Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89

Você já se converteu?

setembro/2021 - Por Cezar Braga Said

A palavra conversão tem sido frequentemente associada à adesão a algum credo religioso, ao abandono de certos hábitos para que uma nova postura seja criada na vida da pessoa.

Seria uma espécie de renascimento em vida a partir de um batismo, iniciação, reconhecimento de faltas ou algo assim.

Em Atos1, há um convite de Jesus ao arrependimento e também à conversão. Ações capazes de nos conferir harmonia e paz, despertando-nos para novos sentidos, novos caminhos…

Na língua hebraica, conversão vem de teshuvá que significa voltar para si mesmo, para a sua terra, voltar daquilo que é contrário à sua natureza, ou seja, para o que nos constitui, para a nossa verdadeira essência.

As religiões em geral promovem uma mediação, nos oferecem ensinamentos e práticas que ajudam neste processo, mas nada impede que o promovamos independentemente delas e de quaisquer mediadores.

Quando decidimos por um cuidado maior conosco, com os outros e com a natureza, buscando ampliar a empatia, tornando-nos atentos ao que pensamos, falamos e fazemos, nos perguntando sobre o nosso papel no mundo, começamos a nos converter.

É, na verdade, um estado progressivo de ampliação de consciência, um despertar para novas realidades, um investimento em potencialidades adormecidas, onde razão e sentimento se entrelaçam num formoso e delicado abraço como aquele que a terra oferece à chuva e o céu realiza com o mar.

A conversão não é instantânea e, mesmo quando parece súbita, decorre de buscas, perguntas e inquietudes que já estavam conosco à semelhança de uma criança que de repente começa a andar. Na verdade, é um processo cotidiano em que gradativamente estreitamos laços conosco, conhecendo-nos, aceitando-nos, amando-nos e iluminando-nos.

Com esta conversão tornamo-nos mais generosos com os demais, compreendemos e perdoamos com mais facilidade, identificamos mais sentido na vida e percebemos a grande teia que nos conecta uns aos outros.

Entendemos que culpas, ressentimentos e autocríticas excessivas nos paralisam, impedindo o aflorar de virtudes que estão latentes no solo do nosso coração, como sementes poderosas e fecundas, aguardando a água, a luz e o adubo da vontade para germinarem e se desenvolverem.

É um abrir de olhos da alma.

Convertidos, o amor passa a ser um sol que nos ilumina e aquece e a paz interior torna-se o indicativo de que estamos no caminho certo.

Perdemos a necessidade de sermos reconhecidos e ganhamos a percepção de que uma presença maior, bela, divina, se encontra manifesta por toda parte.

Silenciamos e ouvimos todas as vozes para as quais estávamos surdos e distraídos, especialmente a mais doce e imprescindível, a voz do nosso próprio coração!

Então, você quer se converter?

 

Referência:

  1. BÍBLIA, N. T. Atos. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 3, vers. 19.
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