Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89

Vontade é o pensamento tornado força motora

setembro/2021

Allan Kardec contextualiza a vontade, da seguinte maneira[1]: O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o Espírito da matéria: sem o pensamento, o Espírito não seria Espírito.

 A vontade não é atributo especial do Espírito, é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento tornado força motora.

Força ativa que é, a vontade é uma das potências da alma, que o Espírito lança mão ou não, no exercício do seu livre-arbítrio.

Estabelecido um objetivo pela mente, a tenacidade da procura fica por conta da vontade.

A vontade é o botão poderoso que desencadeia o movimento ou a inércia do ser.

O pensamento, por sua vez, é produto mental do Espírito, o ser inteligente dotado de um senso moral especial.

Quando lemos as anotações doutrinárias espíritas que seguem, percebemos a relação ensino x novos pensamentos x novos paradigmas e compreensão x despertar da vontade x transformações morais:

Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.[2]

Em O Livro dos Espíritos, à indagação3: Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações? – encontramos:

Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!

Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade, lê-se em O Evangelho segundo o Espiritismo, folha de rosto.

A missão do Espiritismo consiste precisamente em nos esclarecer acerca da vida presente, sua razão, significado e finalidade, bem como à vida futura, no mundo espiritual, e fazer com que, até certo ponto, a toquemos com o dedo e a penetremos com o olhar, não mais pelo raciocínio somente, porém, pelos fatos.5

Diante da constatação e conscientização da imortalidade, os procedimentos de agora hão de ser outros. Vibrarão os conjuntos mais íntimos de todos os tecidos celulares, como se cantassem uma ode à vida!

Assim aparecerão reformulações ético-morais efetivas, uma vez decididas à luz da compreensão da existência de necessidades espirituais, fruto de amadurecidas reflexões, quando não pela força das circunstâncias existenciais.

Encontramos, em O Livro dos Espíritos4 que A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus.

A inteligência da distinção entre o bem e o mal fomenta nova compreensão sobre valores reais da vida, inspira novos pensamentos, e desperta a vontade para que forme novas referências de procedimentos cotidianos.

O arcabouço doutrinário espírita, com seus aspectos científicos, filosóficos, formadores de novo conceito-aspecto religioso, vem para reestruturar o pensamento humano e aclará-lo pela lucidez, terminando por reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade.

Em profundidade, as ideias espíritas provocam o despertar das consciências, que faz nascer o sentimento religioso, não por instalação de dogmas, mas por fazer ver e sentir o verdadeiro e sagrado significado da vida e da essencialidade de um viver em consonância com as Leis Divinas.

Traz ainda o afloramento da resignação nas adversidades, coragem nas aflições,  moderação nos desejos, diante da certeza de um futuro, que temos a faculdade de tornar feliz.

Ensina e nos estimula à indulgência para com os defeitos alheios e torna a abnegação, o altruísmo, a solidariedade, a fraternidade, modelo comportamental.

Muito judiciosamente, Kardec registrou5: … os incrédulos encontram aí a fé e os tíbios a renovação do fervor e da confiança. O Espiritismo é, pois, o mais potente auxiliar da religião.

Na mente vigem o ideal, a forma e a vida.

Aí começa a grande e silenciosa revolução.

O pensamento é criador e estruturador da vida.

Assim como a Vontade Divina é o supremo motor da Vida Universal, a vontade é o motor da existência humana.

Estabeleçamos o mais saudável bem-estar físico, mental e espiritual como meta existencial e vitalizemos com vigor essas ideias para que trabalhem com constância nesse sentido e estimulem uma vontade forte quão disciplinada, certos de que se realizará o desejado.

O que mentalizemos com fervor, persistência e continuadamente, mais dia, menos dia, se materializa em nossa existência.

O pensamento é o idealizador da vida, enquanto a vontade é o motor da existência.

Tornar-nos-emos aquilo que cultivemos na mente, se dedicarmos esforço e vontade.

Emmanuel afirma6: Por isso mesmo, somos o que decidimos, possuímos o que desejamos, estamos onde preferimos e encontramos a vitória, a derrota ou a estagnação, conforme imaginamos.

 Mudemos nossos pensamentos e mudaremos o nosso mundo.

O estudo sério da Doutrina Espírita é o meio modificador de padrões mentais, enquanto reflexões amadurecidas sobre seu conteúdo alavancam a vontade transformadora do viver.

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1868, v. 12. São Paulo: EDICEL, 1999. Sessão Anual Comemorativa dos Mortos.

2 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVII, item 4.

3 ______. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. XII, q. 909.

4 Op. cit. pt. 3, cap. I, q. 629.

5 Op. cit. pt. 2, cap. II, q. 148 comentários.

6 XAVIER, Francisco Cândido. Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1980. cap. 5.

 

 

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