Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2018 Número 1610 Ano 86
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Um Nobel, o preconceito e a vitória de uma mulher

julho/2018 - Por Mary Ishiyama

Ela ousou enfrentar a sociedade europeia preconceituosa e machista, do final do século XIX, que estabelecia para a mulher o direito de ser mãe e cuidar do lar.

Nasceu, em 7 de novembro de 1867, com o nome de Maria Sklodowska, em Varsóvia, Polônia. Filha do professor de Física e Matemática, Wladyslaw Sklodowski e da cantora, pianista e professora Bronsilawa Boguska, caçula de cinco filhos. Na infância, sofreu duas grandes perdas, as mortes de sua mãe e de sua irmã mais velha.

Seu pai, procurando manter o ânimo e a união da família, após a morte da esposa se empenhou na educação dos filhos fazendo saraus, aos sábados, e dando-lhes a oportunidade de acesso a laboratório, onde Maria travou os primeiros contatos e intimidades com equipamentos de pesquisas.

Na época, a Universidade de Varsóvia não admitia mulheres. Ela estuda com seu pai e se serve da Universidade Volante, clandestina, que oferecia aulas nas próprias casas.

Mas isso não lhe bastava. Faz um acordo com sua irmã Bronia para poderem estudar no Exterior. Ela trabalharia como governanta e sustentaria a irmã. Quando Bronia concluísse os estudos e estivesse estabelecida, faria o mesmo para Maria.

A amizade e cumplicidade das irmãs se efetiva e, em 1891, Maria se muda para Paris. Entra para a Sorbonne, na qual havia apenas duzentas e dez mulheres, num universo de quase nove mil estudantes. Gradua-se em Física e Matemática.

Em 1894, conhece Pierre Curie, com quem se casa no ano seguinte, passando a ser conhecida por Madame Curie.  Dois anos depois, nasce sua primeira filha, Irene Curie, que ganhará, em 1935, um Nobel em Química, com seu marido Jean Frédéric.

Iniciou estudos sobre a radioatividade. Em 1898, em homenagem à sua terra natal, deu o nome de polônio ao elemento que conseguira isolar.

Divide o Prêmio Nobel de Física, em 1903, com o marido e Henri Becquerel, mesmo ano em que ela consegue seu doutorado, tornando-se a primeira mulher a receber esse título na Universidade da Sorbonne.

Eve Denise Curie, sua segunda filha e que viria a ser sua biógrafa, nasceu em 1904.

Muitas são as conquistas de Marie, incluindo-se a teoria da radioatividade, técnicas para isolar isótopos radioativos, além da descoberta do polônio e do rádio. Sob sua direção, foram conduzidos os primeiros estudos sobre o tratamento de neoplasmas com o uso de isótopos radioativos. A cientista fundou os Institutos Curie em Paris e Varsóvia. Durante a Primeira Guerra Mundial, fundou os primeiros centros militares no campo da radioatividade, pesquisando principalmente suas aplicações terapêuticas. Montou carros radiológicos, que levavam um gerador e o equipamento básico para produção de Raios-X e treinou outras pessoas para manusearem o equipamento.

Em 1905, Pierre Curie foi eleito para a Academia Francesa de Ciência, assumindo a cátedra de Física na Sorbonne. Com sua trágica morte, em 1906, em um acidente, Marie assume seu laboratório de Física e sua cátedra de ensino, sendo a primeira mulher a alcançar essa função na Universidade parisiense.

Em 1911, tornou-se a primeira pessoa a receber um segundo Prêmio Nobel, agora em Química, por suas experiências sobre propriedades químicas das substâncias radioativas.

Foram nada menos de cento e trinta e três prêmios, medalhas e títulos ganhos por essa incrível mulher. Entre eles, algumas medalhas recebidas no Brasil, como Membro de honra da Sociedade de Química de São Paulo e da Sociedade de Farmácia e Química de São Paulo e Membro correspondente da Academia Brasileira de Ciência.

A vida dessa desbravadora nunca foi fácil: a perda da mãe e da irmã ainda na infância, dificuldades financeiras devido ao regime político polonês, a luta contra o preconceito da sociedade, a administração da família, como brilhante cientista, esposa e mãe.

Pierre e Marie levavam uma vida modesta e se completavam de forma perfeita. A morte dele lhe foi um terrível abalo, relatando em seu diário a dor e a imensa saudade que sentia do companheiro.

Suas descobertas mudaram conceitos, criaram novas ideias, políticas sociais, econômicas, médicas, humanitárias. Marie Curie era otimista quanto às aplicações do rádio no tratamento do câncer e o serviço de radioterapia foi criado no Instituto do Rádio.

Faleceu em julho de 1934, devido à leucemia, causada pela longa exposição aos elementos radioativos com os quais trabalhou em suas pesquisas. Em 1995, seus restos mortais foram transladados para o Panteão de Paris, tornando-se a primeira mulher a ser sepultada nesse local.

Maria Curie dizia que Cada pessoa deve trabalhar para o seu aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, participar da responsabilidade coletiva por toda a Humanidade.

 

Referências:

1.TEIXEIRA, J. Raul. Vida e mensagem. Pelo Espírito Francisco de Paula Vitor. Niterói: FRÁTER, 1993.cap. 22.

2.VARGAS, Maria D. In. Ciclo de Conferências – Ano Internacional da Química, São Paulo. Trabalhos apresentados… Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense, 2011. p. 10-16.

3.PUGLIESE, Gabriel. Sobre o “Caso Marie Curie”, a Radioatividade e a Subversão do Gênero. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

4.http://www.coluni.ufv.br/revista-antiga/docs/volume01/quinnSusan.pdf

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