Jornal Mundo Espírita

Março de 2019 Número 1616 Ano 86
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Viktor Emil Frankl

março/2017 - Por Marco Antônio Negrão

Ele foi médico psiquiatra e professor de neurologia. Viveu de setembro de 1942 a abril de 1945, confinado, como prisioneiro, em diversos campos de concentração mantidos pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial: Auschwitz, Kaufering e Türkheim. Ajudou muitos prisioneiros, como ele, a sobreviverem aos horrores desses campos1: Encontrei o significado da minha vida, ajudando os outros a encontrarem o sentido das suas.

Ao assumirem o poder, os nazistas iniciaram um grande programa ligado à política social racial, que pregava a pureza da raça ariana. Era um programa de limpeza (eutanásia) dos inaptos, doentes e das chamadas raças inferiores.

Em 1938, a Áustria foi anexada à Alemanha nazista. Esse trabalhador do bem,  Viktor Emil Frankl, nascido em Viena, em 26 de março de 1905, ocupava, em 1940, o cargo de diretor do Departamento de Neurologia no Hospital Rothschild, clínica para pacientes judeus e passou a sabotar o plano nazista de fabricar falsos diagnósticos para justificar a eutanásia dos pacientes internados.

Em setembro de 1942, foi enviado, com sua esposa e seus pais para o gueto de Theresienstadt, na cidade de Terezin, onde seu pai viria a morrer de exaustão. Viktor perdeu a sua identidade, tornando-se simplesmente o prisioneiro 119.104.

O manuscrito do livro que escrevera e trazia, como seu tesouro, lhe foi tomado e destruído. Um grande projeto, simplesmente desprezado e destroçado.

Sua esposa foi transferida para o Campo de Bergen Belsen e morreu aos 24 anos de idade, o que ele somente ficou sabendo, em Viena, ao final da guerra.  Sua mãe foi transferida para Auschwitz, sendo morta nas câmaras de gás.

Todos esses horrores ambientaram o livro que deu origem à chamada Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (Primeira – Psicanálise Freudiana; Segunda, Psicologia Individual de Adler)4: Em busca do sentido – um psicólogo no campo de concentração. O livro foi escrito em nove dias. É um relato autobiográfico do que ele padeceu e do que presenciou os companheiros de infortúnio sofrerem.

Inicia Viktor fazendo uma descrição dos sofrimentos enfrentados pelo prisioneiro 119.104: a recepção, a vida no campo, onde cavou túneis, trabalhou em escavações e em construções de ferrovias. Desenvolve, depois, a sua teoria psicoterapêutica.

Relatou ele: Jamais vou esquecer certa noite em que fui acordado pelo companheiro que dormia ao meu lado a gemer e revolver-se, evidentemente sob o efeito de algum pesadelo horrível. Quero observar de antemão que pessoalmente sempre tive pena de pessoas torturadas por angustiosos pesadelos ou fantasias. Por isso eu estava prestes a acordá-lo. Neste instante, assustei-me do meu propósito e retirei a minha mão que já ia despertar o companheiro do seu sonho, pois naquele momento me conscientizei com muita nitidez de que nem mesmo o sonho mais terrível poderia ser tão ruim como a realidade que nos cercava ali no campo; e eu estava prestes a chamar alguém de volta para a experiência desperta e consciente dessa realidade…

 

Descreveu que, em certo momento, percebendo que seus companheiros de galpão estavam precisando de ânimo para continuarem enfrentando as suas agruras, lhes falou, dando2 a entender que a vida humana tem sentido sempre e em todas as circunstâncias, e que esse infinito significado da existência também abrange sofrimento, morte e aflição. Pedi àqueles pobres coitados, que há tempo me escutavam na escuridão total do barracão, que olhassem de frente para a situação em que estávamos, por mais difícil que ela fosse, e não desesperassem, mas recobrassem o ânimo, cientes de que, mesmo perdida, a nossa luta, nossos esforços não perderiam seu sentido e dignidade. Cada um de nós, nestes momentos difíceis e mais ainda na hora derradeira que se aproxima para muitos de nós, se encontra sob o olhar desafiante de amigos ou de uma mulher, de um vivente ou de um morto – ou sob o olhar de Deus, que espera que não o decepcionemos e que saibamos sofrer e morrer não miseravelmente, mas com orgulho! Encerrando, falei do nosso sacrifício. Disse que ele tem sentido em todo e qualquer caso. (…) Dar a esta vida, aqui e agora, naquele barracão, naquela situação praticamente sem saída, este sentido último, foi o propósito das minhas palavras.

Não demorou muito e pude perceber que esse propósito atingira o seu objetivo. Ao acender-se novamente a lâmpada elétrica do barracão, vi achegarem-se as figuras miseráveis de meus companheiros, mancando, com lágrimas nos olhos, para agradecer-me. Mas quero confessar aqui que apenas raramente tive a força interior para abrir-me num contato tão intenso e último com meus companheiros de cruz como naquela noite.

Ao ser libertado, a 27 de abril de 1945, pelas tropas norte-americanas. Viktor Emil Frankl descobriu que, de sua família, somente restara sua irmã Stella, que fugira para a Austrália.

Esteve no Brasil, em 1984, em Porto Alegre/RS; no Rio de Janeiro/RJ, em 1986 e em Brasília/DF, em 1987.

Morreu aos 92 anos, em 2 de setembro de 1997, na mesma cidade em que nascera.

Graças a ele, muitos companheiros de infortúnio tiverem uma centelha de esperança e buscaram um sentido para tudo aquilo que lhes aconteceu. Inúmeros prisioneiros deixaram de ir para o fio, maneira que eles encontravam de cometer suicídio atirando-se sobre os fios eletrificados dos campos.

 

Bibliografia:

¹- http://www.logoterapia.com.br/index.php

2– Frankl, Viktor Emil. Em busca de sentido. São Leopoldo: Sinodal e Petrópolis: Vozes, 2008

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