Jornal Mundo Espírita

Abril de 2020 Número 1629 Ano 88

Um mundo de contrastes

janeiro/2014

Nós vivemos num mundo de contrastes.

Já nos acostumamos com a realidade da impressãode objetos sólidos em três dimensões, ou com a nanotecnologia, que manipula estruturas em tamanhos reduzidos, algo como frações de um fio de cabelo, que vem promovendo verdadeira revolução na medicina, na eletrônica e outras áreas.

Os testes de DNA, em geral feitos a partir de amostras de sangue, que podem estipular as probabilidades de aparecimento de mais de 2,2 mil doenças genéticas hereditárias, incluindo tipos raros de Alzheimer e casos de câncer, ensejam uma guinada na medicina preventiva.

Há no mercado sistema de baliza autônoma para carros, que fazem isso sem que o condutor esteja dentro do veículo, indicando que´, em breve tempo, com uma ordem do motorista, o veículo irá sozinho até a vaga e estacionará e, quando a pessoa sair de casa ou de outro lugar em que esteja, poderá apenas esperar na fachada do estabelecimento e o carro virá até ele.

Diante de certos computadores de uso pessoal, basta ditar o texto em voz alta que, automaticamente, ele converte o ditado em texto escrito. Ou, ainda, o controle dos PC’s pelo pensamento.A mais nova prova disso é que cientistas da Universidade de Washington, nos EUA, conseguiram fazer com que alguns pacientes que sofrem de epilepsia movessem um cursor de computador apenas com a força do pensamento.

Se quisermos ir mais longe, literalmente, é possível. Com inscrições abertas desde abril de 2013, o projeto Mars One conta com cem mil pessoas dispostas a fazer uma viagem, sem volta, para Marte. A iniciativa, liderada pelo cientista holandês Bas Lansdorp, pretende colonizar o planeta vermelho a partir de 2023.

E há muitos mais registros do grande avanço tecnológico em nosso mundo.

No entanto, há o reverso.

Um mês depois que a ONU declarou crise de fome na Somália (20.7.2013), a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) alerta para a possibilidade desse quadro já catastrófico se agravar ainda mais, estendendo-se por todas as regiões do sul do país e persistindo pelo menos até o fim do ano. A situação emergencial faz parte de um problema maior, que atinge todo o Chifre da África e ameaça treze milhões de pessoas que vivem na Somália, Djibuti, Etiópia, Uganda e Quênia, além de outros países vizinhos. A região sofre a pior seca dos últimos sessenta anos, mas a crise de fome vem se estendendo por décadas. Essa situação mata dez mil crianças todo mês e setecentas e cinquenta mil pessoas podem morrer de fome em quatro meses.

No Brasil, a tuberculose nunca foi embora. Nos países industrializados como Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, Holanda, Alemanha, entre outros, ela tinha praticamente acabado. No entanto, pelo início dos anos de 1980 houve um aumento, para números alarmantes, do número total de casos dessa doença. Além disso, em algumas regiões do mundo, houve um preocupante aumento de casos de tuberculose que não se consegue curar com os medicamentos habituais, a chamada tuberculose multirresistente. No Brasil, a cada ano são registrados cerca de noventa mil casos e cinco mil mortes.

Temos ainda a prática intencional do aborto, a eutanásia, a mortalidade infantil, a violência contra a mulher, a violência urbana, a problemática das drogas etc. etc.

E há muitos mais registros do pequeno avanço moral em nosso mundo, que ainda tolera conviver com situações tão contraditórias e, sob certo ângulo de visão, desumanas.

Aprendemos na Doutrina Espírita, como ensinado por Allan em seus comentários à resposta dada à pergunta 785 de O Livro dos Espíritos, que há duas espécies de progresso, que uma a outra se prestam mútuo apoio, mas que, no entanto, não marcham lado a lado: o progresso intelectual e o progresso moral. Entre os povos civilizados, o primeiro tem recebido, no correr deste século, todos os incentivos. Por isso mesmo atingiu um grau a que ainda não chegara antes da época atual. Muito falta para que o segundo se ache no mesmo nível. Entretanto, comparando-se os costumes sociais de hoje com os de alguns séculos atrás, só um cego negaria o progresso realizado.

Mas o tema demanda ainda outras considerações. Continuemos em O Livro dos Espíritos.

793. Por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa?

“Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Credes que estais muito adiantados, porque tendes feito grandes descobertas e obtido maravilhosas invenções; porque vos alojais e vestis melhor do que os selvagens. Todavia, não tereis verdadeiramente o direitode dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.”

E Allan Kardec acrescenta considerações a essa resposta:

De duas nações que tenham chegado ao ápice da escala social, somente pode considerar-se a mais civilizada, na legítima acepção do termo, aquela onde exista menos egoísmo, menos cobiça e menos orgulho; onde os hábitos sejam mais intelectuais e morais do que materiais; onde a inteligência se puder desenvolver com maior liberdade; onde haja mais bondade, boa fé,benevolência e generosidade recíprocas; onde menos enraizados se mostrem os preconceitos de casta e de nascimento, por isso que tais preconceitos são incompatíveis com o verdadeiro amor do próximo; onde as leis nenhum privilégio consagrem e sejam as mesmas, assim para o último, como para o primeiro; onde com menos parcialidade se exerça a justiça; onde o fraco encontre sempre amparo contra o forte; onde a vida do homem, suas crenças e opiniões sejam melhormente respeitadas; onde exista menor número de desgraçados; enfim, onde todo homem de boa vontade esteja certo de lhe não faltar o necessário.

Iniciamos um novo ano.

Por certo veremos novidades ainda mais impressionantes em avanços do conhecimento humano. Mas, e nós? O quanto avançaremos individual e coletivamente a fim de nos aproximarmos de um mundo civilizado, como deve ser?

Vamos fazer deste ano que se inicia realmente um Ano Novo?

Comecemos em nós próprios. A família, a sociedade, a Humanidade, enfim, agradece.

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