Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Valente

janeiro/2016 - Por Maria Helena Marcon

Vige, nos dias atuais, em algumas famílias, de forma muito forte, a questão da tradição. Manter a tradição. Seguir a tradição.

E nisso inclui-se a questão da profissão, primando os pais para que seus rebentos sigam o rumo dos seus passos, que também foi o dos seus avós e assim por diante.

Estudar Medicina ou Direito. Cursar Engenharia. Ser tão importante quanto os antepassados. Honrar o nome da família.

Pensando nessas questões, quando se assiste à animação Valente, produção de 2012, da Pixar Animation Studios da Disney, lançada no Brasil em 20 de julho desse mesmo ano, não se pode deixar de fazer uma rápida associação.

Merida é uma princesa escocesa, com sua enorme cabeleira ruiva de cachos indomáveis. Tão indomáveis quanto ela mesma. Algo assim como: Não adianta me prender, que eu me solto.

Merida é uma adolescente alegre, impetuosa, vibrante e volúvel. Para ela, a tortura é suportar as aulas intermináveis sobre história, geografia, idiomas e tudo o mais que uma princesa precisa saber, sem falta. Bordar, cantar, sentar de forma adequada, recepcionar as pessoas, tudo entra no currículo imposto pela rainha Elinor, sua mãe, que a deseja ver ascender ao trono, em grande estilo.

E isso nos fala de uma escola convencional, que não atenta para a criatividade, a inteligência do aluno e a todos trata de igual forma. Quem não se enquadra, é tido como estranho e, quase sempre, passa a sofrer bullying.

A princesa tenta fugir a tudo isso. Ela cavalga pelos bosques, ri alto demais e tem mira irrepreensível com o arco e flecha. Ir até o bosque, escalar uma montanha para tomar água da Cascata de Fogo é a glória. Lamentável é que todas essas coisas incríveis são vistas pela rainha como inapropriadas para uma descendente real, candidata ao trono. Sequer escuta o que a filha, entusiasmada, narra.

O que se evidencia, de forma gritante, é como os pais olham para os dotes da filha de forma diversa. Para a mãe, tudo em Merida está errado. Ela é uma princesa e precisa se preparar para assumir um trono. Para o pai, ela é o orgulho, a filha que comunga com ele da caça, da habilidade com o arco e flecha, com a aventura.

Apesar disso, o casal procura não discutir suas contradições quanto à educação da filha diante dela, o que evita ainda maior rebeldia por parte da menina.

O que Merida mais deseja é que sua mãe a escutasse. Ela desejaria ser ouvida, entendida e também elogiada pelas suas conquistas, pelo que lhe constitui alegria e prazer.

Quando, atendendo à tradição, ela deve ficar noiva e se casar, as dificuldades entre mãe e filha recrudescem. Ela não tem o direito de escolher o seu par, sendo disputada sua mão em um torneio de arco e flecha, entre três clãs.

Isso nos conduz à uma indagação: por que as pessoas devem ser preparadas todas para o casamento?

Não será essa a causa de algumas vidas frustradas, por que a pessoa não se casou? Ou porque, em tendo se casado, o fez com quem lhe apareceu, sem muito discernimento da própria vontade, simplesmente para não ficar para titia?

Quando se lê a respeito de pessoas extraordinárias que não se casaram para total dedicação ao semelhante e as honramos, por que não pensamos nisso, na educação dos nossos filhos?

Quando aprendemos a respeito dos Espíritos missionários que vêm à Terra, é de nos indagarmos por que persistimos em opiniões retrógradas, com respeito ao que desejam nossos filhos? Não poderão ser eles um desses revolucionários das ciências, das artes?

Não seria o mais correto ouvir, auscultar o coração dos filhos e auxiliá-los no cumprimento de suas missões?

Merida busca as próprias soluções e, exatamente como a maioria de nós, o que ela imagina é algo rápido e sem maior esforço. Um feitiço. Um feitiço que faça mudar a sua mãe, sua forma de pensar, que ela aceite rejeitar essa forma esdrúxula de conceder a mão da filha em casamento.

Infelizmente, a atrapalhada feiticeira, cujo único móvel era ganhar muito dinheiro para realizar a viagem dos seus sonhos, lhe oferece um feitiço que transforma sua mãe em um urso.

E Merida fica com o problema nas mãos: desfazer o feitiço, afinal, não era isso que ela queria. Sua primeira reação é a que costumamos ter quando algo dá errado: a culpa é do outro. Como escreveu Jean Paul Sartre, o inferno são os outros. No caso em pauta, a bruxa é a culpada. Ela deu o feitiço errado. Ela não ensinou como deveria ser usado. Ela não alertou das consequências.

É de nos perguntarmos: Por que procuramos soluções simplórias e mais fáceis? Por que delegamos a outros a responsabilidade do que nos compete?

Se temos um problema no lar, se temos uma dificuldade de relacionamento quem, senão nós mesmos, poderemos solucionar, com diálogo, compreensão?

A mensagem para ela, a menina ruiva, é de que Se a sina foi alterada, deve remendar a união por orgulho separada.

E Merida se propõe a remendar o enorme pano de parede que a mostrava com os pais e que ela, com um golpe de espada, em um momento de raiva, rasgara, separando-a de sua mãe.

Faz-nos pensar em como, por vezes, entendemos mal as orientações espirituais. Em verdade, não é a tapeçaria que deve ser costurada, é a sua relação pessoal com a mãe que deve sofrer ajustes, o que logo haverá de descobrir.

Afinal, o que ela e a mãe descobrem, quando ficam a sós, longe do palácio e das conveniências, é como se amam. Merida recorda quantas vezes, em criança, com medo dos trovões e dos raios, corria a se amparar nos braços maternos, que a embalavam, enquanto a voz doce lhe dizia: Eu estarei sempre aqui.

O desenho se revela questionador em muitos aspectos e crítico em outros, como quando, ao tentar resolver o seu problema, Merida nada mais encontra do que uma central de atendimento, estilo feiticeira, é claro, em que, conforme a opção que deseje, deve jogar no caldeirão, o frasco 1, ou 2, ou 3.

Dificuldade que muitos de nós encontramos, exatamente na medida em que, como clientes, adquirimos um determinado produto e, quando os problemas se apresentam, nos deparamos somente com gravações e mais gravações, que nos remetem para aqui, para ali, dificultando a solução do problema ou, até mesmo, a devolução ou desistência do que foi adquirido.

Muito interessante também a libertação de um Espírito, acorrentado ao mal, há séculos e que é apresentado como um enorme urso mau, um verdadeiro assassino, Mor”du, o que nos lembra as descrições de licantropia, narradas nas obras mediúnicas, sobretudo por André Luiz (Libertação/psicografia de Francisco Cândido Xavier) e Manoel Philomeno de Miranda (Nos bastidores da obsessão/psicografia de Divaldo Pereira Franco).

O que no desenho animado é creditado à conta de um feitiço, de que ele se serviu, por ambição, poderíamos entender como a descrição da justiça que Espíritos de qualidade inferior tomam em suas mãos, qual a descrita no cap. 6 de Nos bastidores da obsessão: Façamos com ela o que no íntimo sempre foi: uma loba!

E, utilizando-se de processos hipnóticos deprimentes, atuando no subconsciente perispiritual abarrotado de remorso, a infanticida assume a aparência que lhe é sugerida.

De forma semelhante, encontramos descrição no capítulo 5 da obra Libertação.

No desenho, o urso assassino, caçado e morto, encontra, por fim, a paz. E o fato de assumir novamente a forma perispiritual humana diz que ele, finalmente, iniciará a sua redenção. Até mesmo porque, à semelhança do que ocorre, quando nos diálogos nas reuniões de desobsessão, o Espírito agradece a libertação.

Interessante que isso se dá em um cenário muito semelhante ao monumento de Stonehenge (alinhamento megalítico da Idade do Bronze, localizado na planície de Salisbury, próximo a Amesbury, no condado de Wiltshire, no Sul da Inglaterra).

Na mitologia celta, os círculos de pedras têm uma função muito importante: eles demarcam espaços sagrados.

É ali que Merida vê as luzes mágicas, que a conduzem ao local onde ela conhece a verdadeira história de Mor”du.

Por fim, depois de sua trágica experiência fora dos muros do palácio, conhecendo dificuldades e outras realidades, a rainha Elinor retorna com outra disposição. E, afinal, rompe-se a tradição, o que acaba por todos agradar, considerando que os clãs mantinham aquela tola tradição de casar com a filha do rei quem melhor se apresentasse em disputa de arco e flecha, somente por manter. A questão era tão antiga que já perdera o significado. As novas gerações tinham outras e renovadas ideias, arejadas, onde cada qual poderia escolher a sua consorte, não graças a um mero desafio, mas conforme os ditames do coração, caracterizando a consolidação de um lar sobre as bases sólidas da afeição genuína.

Valente é, assim, mais uma produção infantil, de alto teor pedagógico e com passeios doutrinários, que conduzem a reflexões. Uma menina rebelde que vence por seu esforço, por sua persistência e no qual, ao contrário de certos contos de fadas e muitos desenhos animados, sua recompensa não é um castelo, um príncipe, e uma vida cor de rosa.

Sua recompensa é modificar o seu entorno, é passar a ter um relacionamento saudável com sua mãe e com os próprios irmãos, pestinhas como ela os chamava e aos quais invejava pela liberdade de que gozavam.

Vale a pena assistir!

 

Ficha técnica:

Direção: Brenda Chapman, Mark Andrews

Música : Patrick Doyle

Ano de produção: 2012

Personagens: Princesa Merida, Rei Fergus, Rainha Elinor, Jovem Mac Guffin

Canções  originais: Into the open air, Learn me right, Touch the sky

Elenco:

Kelly Macdonald………………Princesa Merida

Billy Connolly…………………Rei Fergus

Emma Thompson………………..Rainha Elinor

Kevin Mc Kidd…………………Jovem Mac Guffin

Julie Walters……………………Bruxa

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