Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

Um porto seguro – um exemplo de amor perene

setembro/2017 - Por Maria Helena Marcon

O filme parece iniciar sem pretensão maior alguma. As cenas apresentam uma agressão física, uma faca e mãos ensanguentadas.

Uma jovem que corre, assustada, no meio da noite, como a fugir de algo terrível que a esteja perseguindo. Alguém que a recebe em sua casa e depois ei-la, novamente, a se misturar ao expressivo número de passageiros na rodoviária da cidade de Boston, nos Estados Unidos.

O suspense é grande, considerando-se que um policial revista, autoritário, os ônibus que se preparam para partir a diferentes destinos. Afinal, não se sabe, com exatidão, em qual deles, aquela jovem se encontra.

O tempo chuvoso, a noite escura, a busca do policial, que beira a uma quase agressão, colabora para tornar ainda mais preocupante tudo que se desenrola. E, verdadeiramente, não se sabe se se deve torcer a favor da Lei ou pela pretensa criminosa.

Rumo a Atlanta, o ônibus com a fugitiva, passa por muitas cidades. Finalmente, quando chega à pequena Southport, na Carolina do Sul, a misteriosa mulher, que se apresenta como Katie resolve desembarcar.

Um emprego como garçonete, uma casa perdida no meio do bosque, longe de todos, diz que ela não deseja fazer amigos ou criar laços pessoais com os habitantes da região.

Mas, naquela solidão, uma pessoa aparece e acaba por se tornar sua amiga, Jo. Ela a acompanha nas idas e vindas do emprego para casa e vice-versa, aconselhando-a a ser menos rigorosa, nos seus posicionamentos e aceitar a ajuda que lhe oferece o charmoso viúvo Alex, um homem gentil, viúvo e pai de dois filhos: Josh e Lexi.

Entra com ela na lanchonete, opina sobre como deve se portar numa e noutra situação, enfim, é a amiga sempre pronta a aconselhar e que, ao mesmo tempo nada confidencia de si mesma, permanecendo como um grande mistério. É como se a sua vida devesse ficar incógnita, muito bem oculta.

Ante o aconchego familiar que lhe é oferecido, a convivência com as duas crianças, que sentem, naturalmente, a ausência da mãe, que desencarnara vitimada por um câncer, as gentilezas de Alex acabam por fazer com que o coração de Katie se entregue à afeição.

É um novo recomeço e nos fala de que toda criatura merece uma segunda chance, uma outra oportunidade para refazer a própria vida.

As cenas familiares, os cuidados daquele pai amoroso, aliadas às paisagens da natureza, a quietude, tudo remete a uma vida de afeto, de cuidado. Sim, as crianças sentem saudades da mãe, mais especialmente, o menino.

O escritório ocupado pela mãe é um lugar indevassável. Da forma que o deixou, é conservado.

É de nos questionarmos se isso convém quando nossos amores se vão. Conservar, de forma irretorquível, o canto que utilizavam não os pode reter às coisas materiais, criando-lhes dificuldades maiores para se desvencilharem?

E quantos de nós fazemos isso como se fosse um santuário, o quarto, o escritório, o aposento mais utilizado por aquele que foi. Deveríamos colaborar com nossos amores, deixando-os partir, desde que cumpriram sua missão sobre a Terra.

Se os desejamos recordar, que os lembremos na intimidade d´alma, no altar do coração. Que os recordemos nos momentos felizes que usufruímos juntos, nos risos, nas alegrias, nas vitórias. Tanta coisa para alimentar a saudade mútua. Sim, não esqueçamos que a saudade é mútua.

Aquela mãe, contudo, no período da enfermidade, sabendo que deixaria os filhos e o marido sobre a Terra, preparou cartas muito especiais: uma que deveria ser entregue quando o filho fizesse dezoito anos, outra quando sua filha se casasse, uma para o dia da formatura, e assim por diante. Cada uma dentro de um  envelope específico e devidamente endereçada, constituindo-se depositário fiel o próprio marido, Alex.

O tempo se escoa, na soma dos dias e parece que tudo transcorre bem. De uma forma muito estranha, no entanto, o policial prossegue em sua caçada insana, o que nos leva a cogitar o porquê de tanto interesse naquela mulher, em detrimento de outros tantos casos e deveres que o deveriam envolver, o que é revelado, por fim, na cenas quase finais.

É quando Katie deve tomar a grande decisão: continuar ali, usufruindo daquele carinho, da segurança do lar ou fugir, ante a perspectiva do caçador que a pode encontrar a qualquer momento e, ao mesmo tempo, criar embaraços para aqueles a quem ele devota o coração.

O descontrole emocional do perseguidor, as razões da perseguição e o objetivo que deseja alcançar se revelam, por fim e, como quase sempre acontece nos filmes, algumas cenas dramáticas ocorrem, culminando em tragédia.

Mas, sobre as cinzas do incêndio noturno, brilha o sol da manhã radiosa, como a dizer de um novo dia, de um verdadeiro recomeço.

Então, de forma inesperada, Alex procura uma carta da esposa. Uma especialmente escrita e endereçada: PARA ELA.

Ele a entrega a Katie e a deixa a sós. Ela abre o envelope, entre curiosa e surpresa.

A letra é caprichada e as palavras surpreendentes. Palavras de quem se foi, de quem sabia que estava prestes a ir e, revelando seu grande amor, escreveu com alma e coração:

 Para a mulher que meu marido ama

Se você está lendo está carta, então deve ser verdade: ele ama você, sem sombra de dúvida. Do contrário, ele não teria lhe dado esta carta.

Eu só espero que você sinta por ele o mesmo que ele sente por você.

Mas, eu quis lhe escrever uma carta porque queria que você soubesse uma coisa muito, muito importante: Estou feliz por ele tê-la encontrado,

Eu só queria poder estar aí, de algum modo, para conhecer você.

Talvez, de alguma forma, eu esteja.

Fora meu marido e meus dois filhos lindos, você é a pessoa mais importante do mundo para mim porque eu parti e eles são seus agora.

Está tudo bem.

Você precisa cuidar deles, fazê-los rir, abraçá-los quando eles chorarem, defendê-los, ensiná-los a distinguir o bem do mal.

Pensar que você está aí, me dá esperança.

Esperança de que Alex se lembre de como é ser jovem e estar apaixonado.

Esperança de que Josh tenha de novo com quem pescar.

Esperança de que Lexi tenha alguém para ajudá-la, no dia do casamento.

Espero que um dia minha família esteja novamente completa, mas, sobretudo, eu espero que um dia, eu esteja aí, com todos vocês, zelando por vocês.

A carta é emocionante. Carta de uma esposa e de uma mãe, que, sabendo-se prestes a partir, pensou no marido jovem, na vida que poderia reconstruir, numa mulher que poderia surgir em sua vida para lhe ser a companheira, mulher que também deveria ser mãe para os seus filhos.

Que belo exemplo de desprendimento, de renúncia: Eu parto. Como ficarão os meus amores? Quem cuidará de meus filhos? Quem compartilhará o leito com meu marido? Quem lhe oferecerá o ombro amigo, nos momentos das dores e das dificuldades?

Eu me vou para uma nova vida. Eles permanecem e deverão prosseguir na jornada que se lhes abre à frente.

Contudo, o mais inusitado, inesperado ainda estava por vir. Como nossos amores prosseguem a se interessar pelos que permanecem sobre a face da Terra, como se preocupam com o que lhes ocorre, e, quando possível, por autorização da bondade Divina, podem estar mais próximos, graças a uma foto encontrada junto à carta, Katie descobre que a sua amiga especial, aquela que, praticamente, a colocou no seio da família de Alex e as crianças, era simplesmente a esposa desencarnada.

Por isso, ela não interagia com mais ninguém, por isso ninguém a mencionava, por isso ela estivera, há pouco tempo, lhe dizendo, que estava na sua hora de partir, de buscar outros rumos.

Sim, sua família estava sendo amada. Ela poderia viver na Espiritualidade, sem maiores preocupações, prosseguindo na sua jornada como Espírito.

Que maravilhosa lição de desprendimento. Sem mágoas por ter sido retirada da vida tão cedo, sem ciúme de quem ocuparia seu lugar no lar, ao lado do marido, dos filhos. Em verdade, o sentimento era de gratidão: todos estavam abraçados pelo afeto de Katie.

E, como ela conclui escrevendo que gostaria de estar com todos eles, podemos cogitar, além do The End do filme: ela não poderia retornar como filha do amor de Alex e Katie?

Isso até poderia resultar em outra produção cinematográfica, uma continuidade da história, mostrando como a morte não mata o amor, nem a esperança, nem a saudade.

Quem sabe…
Ficha técnica

Nome: Um porto seguro

Nome Original: Safe Heaven

Cor filmagem: Colorida

Origem: EUA

Ano de produção: 2013

Gênero: Romance, Drama

Duração: 115 min

Classificação: Livre

Direção: Lasse Hallstrom

Elenco: Julianne Hough, Josh Duhamel, David Lyons, Cobie Smulders

Assine a versão impressa
Leia também