Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89

Vicissitudes

setembro/2021 - Por Rogério Coelho

As dores da vida derivam de uma causa e sendo
Deus justo, justa há de ser essa causa

 Bem-aventurados os que choram,
porque estes serão consolados.1
Jesus

 

Não posso dizer que sou feliz; ninguém pode dizê-lo em forma absoluta ­– declarou, certa vez, em uma entrevista, a senhora Zulema Menen, ex-esposa de Carlos Menen (ex-presidente da Argentina).

O cardeal Morlot, François-Nicolas-Madeleine, enviou, para nossa instrução e esclarecimento, a seguinte página2: Não sou feliz! A felicidade não foi feita para mim! exclama geralmente o homem em todas as posições sociais.  Isso, meus caros filhos, prova, melhor do que todos os raciocínios possíveis, a verdade desta máxima do Eclesiastes: “A felicidade não é deste mundo”.  Com efeito, nem a riqueza, nem o poder, nem mesmo a florida juventude são condições essenciais à felicidade. Digo mais: nem mesmo reunidas essas três condições tão desejadas, porquanto incessantemente se ouvem, no seio das classes mais privilegiadas, pessoas de todas as idades se queixarem amargamente da situação em que se encontram.

Diante de tal fato, é incontestável que as classes laboriosas e militantes invejem com tanta ânsia a posição das que parecem favorecidas da fortuna.   Neste mundo, por mais que faça, cada um tem a sua parte de labor e de miséria, sua cota de sofrimentos e de decepções, donde facilmente se chega à conclusão de que a Terra é lugar de provas e de expiações.

Assim, pois, os que pregam que ela é a única morada do homem e que somente nela e numa só existência é que lhe cumpre alcançar o mais alto grau das felicidades que a sua natureza comporta, iludem-se e enganam os que os escutam, visto que demonstrado está, por experiência arquissecular, que só excepcionalmente este globo apresenta as condições necessárias à completa felicidade do indivíduo.

O em que consiste a felicidade na Terra é coisa tão efêmera para aquele que não tem a guiá-lo a ponderação, que, por um ano, um mês, uma semana de satisfação completa, todo o resto da existência é uma série de amarguras e decepções. (…)

Conseguintemente, se à morada terrena são peculiares as provas e a expiação, forçoso é se admita que, algures, moradas há mais favorecidas, conforme afiançou Jesus3: “Na Casa do Pai existem muitas moradas”, onde o Espírito, conquanto aprisionado ainda numa carne material, possui em toda a plenitude os gozos inerentes à vida humana. Tal a razão por que Deus semeou, no vosso turbilhão, esses belos planetas superiores para os quais os vossos esforços e as vossas tendências vos farão gravitar um dia, quando vos achardes suficientemente purificados e aperfeiçoados.2

 Aprendemos com Kardec4 que o Espiritismo vem informar que a Terra não está destinada a ser eternamente uma penitenciária, perpétuo logradouro de Espíritos infelizes. O progresso se fará e num remotíssimo futuro as gerações porvindouras usufruirão de uma Terra onde já não seja vã a palavra felicidade, visto que somente na vida futura podem efetivar-se as compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra. Sem a certeza do futuro, estas máximas seriam um contrassenso; mais ainda: seriam um engodo!…

(…)A fé no futuro pode consolar e infundir paciência, mas não explica essas anomalias, que parecem desmentir a justiça de Deus. Entretanto, desde que admita a existência de Deus, ninguém O pode conceber sem o infinito das perfeições. Ele necessariamente tem todo o poder, toda a justiça, toda a bondade, sem o que não seria Deus. Se é soberanamente bom e justo, não pode agir caprichosamente, nem com parcialidade. “Logo, as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa.”

De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida.

O infortúnio que à primeira vista parece imerecido tem sua razão de ser, e aquele que sofre está expiando o seu passado delituoso e pode sempre dizer: Perdoa-me Senhor, porque pequei!

Ensina Joanna de Ângelis5 que o Eclesiastes afirma: “A felicidade não é deste mundo”, e Jesus, dando validade ao conceito, corroborou-o, na assertiva de que o Seu “Reino não é deste mundo”, porquanto, não obstante a felicidade não possa ser totalmente fruída na Terra, aqui pode e deve ser trabalhada, constituída para atingir o seu estágio superior, fora do corpo, no Reino do Espírito, que é o Reino do Cristo.

Jesus, ao afirmar: Eu venci o mundo, está convocando-nos a arrotear o solo sáfaro de nossas almas, preparando-o para a sementeira do Bem; convocando-nos a alimentar os ideais de enobrecimento, a não desarticularmo-nos ao defrontarmos as dificuldades, a trabalhar em favor de todos, superar as condições adversas, abrir mão do egoísmo, do orgulho, da vaidade, do personalismo, ensejando condições propícias para a colheita da felicidade futura, de ordem metafísica, mas que será a linfa cristalina que nos dessedentará, não produzindo outra satisfação que se não vincule à harmonia e à paz…

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 5, vers. 4.

2 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V, item 20.

3 BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 14, vers. 2.

4 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V, itens 3 e 4.

5 FRANCO, Divaldo Pereira. Alerta. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1981. cap. 55.

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