Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

Vós sois deuses!

janeiro/2019 - Por Clayton Reis

A afirmação de Jesus Vós sois deuses1, leva-nos a uma profunda investigação. Se considerarmos que, de acordo com a resposta número 1 de O Livro dos Espíritos, Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, restaria a conclusão de que possuímos essas qualidades inerentes ao Criador latentes em nosso Espírito.Todavia, essa dedução merece maior reflexão. A filosofia Socrática (470 a.C. – 399 a. C.) ensinava que o conhecimento do homem deveria conduzi-lo a investigar sua própria realidade, daí a célebre frase Conhece-te a ti mesmo. O conteúdo dessa ideia, séculos após, foi reproduzido através dos ensinamentos do Mestre ao afirmar: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará2. Essas questões devem ser interpretadas à luz da razão e, ao mesmo tempo devem, igualmente, conduzir-nos à outra análise que se encontra na pergunta 621 de O Livro dos Espíritos: Onde está escrita a lei de Deus? A resposta foi  direcionada no sentido do conhecimento da nossa realidade psicológica: Na consciência!

É naturalmente verdadeiro que a análise de todas essas questões indica que possuímos, em nossa intimidade psicológica, um tesouro extraordinário de valores, que não conseguimos ainda descortinar. Somente através do processo do autoconhecimento o ser humano principia extrair das profundezas do seu subconsciente, um diamante incrustado na rocha bruta para, em seguida, lapidá-lo, com o propósito de convertê-lo em joia cristalina e fulgurante. O ser humano é uma entidade em construção, necessitando se autodescobrir para se projetar no espaço infinito e ocupar o lugar que lhe foi destinado pelo Criador. Segundo Joanna de Ângelis3 A consciência de si desvela o mundo interno ignorado, favorecendo com reflexões agradáveis na busca do autoconhecimento. A imersão que se realiza na direção do nosso eu converte-se em profundo ato de compreensão da realidade espiritual individual, com o propósito de adquirir consciência do que somos e  iniciar o processo de construção daquilo que pretendemos ser. Afinal, somente quando adquirirmos conhecimento do que nos falta, seremos capazes de buscar valores para preencher o vazio existente presente na nossa intimidade: um verdadeiro processo de remodelação da alma.

O homem primário desconhece toda essa realidade porque não aprendeu ainda o significado da própria existência – vive à margem dos fenômenos que ocorrem à sua volta em razão da materialidade que ofusca a sua visão. Éxupery afirmou que o essencial é invisível aos olhos. Essa cegueira cultural, intelectual e espiritual explica os grandes desacertos que ocorrem no mundo das relações. Isso porque, como compreender o próximo, se não conhecemos nossa própria capacidade de entender o mecanismo da relação e da tolerância? Os homens maus esquivam-se à própria vida, destruindo a si mesmos, incapazes de suportar a própria companhia, no dizer de Hannah Arendt4. O homem vil, de Aristóteles, não consegue submeter seus desejos às ordens da razão e, por esse motivo, não pode exercer controle sobre seus próprios atos no universo relacional. Somente quando o homem se liberta das âncoras da matéria e inicia o percurso na direção da sua intimidade, consegue compreender o sentido da vida humana. Nesse processo de reflexão, a pessoa inicia a escalada nas grandes cordilheiras do Espírito, superando os difíceis e intricados caminhos que a conduzem à sua realidade existencial, começa a se tornar deus! Teilhard de Chardin5 esclarece que reflexão é o estado de uma consciência que se tornou capaz de se ver e de prever a si mesma. Pensar é não apenas saber, mas saber o que se sabe. Esse verdadeiro estado principiológico de consciência  habilita o ser humano ao domínio de si mesmo, o que significa iniciar  a conquista do seu poder de autocontrole. Liev Tolstói6 afirmou que a doutrina de Cristo tem grande poder exatamente porque requer a perfeição absoluta, isto é, a identificação do sopro divino que se encontra na alma de cada homem com a vontade de Deus, identificação do filho com o Pai.

Allan Kardec vislumbrou nos fundamentos da Doutrina Espírita, uma ciência na busca da verdade, do autoconhecimento, da introspecção analítica, da reflexão cognitiva sobre a nossa própria realidade e a do próximo. Não é uma filosofia meramente comportamental, senão instrumento de habilitação na direção do entendimento do complexo mecanismo que comanda nossa conduta no mundo da convivência.  Através do olho mental penetrante consegue-se a introspecção saudável, direcionada para as ocorrências psicológicas, desse modo adquirindo-se um conhecimento consciente7, assinala Joanna de Ângelis.

Essa viagem ao desconhecido, na direção do nosso subconsciente, é o desafio que a filosofia espírita nos convoca para comprender o significado real da encarnação e da evolução. Evoluimos por etapas porque, em cada retorno à matéria, o homem adquire novos conhecimentos, que se somam aos anteriores para, a partir de um determinado momento, compreender o significado e a razão da existência. Certamente que o momento culminante para o Espírito se revela quando inicia o autoconhecimento. Compreender é uma conquista que envolve saber, que se desenvolve na busca da consciência da realidade que nos envolve. Nessa linha de ideias, Erich Fromm8 assinala que  é a voz do verdadeiro eu que nos convoca para nós mesmos, para viver produtivamente, para desenvolver-nos ampla e hamoniosamente – isto é para tornarmo-nos aquilo que somos potencialmente (destaque do autor). Ou seja, a frase sugestiva de Fromm remete-nos à filosofia do Cristo quando afirmou que somos deuses. O homem, que se encontra em processo de autoconhecimento, somente será verdadeiramente livre quando se autodescobrir e trouxer à superfície do seu Espírito, os incomensuráveis valores que se encontram incrustados em seu subconsciente. Huberto Rohden9 ensina: Ora, sendo o homem essencialmente divino – embora a consciência da sua divindade se ache, por ora, em estado potencial de latência – pode a voz de Deus acordar nele o eco ou a reminiscência da sua origem divina. Um verdadeiro Deotropismo que nos impulsiona na direção do Criador, a exemplo das plantas que, através do heliotropismo, se dirigem para o sol.

Dessa forma, o ensinamento do Cristo nos conduziu a dois desafios – conhecer a nós mesmos e nos libertarmos das algemas que nos prendem ao dogma, ao preconceito e à ignorância para, a partir do conhecimento dessa realidade, alçar voo na direção do autoconhecimento. E, ao iniciarmos essa viagem, assumiremos o controle da nossa alma, instrumentando-nos para descer nas profundidades do nosso EU, que nos conduzirá às alturas das imensas cordilheiras do conhecimento, da compreensão e do significado da linguagem divina – seremos donos do nosso destino. E, nessa circunstância, poderemos realizar nossas escolhas, conscientes dos efeitos que elas produzirão em nossa existência. Seremos os deuses anunciados pelo Cristo! 

Referências:

  1. BÍBLIA, N. T. João. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 10, vers. 34.
  2. Op. cit. cap. 8, vers. 32.
  3. FRANCO, Divaldo Pereira. Iluminação interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2006. cap. 19, p. 122.
  4. ARENDT, Hannah. A vida do Espírito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 321.
  5. CHARDIN, Teilhard. O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 203.
  6. TOLSTÓI, Liev. O reino de Deus está em vós. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2011. p. 99.
  7. FRANCO, Divaldo Pereira. O despertar do Espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2000. cap. Atividades libertadoras, item Autoidentificação, p. 76.
  8. FROMM, Erich. Análise do homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961. p. 146.
  9. ROHDEN, Huberto. O sermão da montanha. 17. ed. São Paulo: Martin Claret Ltda. p. 184.
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