Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Visões da Evangelização

agosto/2013 - Por Cezar Braga Said

Não há mais lugar nesse mundo para as ideias de paraíso e de inferno eterno.
Vemos na imensidade apenas seres que perseguem sua própria educação e que
se elevam pelos seus esforços no seio da harmonia universal.
Léon Denis (Depois da Morte, 2ª parte, cap. 12)

 

Durante muitos anos ouvimos dizer e também divulgamos que a evangelização salva.

Salvar é uma palavra que pode ter um cunho teológico, mas também um sentido literal de livrar do perigo, colocar-se ou colocar alguém em lugar seguro, protegido. No âmbito da medicina, os médicos diariamente salvam vidas, auxiliam criaturas no restabelecimento da saúde, preservam-nas da morte. Também no mundo dos negócios, quando alguém paga uma dívida para outrem ou empresta certa quantia num instante de desespero, de aperto financeiro, diz-se que fulano salvou o outro.

Do ponto de vista espírita a salvação não tem um caráter miraculoso, mas um sentido de autoeducação, que resulta numa transformação de nossos impulsos e hábitos, fazendo nascer dos escombros do homem velho um ser renovado e mais feliz. E isso dá trabalho e demanda tempo.

O Espiritismo, pois, não salva ninguém. Auxilia a cada um a salvar-se a si mesmo, no esforço íntimo, no silêncio da superação das próprias limitações.1

Quando afirmamos que a evangelização salva, devemos entender que ela instrumentaliza para o processo de salvação que é individual e que terá características, fases, ritmo e tempo diferenciado em cada Espírito.

Não se trata apenas de uma questão de palavras, mas de reforçar ou não os atavismos que trazemos do passado, que acabam fazendo com que vejamos coisas novas com lentes antigas.

Essa questão conceitual, por si só, leva-nos a pensar em diferentes abordagens que podemos fazer à tarefa de evangelizar, a partir de algumas visões estudadas na educação acadêmica.

Há quem atribua um caráter de redenção para a evangelização, que é exatamente essa visão salvacionista tradicional.

Acredita-se que bastará transmitirmos as lições evangélicas durante uma hora por semana, para fazermos o contraponto com o caráter meramente instrutivo de algumas escolas, com o descaso das mídias e com o alheamento e despreparo de muitos pais. Esses outros agentes educativos tendem a massificar o comportamento, condicionando crianças e jovens rapidamente, até mesmo pelo tempo de convivência e exposição aos mesmos.

Nesse sentido, precisamos relativizar o papel da evangelização para que a expectativa de resultados rápidos não nos frustrem, levando-nos a acreditar que não estamos nos esforçando, devidamente, nem fazendo o nosso melhor pela infância e pela juventude.

Essa visão redentora pretende preparar o Espírito principalmente para a vida após a morte, depositando em seu cerne informações que lhe permitam resistir às tentações existentes em nosso mundo. Resistir nem sempre tem o sentido de entender para poder evitar, mas afastar-se porque algo é ruim, nem sempre se explicando por que tal coisa é prejudicial ou procurando saber se o evangelizando compreendeu, alcançou o que estamos querendo lhe dizer.

Naturalmente que a evangelização tem esse sentido preventivo, preparador, mas seu foco deve ser a vida terrena, com vistas à vida espiritual e não o contrário, pois o sucesso ou o fracasso nesta é que determinará a felicidade ou a desventura naquela.

Não se trata de dar menos valia à vida espiritual, mas, sim, de dar um pouco mais valor à vida terrena, equivocadamente vista, muitas vezes, como uma mera passagem e não uma oportunidade preciosa de trabalho, aprendizagem e crescimento espiritual.

Na verdade, uma rica oportunidade de desfazermos erros, desatarmos nós, ampliar laços, desenvolver as faculdades latentes, aperfeiçoar as que já estejam afloradas, melhorando nossa condição intelecto-moral.

Outra abordagem possível é aquela centrada na reprodução.

Ela se manifesta quando afirmamos que a evangelização visa preparar os futuros trabalhadores do centro, os dirigentes do amanhã, para que as atividades não sofram solução de continuidade. Com essa afirmação, reproduzimos nas instituições espíritas um dos fins das políticas educacionais, que é a formação para o mercado de trabalho. Com a diferença de que no nosso caso trata-se de mão de obra para as nossas instituições.

Nada contra uma possível e até saudável articulação dos fins perseguidos pela educação nacional, com os fins perseguidos pela evangelização espírita, caso apresentem pontos de convergência. É importante, inclusive, que estabeleçamos em nossos centros espíritas estratégias de preparação dos futuros trabalhadores. No entanto, reduzir a evangelização espírita a isso, seria desconhecer a profundidade e a amplitude da sua proposta.

Uma terceira abordagem é aquela que identifica na evangelização o seu caráter de transformação.

O evangelizador tem consciência dos limites do seu trabalho, sabe que os educandos estão sob diversas influências durante toda a semana e percebe-se como mais um desses agentes educativos, com o diferencial de ser aquele que apresenta um conteúdo transcendental, revolucionário, que deve ser contextualizado e que pode ser reconstruído na relação com seus evangelizandos.

Essa visão não incorre no risco de repetição dos objetivos de algumas religiões tradicionais e não se limita a trazer para o centro de forma acrítica, metodologias, conteúdos e abordagens adotadas na educação de um modo geral, produzindo uma reprodução ou enxerto. Antes, promove uma releitura desses fatores e desenvolve um modo próprio de conceber e operacionalizar a evangelização espírita.

Visa à transformação do mundo, simultaneamente à transformação do Espírito. Entende que o mundo e o ser estão numa relação dialética, isto é, numa via de mão dupla, um exercendo influência sobre o outro. Logo, não se concebe apenas que a sociedade só será melhor quando todos nos tornamos melhores, a sociedade e o homem se melhoram num processo contínuo, por meio das interações que se dão nos grupos e nas instituições sociais.

Para que a evangelização tenha esse sentido transformador, é preciso que mais do que um trabalho de reprimir imperfeições, ela seja uma tarefa de despertar potencialidades.Mais do que condicionamento para as ideias espíritas, ela se volte para o desenvolvimento do senso crítico, inclusive para que os evangelizandos aprendam a separar o joio do trigo nos próprios conteúdos que são apresentados como sendo espíritas. Que reforce a individualidade, o autoconhecimento, mas nunca o individualismo e quaisquer ilusões do Espírito acerca de si mesmo e da vida como um todo.

Ela precisa estar voltada para a construção da autonomia, que se dá a partir do autoconhecimento e do exercício correto do livre-arbítrio.

Também é oportuno lembrar que acenamos muitas das vezes, mais com as terríveis consequências que se voltam para quem pratica o mal, do que para as alegrias que visitam aqueles que fazem o bem.

Desse modo, muitos acabam fazendo o bem pelo medo do umbral ou pelo sonho de estar numa boa colônia espiritual, quando o prazer do bem já é em si um ganho, uma recompensa sem precedentes.

Mais do que pensar em preparar trabalhadores, a evangelização espírita precisa oferecer elementos para que o Espírito vá construindo, de forma sólida, a sua felicidade, que poderá, mais tarde, não se dar exclusivamente na frequência a um centro espírita.

Se o poeta e escritor libanês, Khalil Gibran, disse que os filhos não pertencem a seus pais, parafraseando-o, diremos que os evangelizandos não pertencem ao centro espírita nem aos evangelizadores que os orientam, mas a Deus e ao Universo que lhes cabe de forma autônoma, crítica e solidária, desvendar e transformar.



1 . CHRISPINO, Álvaro. A salvação na visão espírita. Reformador, junho de 1996, p.22.

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