Mississipi viraria um oásis de fraternidade.

Como nenhuma comunidade é totalmente má, existem as pessoas nobres, íntegras, que fazem a diferença, no filme como na vida real.

Skeeter é profundamente grata pela sua mãe negra, a velha empregada que hoje não mais está em sua casa, mandada embora por um tolo preconceito e uma vazia aparência de fazer o que todos fazem, isto é, colocar o negro no seu devido lugar.

Ela ama a sua querida babá e lembra que foi ela que lhe ouviu as primeiras desilusões de amor, os primeiros desencantos. Foi ela que a orientou, que lhe falou da grandiosidade e da beleza da vida.

Nesses dias de tantos desvalores, mas também de muita amorosidade, o filme fala à alma e à mente. Remete-nos a perscrutar a própria intimidade e a nos indagarmos como estamos tratando os nossos serviçais, a faxineira que chega pela manhã, que realiza a limpeza da casa, recebe nossos filhos com a refeição especial e os prepara para a escola.

Como temos tratado os empregados, os que nos são subordinados? Temos utilizado as palavras obrigado, por favor, desculpe? Temos lembrado que, por vezes, eles estão com o coração sangrando, pelas tragédias que os atingem? E temos lhes permitido um tempo para chorar?

Temos atentado para suas condições físicas, temos verificado suas mãos calosas no trabalho rude? Temos nos dado conta dos  queixumes das suas dores físicas?

Temos sorrido, lembrado de ofertar um mimo, um presente, mesmo que não seja aniversário, nem dia especial algum? Algo que traduza, além das nossas palavras, que somos gratos pela sua presença em nossas vidas?

Os que estudamos a respeito da reencarnação, temos acrescido o conhecimento de que muitos dos que cruzam nossos caminhos, na atual jornada, podem ter sido afetos ou desafetos do passado.

Deixaremos passar a oportunidade de gozar das delícias do reencontro de alguém querido que ontem nos brindou com seu carinho, talvez a amizade, e hoje retorna ao nosso lar, na qualidade de servidor ou servidora, para estar conosco, para nos ser sustentáculo nas adversidades?

A todos os que apreciamos reflexionar, Histórias cruzadas nos estimula a inúmeras indagações a respeito do que somos, como agimos e o que representamos, na sociedade em que nos encontramos inseridos.

Ficha técnica:

Diretor: Tate Taylor

Elenco: Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Allison Janney, Viola Davis, Ahna O’Reilly, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell

Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green

Roteiro: Tate Taylor

Fotografia: Stephen Goldblatt

Trilha Sonora: Thomas Newman

Duração: 146 min.

Ano: 2011

País: EUA

Gênero: Drama

Cor: Colorido

Distribuidora: Disney

Estúdio: 1492 Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Harbinger Pictures / DreamWorks SKG / Reliance Entertainment / Participant Media

Classificação: 14 anos

          Maria Helena Marcon
Para o Jornal Mundo Espírita de setembro. 2012.

 

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