Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Um passado a resgatar, um presente a viver e um futuro a construir

setembro/2018 - Por Rogério Coelho

O Espiritismo é a chave com o auxílio da
qual tudo se explica de modo fácil.
[1]
Allan Kardec

Sem as abençoadas luzes da Doutrina Espírita, jamais chegaríamos a compreender os mecanismos e leis que regem a vida em ambos os planos: carnal e espiritual.

É de estarrecer o número de criaturas indiferentes e totalmente entregues ao jogo dos sentidos grosseiros, sem se darem conta do verdadeiro sentido da vida, alheias, alienadas, sem a menor preocupação em conhecer de onde vieram, porque estão aqui e para onde vão…

Tal estado de obnubilamento mental parece tomar conta tanto dos encarnados quanto dos desencarnados, muitos desses últimos até mesmo desconhecendo a própria situação de desencarnados em que se encontram.

Somente quando a Doutrina Espírita vicejar soberana, nas mentes e corações humanos como proposta de Vida Abundante, é que haverá esperança de reverter esse generalizado quadro de alienação e indiferença, e somente nesse novo tempo é que, finalmente, os habitantes dos dois planos da vida vão compreender que cada existência faz parte de um bem traçado esquema nas Altas Esferas e que não se vive ao influxo e sabor de acontecimentos circunstanciais.

O índice cada vez mais crescente de suicídios no mundo, mormente nas faixas etárias mais tenras, é o resultado da desorientação geral a que se votam as criaturas. Isso sem falar nos derivativos que levam aos vales fatais da toxicomania, do alcoolismo, do tabagismo, onde viciados de todos os matizes sofrem sob o guante de tormentosa dependência orgânica.

Entretanto, os dias sucedem-se ensejando todas as oportunidades possíveis de ascensão, embora a maioria das criaturas as percam quase todas. À semelhança do cão da fábula, mergulham no rio da ilusão em busca da sombra quando foram todas criadas para as glórias das luzes estelares.

A Terra, porém, não é um barco à matroca: Jesus está no leme e atento!  Os Espíritos do Senhor desdobram-se em providências mil no sentido de reverter o caos reinante, fazendo nascer o bem do próprio mal, vez que é preciso que o mal chegue ao excesso para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas radicais.

É de vital importância, portanto, localizar nossa exata posição no contexto evolutivo.  Para isso, devemos fazer um estudo aprofundado e isento de nossas tendências, a fim de identificar as raízes do mal que ainda existem em nós e dar-lhes ferrenho combate. Não é outra coisa que aconselhava Sócrates há dois milênios e meio ao dar ampla divulgação à célebre frase que ele viu grafada no Templo de Delfos na Grécia: Conhece-te a ti mesmo.

Em aditamento à questão 917 de O livro dos Espíritos, Allan Kardec aborda o assunto com muita propriedade indicando tanto o mal como a sua profilaxia e meios de cura: tudo se resume no egoísmo, que ele chama de verme roedor, chaga social: é um mal real, que se alastra por todo o mundo e do qual cada homem é mais ou menos vítima. Cumpre, pois, combatê-lo como se combate uma enfermidade epidêmica. Para isso, deve-se proceder como procedem os médicos: ir à origem do mal. Procurem-se em todas as partes do organismo social, da família aos povos, da choupana ao palácio, todas as causas, todas as influências que, (…) desenvolvem o sentimento do egoísmo. Conhecidas as causas, o remédio se apresentará por si mesmo.

(…) A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Não estamos nos referindo à educação que instrui, mas sim à que faz homens de bem.

É razoável e compreensível que a Humanidade queira ser feliz; mas a felicidade é incompatível com o egoísmo.  O egoísmo é a fonte de todos os males enquanto que a Caridade o é de todas as virtudes. Para assegurar, pois, a felicidade no porvir, há que se desenvolver a caridade e combater o egoísmo por todos os meios.

Eis uma interessante, esclarecedora e singular confissão de Voltaire[2]: (…) quando encarnado, havia em minhas opiniões um sentimento mesclado de amargura e sátira. Meu Espírito estava dilacerado por uma luta interior. Olhava a humanidade como se me fosse inferior em inteligência e em penetração; nela via apenas bonecos que podiam ser conduzidos por qualquer homem dotado de vontade forte. (…) No homem eu via apenas o animal e não Deus. (…)

Se em mim a parte espiritual se houvesse desenvolvido tão bem quanto a material,  teria podido raciocinar com maior discernimento. Confundindo-as, perdi de vista essa Imortalidade da alma, que  procurava e apenas queria encontrar. (…)

(…) O que eu lamento é ter vivido tanto sobre a Terra sem saber o que teria podido ser e o que teria podido fazer.  O que não teria feito se tivesse sido abençoado por essas luzes do Espiritismo, que se derramam hoje sobre os Espíritos dos homens!

Descrente e vacilante, entrei no mundo espiritual. Minha só presença era bastante para espantar qualquer clarão que tivesse podido iluminar a minha alma obscurecida; era a parte material do meu ser que tinha desenvolvido na Terra; quanto à parte espiritual, esta se tinha perdido em meio aos meus transviamentos, em busca da luz: encontrava-se como que presa numa gaiola de ferro.  

Altivo e zombeteiro, aí comecei, nem conhecendo, nem procurando conhecer esse futuro que tanto havia combatido quando no corpo. Façamos, entretanto, uma confissão: sempre encontrei em minha alma uma pequena voz que me fazia ouvir através dos grilhões materiais e que pedia luz. Era uma luta incessante entre o desejo de saber e uma obstinação em não saber.  Assim, pois, minha entrada estava longe de ser agradável. Não acabava eu de descobrir a falsidade e o nada das opiniões que havia sustentado com todas as forças de minhas faculdades?

Depois de tudo, o homem se achava imortal, e eu não podia deixar de ver que, igualmente, deveria existir um Deus, um Espírito Imortal, que estava à frente e que governava esse espaço ilimitado que me circundava. (…)

(…) A princípio fui conduzido longe das habitações dos Espíritos, e percorri o espaço imenso. A seguir, foi-me permitido lançar o olhar sobre as construções maravilhosas, habitadas pelos Espíritos, e, com efeito, pareceram-me surpreendentes. Fui arrastado aqui e ali por uma força irresistível. Era obrigado a ver, e ver até que a minha alma ficasse deslumbrada pelos esplendores e esmagada ante o poder que controlava tais maravilhas. (…)

(…) Não me restava mais nenhuma ilusão sobre a minha importância pessoal, porque sentia imensamente a minha pequenez neste grande mundo dos Espíritos. Eu tinha, enfim, caído de tal modo no cansaço e na humilhação, que me foi permitido reunir-me a alguns habitantes. Foi então que pude contemplar a posição em que havia criado na Terra, e a que disso resultava no mundo espírita. (Causa e Efeito)

Uma revolução completa, uma transformação de ponta a ponta ocorreu no meu organismo espírita e, de mestre que eu era, tornei-me o mais ardente dos discípulos. Com a expansão intelectual que em mim encontrava, que progresso não fiz! Minha alma se sentia iluminada pelo Amor Divino; suas aspirações à Imortalidade, de comprimidas que eram, tomaram uma expansão gigantesca. Eu via quão grandes tinham sido meus erros e quão enorme devia ser a reparação a fim de expiar tudo quanto tinha feito ou dito e que tivesse podido seduzir ou enganar a humanidade. (…)

Em resumo, vivi bastante para reconhecer na minha existência terrena uma guerra encarniçada entre o mundo e a minha natureza espiritual.

Sem maiores comentários a acrescentar a essa notável comunicação de Voltaire, na qual ressalta toda a superioridade do gênio, cuja profundeza e alcance todos apreciarão, concluímos que é possível que jamais tenha sido dado um quadro tão grandioso, eloquente e impressionante do mundo espiritual e da influência das ideias terrenas sobre as ideias do Mundo Maior.

Sem dúvida somos os artífices do próprio destino, e não podia ser de outra forma, tal a beleza e a grandeza da Justiça Divina que zela pela harmonia do Universo e que faz com que seja dado a cada um de acordo com as suas obras, como muito bem o disse nosso Mestre Jesus.

 

Referências:

1- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 125. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. cap. I, item 5.

2- __________. Revue Spirite setembro de 1859, São Paulo: EDICEL, 1964. p. 218-220.

 

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