Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86

Uma família extraordinária

março/2018

A história de um menino que nasce com uma síndrome genética, cuja sequela é uma deformidade facial, é o pano de fundo para a emocionante história de uma família que envida todos os esforços visando lhe dar as melhores condições para uma vida feliz em sociedade.

Falamos da história de August (Auggie) Pullman, personagem central do livro Extraordinário, de autoria de R. J. Palacio, adaptado para as telas do cinema e que estreou, no início de dezembro [2017], no Brasil. No filme, além do drama vivido por Auggie, enfrentando todo tipo de medo, rejeição e preconceito, identificamos o imenso esforço de uma família preparando e amparando esse menino para que tenha uma vida o mais normal e o menos traumática possível. Esforços que lhes exigem amor, dedicação e abnegação extremas.

August é o Sol. Eu, a mamãe e o papai giramos em volta dele. Esta é uma das falas de Via, sua irmã, que percebeu, desde pequenina, que aquele irmãozinho, fruto de um de seus pedidos de aniversário, tinha necessidades muito especiais, que exigiriam dela maior independência e maturidade para compreendê-lo, defendê-lo e também abrir mão de grande parte da atenção e cuidado de seus pais, que teriam de ser direcionados para ele. Via não é o ser perfeito que não sofre com a situação, mas é o retrato do olhar e da ação cristã que sabe enxergar a necessidade do próximo, abrindo mão das suas próprias; feliz por cumprir o papel que lhe cabe no contexto.

Isabel, a mãe de August, deixa de lado a profissão de ilustradora de livros infantis, interrompe sua dissertação de mestrado e passa a se dedicar em tempo integral aos cuidados do filho, logo após seu nascimento. São dias e noites de preocupação e dedicação intensas, vividas entre sua casa e o hospital, onde Auggie passou por vinte e sete cirurgias plásticas de reconstrução facial. Visando protegê-lo, mas sem descuidar de seu futuro, lhe dá aulas em casa até os dez anos. Apesar de todo o cuidado, tem a coragem de convencer o marido e o próprio filho de que ele precisaria frequentar uma escola, pois necessitava aprender mais do que ela podia ensinar. Com certeza, não se referindo somente ao conteúdo intelectual mas, sobretudo, ao aprendizado de vida que se fazia necessário, enfrentando o mundo que o aguardava.

Ela é a mãe que relega a segundo plano seus desejos, dedicando-se quase que exclusivamente aos cuidados da família, em particular ao filho. A mãe que, apesar de toda a dificuldade da situação vivida, consegue fazer graça ao dramatizar para o filho a aventura que foi o seu nascimento. Uma mãe que sofre, quando percebe que a filha cresceu e que muitas lacunas ficaram no relacionamento entre elas. Uma mulher que ama aos filhos e ao marido, compartilhando com ele as angústias e as vitórias de cada novo dia.

Na figura do pai, Nate, observamos o companheirismo ao lado de August, representando a importância da figura masculina para a criança e para a família. Fortalece no pequeno a coragem e a perseverança em nunca desistir, em enfrentar seus medos e a contar com o porto seguro do lar, sempre que necessário. No papel de provedor da família, não deixa de ser presente, sensível e amoroso com a esposa e os filhos.

Por fim, olhamos para o próprio August e vemos, na visão ampliada que a Doutrina Espírita nos permite, um Espírito reencarnado, com um desafio grandioso de superação de muitas dificuldades e que, apesar das restrições e situações que a vida lhe impõe, enfrenta cada uma delas, dia após dia, entre alegrias e tristezas, conquistas e decepções, sem nunca desistir. Apesar da sua condição física especial, demonstra, como todas as outras crianças, a ternura e também as imperfeições próprias e características da maioria dos Espíritos reencarnados na Terra, que precisa de empenho, dedicação, firmeza e amorosidade para um direcionamento mais adequado e salutar.

Sob esse prisma dos ensinamentos espíritas, observamos uma família cumprindo seu fundamental papel de esforços para o aprendizado na vivência do amor. Encontramos pais dedicando tempo, recursos materiais e afetivos àqueles que lhes foram confiados pelo Pai Maior, como filhos para serem educados, na mais ampla acepção do termo, nesse fértil período da infância onde lhes podem ser moldados os caracteres.

Reconhecemos o irmão consanguíneo vivenciando a irmandade nos princípios do Cristo. E encontramos o Espírito necessitado reencarnando em meio propício ao seu desenvolvimento intelecto-moral, permitindo-lhe superar as limitações, não somente físicas, mas especialmente aquelas necessárias ao aprimoramento do Espírito Imortal.

Extraordinário, um filme para se divertir, para se emocionar e para aprender.

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