Jornal Mundo Espírita

Julho de 2021 Número 1644 Ano 89

Convite ao recato

fevereiro/2013

Nos diversos labores e situações da vida o recato, a morigeração, a ordem,
têm regime de urgência para que o homem consiga haurir a porvindoura felicidade
que lhe está destinada desde hoje. – Joanna de Ângelis.[1]

 

Final e início de ano, leva-nos a variadas considerações sobre a vida e o comportamento humano.

As correrias em nome do Natal, de tão injustificáveis que são, fazem com que a maioria das pessoas deixe de lado reflexões maduras sobre a data e seus motivos, e simplesmente entre na onda, com a razão anestesiada, impedindo-se o mais básico dos entendimentos, que é o de que se está por festejar um aniversário, cujo aniversariante sequer é lembrado.

Dias depois vem a chamada festa da virada, quando à meia noite de 31 de dezembro se faz, em minutos ensurdecedores, a queima de toneladas e toneladas de fogos de artifício, queimando-se, no real sentido da palavra, milhões e milhões de reais, sem ninguém se preocupar se se está próximo de hospitais, de lares com crianças dormindo, se o barulho causará algum transtorno para quem quer que seja. Sem contar os riscos e os inúmeros acidentes. E, como não poderia ser esquecido, os incontáveis litros de bebidas alcoólicas.

Ainda em nome da alegria, eis que se destaca no calendário, o Carnaval. Sem desejo de esconder seus propósitos, a festa é designada também de dias de folia. E haja folia para quatro dias! Desde os tradicionais locais dos grandes desfiles e das grandes concentrações de foliões, até os mais variados lugares, como hotéis, praias, clubes, na grande maioria das cidades, o que se percebe é um gigantesco contingente de pessoas voltadas para o espírito da festa: a folia. Tanto a folia ingênua (se é que existe nesse contexto) como a mais picante delas. Acrescente-se os alcoólicos, as drogas de modo geral, e licenciosidade sexual, e se pode ter uma leitura rápida do baixo teor moral de que se reveste tal festividade.

Infelizmente, essa é a tônica predominante. Inegável.

Não por outras razões, encontramos as considerações do Espírito Emmanuel[ii] sobre os dias do reinado de Momo:

Nenhum espírito equilibrado em face do bom senso, que deve presidir a existência das criaturas, pode fazer a apologia da loucura generalizada que adormece as consciências, nas festas carnavalescas.

É lamentável que, na época atual, quando os conhecimentos novos felicitam a mentalidade humana, fornecendo-lhe a chave maravilhosa dos seus elevados destinos, descerrando-lhe as belezas e os objetivos sagrados da Vida, se verifiquem excessos dessa natureza entre as sociedades que se pavoneiam com o título de civilização. Enquanto os trabalhos e as dores abençoadas, geralmente incompreendidos pelos homens, lhes burilam o caráter e os sentimentos, prodigalizando-lhes os benefícios inapreciáveis do progresso espiritual, a licenciosidade desses dias prejudiciais opera, nas almas indecisas e necessitadas do amparo moral dos outros espíritos mais esclarecidos, a revivescência de animalidades que só os longos aprendizados fazem desaparecer.

O Carnaval, conforme os conceitos de Bezerra de Menezes[iii], é festa que guarda vestígios da barbárie e do primitivismo que ainda reina na humanidade, marcada pelas paixões do prazer violento. Como nosso imperativo maior é a Lei de Evolução, um dia tudo isso, todas essas manifestações ruidosas que marcam nosso estágio de inferioridade desaparecerão da Terra. Em seu lugar, então, predominarão a alegria pura, a jovialidade, a satisfação, o júbilo real, com o homem despertando para a beleza e a arte, sem agressão nem promiscuidade. A folia em nome do Rei Momo já foi um dia a comemoração dos povos guerreiros, festejando vitórias; foi reverência coletiva ao deus Dionísio, na Grécia clássica, quando a festa se chamava bacanalia; na velha Roma dos césares, fortemente marcada pelo aspecto pagão, chamou-se saturnalia e, nessas ocasiões, se imolava uma vítima humana. Na Idade Média, entretanto, é que a festividade adquiriu o conceito que hoje apresenta, o de uma vez por ano é lícito enlouquecer, em homenagem aos falsos deuses do vinho, das orgias, dos desvarios e dos excessos, em suma. Isso é histórico.

Dr. Bezerra de Menezes, Espírito, cita os estudiosos do comportamento e da psique da atualidade, sinceramente convencidos da necessidade de descarregarem-se as tensões e recalques nesses dias em que a carne nada vale, cuja primeira silaba de cada palavra compõe o verbete carnaval. Assim, em três ou mais dias disponibilizados e acatados por todos para um verdadeiro desvario coletivo, as pessoas, desavisadas dos graves riscos que correm, se entregam ao descompromisso, exagerando nas atitudes, ao compasso de sons febris e vapores alucinantes. Outros mais, sabendo da grande oportunidade que têm para extravasarem seus distúrbios íntimos, intencionalmente se dedicam à comunhão dos desmandos e crimes, até a exaustão dos sentidos.

Está no materialismo, que vê o corpo, a matéria, como início e fim em si mesmo, a causa de tal desregramento. Esse comportamento afeta, inclusive, aqueles que se dizem religiosos, mas não têm, em verdade, a necessária compreensão da vida espiritual, deixando-se também enlouquecer uma vez por ano.

Tais religiosos, estereotipados pelos sofismas materialistas, embora aparentem crer em Deus e no espírito imortal, apenas aparentam, pois desmentem qualquer religiosidade, mediante a vida por que se deixam consumir[iv].

Em nome do bom senso, é hora de dar meia volta, em direção a um novo rumo.

 

Rever conceitos e atitudes. Buscar resguardo e precaução, lançando mão do discernimento.

O recato é atitude moral indispensável a uma vida sadia, normal.

O fato de muitos fazerem determinadas coisas pode ser visto como atitudes comuns, mas obrigatoriamente não é normal. Que não seja esse o nosso referencial de modelo de vida.

Vamos reconstruir e reedificar os costumes para o bem de todas as almas.

O nosso modelo e guia deve ser Jesus, que nos disse ser Ele o Caminho da Verdadeira Vida.

Fica aqui o nosso convite ao recato, ao resguardo, ao encontro de novos e verdadeiros valores para a vida.

Recordemos de Paulo, o Apóstolo, em I Cor. 6:12: Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.

Há uma sutil diferença entre o que fazemos o que podemos fazer e o que devemos fazer.

Reflitamos melhor sobre nossos costumes de modo geral, não só sobre as festividades populares, e o que realmente desejamos para nossos filhos, hoje e num futuro próximo. E nos questionemos: o que temos feito de especial em benefício de um mundo melhor?



[1] FRANCO, Divaldo P. Convites da vida. Joanna de Ângelis. 3a ed. Salvador, BA. Leal. Cap. 46.

[ii]Psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier em Julho de 1939 / Revista Internacional de Espiritismo, Janeiro de 2001.

[iii] FRANCO, Divaldo P. Nas fronteiras da loucura. Manoel P. de Miranda. Salvador, BA. Leal.

[iv] FRANCO, Divaldo P. Convites da vida. Joanna de Ângelis. 3a ed. Salvador, BA. Leal. Cap. 46.

 

 

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