Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
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Viagem Espírita em 1862

fevereiro/2013

Francisco de Assis Pereira, da Federação Espírita do Rio Grande do Norte lembrou, em muito bem elaborado artigo (O Mensageiro, ano XXIV, nº 102, out/nov/dez 2012),  que o ano de 2012 assinalou o Sesquicentenário da grande viagem do Codificador, cujo registro se encontra na obra Viagem Espírita em 1862, que chegou ao Brasil somente na década de 70, em idioma nacional (Casa Editora O Clarim, tradução de Wallace Leal Rodrigues).

Conforme registra Assis, o livro é composto por verdadeiro relatório de viagem  mas, ultrapassando o referido gênero, é texto de extrema importância para o Movimento Espírita por conter orientações e advertências sobre o movimento além, claro, de constituir um documento de relevância histórica para todos os espíritas.

Allan Kardec fez viagens para orientação, intercâmbio e confraternização

nos anos de 1860 [Sens, Mâcon, Lyon e Saint-Étienne], 1861[Sens, Mâcon, Lyon, Lille e Bordeaux], 1862, 1864 [Antuérpia e Bruxelas], 1866 [Bordeaux] e 1867 [Tours, Orléans, Bordeaux], inaugurando a divulgação doutrinária através das tribunas e a atividade de unificação.

Tudo começou no outono de 1860 quando, atendendo ao convite do Sr. Guillaume, o Codificador visita Lyon, sua terra natal e surpreende-se com o desenvolvimento do Espiritismo na “terra dos mártires”, como era conhecida.

Na noite de 19 de setembro de 1860, na sede do Centro Espírita de Brotteaux, inicia-se o movimento de Unificação pelo encontro de dirigentes espíritas: Kardec e o casal Dijou se abraçam e  confraternizam.

Em seu discurso abordaria, dentre outros pontos, as três categorias de

adeptos,  além das orientações quanto à formação dos grupos, o cuidado com

as divergências, critérios para solucioná-las e alertas quanto à ação dos espíritos embusteiros, além de tecer comentários em torno da influência do

Espiritismo na estrutura social.

No outono seguinte retorna a Lyon após passar em Mâcon e Sens e verifica a multiplicação dos seguidores do Espiritismo, o que lhe traz felicidade. Dessa feita, abordaria um dos seus temas prediletos, a caridade. Novas orientações e conselhos completam o conteúdo da fala do Codificador que fez o registro da viagem nas páginas da Revista Espírita (1861, novembro).

Destacamos, em seu discurso, as considerações em torno dos efeitos do Espiritismo: restabelecimento da paz em numerosas famílias, transformação de pessoas coléricas em mansas e pacientes, o impedimento de inúmeros suicídios, a presença da resignação para muitos que não a possuíam, destruição em muitas mentes de ideias materialistas.

A força do Espiritismo, acentua, estava na seriedade dos estudos e no seu mais belo lado, a saber, o lado moral, pois por suas consequências morais a Doutrina Espírita alcançará o triunfo, asseverava.

A viagem empreendida em 1862 é a resposta de Allan Kardec a um convite subscrito por quinhentas assinaturas, mais uma vez de origem lionesa. O Codificador viajou durante sete semanas, enfrentando a chuva, o frio e a neve, visitando vinte e uma cidades, presidindo mais de  cinquenta reuniões.

É na Revista Espírita de novembro de 1862 que encontramos as ricas informações de Kardec sobre a mais longa e, cremos, importante viagem que realizou, cujos registros compuseram a obra Voyage Spirite en 1862.

O professor Rivail destaca os seguintes objetivos dessa viagem: oferecer orientações onde houvesse necessidade e instruir-se; “Ver” (avaliar) com os próprios olhos como a Doutrina Espírita era compreendida; estudar as causas

locais favoráveis ou desfavoráveis; sondar opiniões; apreciar efeitos da oposição e da crítica e conhecer o julgamento que se faz de certas obras; confraternizar com os irmãos de ideal.

O progresso na adesão ao Espiritismo, a penetração das ideias espíritas em localidades onde era desconhecido e sofria ação dos opositores, a existência de grupos espíritas sérios e com boa direção, a multiplicação de médiuns moralistas, a educação de crianças sob a influência das ideias espiritistas, a ação sacrificial e devotada de confrades trabalhadores da Causa são algumas das impressões do Codificador.

Algumas observações também merecem destaque: a presença da ideia do diabo na cultura local, inúmeros casos de obsessão que seriam comentados também na Revista Espírita, atitudes polarizadas em alguns grupos “fascinados” e grupos excessivamente “desconfiados”, ausência de restrições por parte de autoridades em delicado momento político francês, existência de médiuns interesseiros e “profissionais”, publicações sem base doutrinária, o que ainda é atual nos nossos dias.

A atitude positiva de Kardec diante dos críticos alia objetividade e bom senso. Em uma de suas respostas destaca: o Espiritismo  “é, sobretudo, todo ele, uma questão de princípios.

Ele é forte principalmente por suas consequências morais; ele se faz aceito

não porque fecha os olhos mas porque toca os corações.”

Como vimos, são relatos instrutivos e alertas de caráter atual nos oportunizando sérias e profundas reflexões em torno do movimento espírita. O cuidado com a motivação para a constituição de casas espíritas, a necessidade da primazia do estudo para que alcancemos uma formação doutrinária consistente, a prática mediúnica séria baseada na fé viva, sentimentos puros e desinteresse moral, ou em outras palavras: abnegação, humildade, ausência de pretensões orgulhosas e de personalismo. Em nenhum lugar, afirmou, viu diversão em torno da teoria e da prática espírita.

Viagem Espírita em 1862 é a história viva do Espiritismo nascente, o lançamento das primeiras balizas do Movimento Espírita em solo europeu, verdadeira epopeia que somente um Espírito de escol poderia levar a bom  termo naqueles tempos difíceis do século XIX.

O roteiro realizado por Allan Kardec compreendeu um total superior a quinze mil quilômetros, numa época em que não havia avião, e o meio de transporte usado era o cabriolé ou a charrete.

Tudo porque, conforme escreveu: Estávamos desejosos, sobretudo, de apertar a mão de nossos irmãos espíritas e de lhes exprimir pessoalmente a nossa mui sincera e viva simpatia, retribuindo as tocantes provas de amizade que nos dão em suas cartas; de dar (…) em particular, um testemunho especial de gratidão e de admiração a esses pioneiros da obra que, por sua iniciativa, seu zelo desinteressado e seu devotamento, constituem os seus primeiros e mais firmes sustentáculos.

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