Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

Um motor paciente, que move sem ser movido

abril/2020

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo
para todo propósito debaixo do céu.2

 

Os conceitos que o venerando Benfeitor Camilo desenvolve na obra O Tempo de Deus trazem-nos reflexões profundas para o momento atual. É necessário adentrar o conhecimento espírita para podermos ter uma pálida ideia dos ensinos com que nosso amigo espiritual vem nos brindar nessa obra. Nossa proposta, neste singelo artigo, é comentar alguns dos capítulos do livro — atual e bem a propósito —, a começar pelo prefácio1, que demonstra rica sabedoria e amor desse Espírito. Rogando a Jesus nos inspire, pedimos vênia ao benfeitor para iniciarmos nossa incursão em seus profundos pensamentos, repletos de beleza e saber.

As encarnações na Terra, para o Espírito, constituem uma longa peregrinação ou viagem, e devem constituir-se de múltiplas vivências, as quais vão se complexando, diferenciando-se, na medida de sua evolução intelecto-moral, a fim de ganhar experiências para conhecer todas as coisas, aprender a discernir o bem e o mal e, assim, ter condições de escolher com sucesso3. Nesse propósito, Deus permite que o homem eleja seus caminhos, assim como determine seu tempo de evolução.

O Eclesiastes2 explica-nos que há um momento — um tempo certo, uma fase da vida adequada para tudo acontecer e para todas as experiências de aprendizado dos seres da Criação sob a direção de Deus, e que nenhuma situação dura para sempre aqui na Terra; que há contínuo movimento para a execução dos propósitos divinos. Logo, tudo é passageiro, tudo se transforma debaixo do céu. Mas existe uma coisa que nunca muda: Deus. Deus é sempre igual, todos os dias, por toda a eternidade!

Só com o tempo de Deus alcançaremos Sabedoria, fruto do conhecimento aplicado ao Bem, para vivermos na Terra com o mínimo de desgosto da vida. Para tal cometimento, Deus tem dado ao homem instrumentos para aquisição da Sabedoria.

 O conhecimento, decerto, nos formará e orientará as convicções e valores, para melhor agirmos no mundo. Nosso objetivo é alcançar os altos fins de nossa existência — a perfeição —, sendo necessárias múltiplas experiências para entendermos e compreendermos a parte que nos toca e o lugar na Criação de Deus, como elucidam os Espíritos a Kardec em uma das mais belas respostas de O Livro dos Espíritos4: Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

Mas o que é esse Tempo de Deus ao qual o benfeitor se refere? Camilo elucida1: O tempo é um motor que move sem ser movido. Sem esse movimento não há tempo. São os Espíritos que fazem acontecer esse milagre do Cosmo (…). Dentro da riqueza de conhecimentos que o Espírito condensou nesse parágrafo, faremos alguns comentários doutrinários que consideramos pertinentes.

A Lei Divina do Progresso está em toda a Criação. Ela deseja e permite às criaturas aperfeiçoamento contínuo. O Espírito (ou princípio inteligente) – entendido aqui, como definiu Allan Kardec5, viajou pelo espaço de Deus sob a tutela e condução dos Seus mensageiros, ganhando múltiplas experiências, desenvolvendo as faculdades espirituais, até chegar à condição de individualização ou Espírito6: Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, conceito anteriormente expressado.7 A partir daí, habitará organismos pré-humanos, depois humanos, em busca da era da Razão (como faculdade de discernimento). Iniciando o desenvolvimento da Razão, observaremos também o início das consequências morais relativas às experiências humanas de relacionamento consigo e com os outros, o que não havia como princípio inteligente. Início da responsabilidade. Então, na fase hominal, o progresso se dará pela força das circunstâncias da vida, podendo, agora, o Espírito, extrair de si mesmo a força para progredir. Será dele a escolha da viagem rápida ou lenta, feliz ou infeliz. Este é um aspecto da marcha evolutiva do homem, que Allan Kardec considera em uma nota8:

(…) O homem… se instrui pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas ideias pouco a pouco; germinam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento (…) do passado(…).

Quando encarnado, o Espírito, mobilizando seus instrumentos de ação — o pensamento e a vontade —, aciona o motor, e esse dá movimento às estruturas neuronais que comandam a organização que habita. A cada nova incursão no organismo material, acumula conhecimentos, arquivando-os na consciência profunda. Nós compreendemos que o objetivo desses movimentos de idas e vindas é a conquista da razão, do discernimento. A importância dessa aquisição está bem clara na resposta de O Livro dos Espíritos9: Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. (…). Para compreender e escolher o bem, há necessidade do discernimento. À medida que isso acontece, a alma progride e alavanca o progresso moral que estiver em defasagem.

Acreditamos, pois, que um dos sentidos que se adaptam às ideias expostas pelo Espírito Camilo possa ser o da evolução anímica, que está resumida, divinamente, na frase10: (…) tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo. (…) Unindo essa revelação à mensagem do benfeitor, podemos nos permitir dilatar o entendimento e refletir que o princípio inteligente do Universo evolui num eterno movimento de experiências, como um motor que o impulsiona sem cessar, sem sair de seu lugar, porque está na intimidade do ser espiritual. Esta é a Herança Divina. Nosso Mestre Jesus já afirmava que somos deuses, temos um altar íntimo, e que o Reino de Deus está dentro de nós, deixando-nos a mensagem de nossa eterna ligação com a Divina Potência, guiando nossas almas através do Seu Tempo, e o nosso papel de construtores desse reino dentro de nós (as divinas potências).

O gigante Paulo de Tarso afirma11: Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?, comentado pelo inesquecível Espírito Emmanuel12: Também o espírito traz consigo o gene da Divindade, reafirmando a Divina Presença e nosso destino de Luz.

Porém, o estado de felicidade ou infelicidade da alma, aqui ou no Mundo Espiritual, está diretamente relacionado ao número de imperfeições ou de perfeições já conquistadas, tanto morais quanto intelectuais — registra o mestre de Lyon13 —, e que para cada tipo de imperfeição corresponde um tipo de sofrimento, tanto quanto cada conquista de virtude é uma fonte de gozo espiritual e atenuante de sofrimentos.

O tempo de Deus é paciente, — afirma o Espírito Camilo1 e por esta divina dádiva, o Senhor da Vida permite que o tempo veja, sonde, revise e testemunhe todos os nossos atos, ideias, emoções, sentimentos e hábitos de nobreza ou infelicidade consequente dos mesmos.

Mais uma vez, recorremos à grandiosa Codificação Kardequiana14, nas dissertações sobre a Ação dos Espíritos sobre os fluidos, em que o Codificador esclarece que esses constituem a atmosfera pessoal e ambiental dos Espíritos, onde eles operam todas as coisas. É no seu fluido ambiente que o Espírito age e cria através do seu pensamento e vontade, consciente ou inconscientemente, podendo lhe imprimir direção, agregar, dispersar, dar cor, movimento e tantas mudanças quanto queira, alterando as propriedades, como um químico no laboratório. Kardec elucida ainda15 que os fluidos são o veículo do pensamento, e os Espíritos podem atuar nessa matéria sutil como o som sobre o ar, criando imagens fluídicas que se refletem no seu corpo espiritual como num espelho, com movimentos e gestos, podendo-se perceber as intenções. Portanto, é no fluido que nos constitui que o tempo escreve nossa trajetória.

Trabalhando nessa possibilidade de ação do pensamento e vontade, o Espírito Emmanuel16 afirma que (…) nosso pensamento cria a vida que procuramos através do reflexo de nós mesmos, e que17 A mente é o espelho da vida (…). Utilizando-se da mesma figura (espelho) que o Codificador, o Espírito ressalta, em nosso entendimento, o caráter moral de toda a nossa produção mental, assim como o impacto na felicidade ou infelicidade de nossa vida imortal.

Com estas breves observações doutrinárias, podemos compreender mais amplamente o benfeitor. Nosso corpo fluídico é a testemunha e é assim que o Tempo de Deus os episódios da nossa vida, revisa e sonda todos os produtos de nós mesmos. E mais outro aspecto: O Tempo de Deus nos permite fazer a revisão de nossos atos, reencarnando, para reajustarmos as nossas escolhas equivocadas. Como o Tempo de Deus é paciente, indulgente, caridoso!

Acreditamos que só a aquisição gradativa da sabedoria nos ajudará a conhecer nossas verdades internas, e isto será fundamental para desmanchar os véus das ilusões — abrir a cortina do eu, como disse Emmanuel, desvendar nossas dificuldades morais, sentimentos e emoções ligadas aos instintos e paixões dissolventes e trabalhá-las na consciência lúcida. Sem este trabalho hercúleo, não conquistaremos o discernimento amplo, necessário para os altos fins da vida.

Porém, o objetivo último da sabedoria, para o benfeitor Camilo, é o mergulho do Espírito no Amor de Deus para conquistar o desapego da matéria, porque, em verdade, tudo o que temos não nos pertence; apenas o que somos realmente é nosso para sempre. Saber que existe um tempo certo para todas as coisas acontecerem e para que vivamos todas as experiências necessárias, debaixo do céu de nosso Pai Celeste, contribui para a nossa paz íntima e para a diminuição dos nossos conflitos internos, tão desafiadores, tais como as ansiedades; as expectativas angustiantes; os medos de toda sorte; a pressa desenfreada; as dúvidas quanto ao futuro etc.

Finalmente, em seu magnífico prefácio1, que prenuncia a grandeza da obra em comentário, Camilo nos convida à conquista da religiosidade: Um homem religioso (…) é aquele que valoriza seu tempo para libertar-se de seu egoísmo, com afinco. Esse homem age com decisiva coragem para construir um tempo e uma convicção de que o coração e o cérebro estão a serviço da vida espiritual.

 

Referências:

  1. TEIXEIRA, Raul. O Tempo de Deus. Pelo Espírito Camilo. Niterói: Fráter, 2019. Prefácio.
  2. BÍBLIA, A. T. Eclesiastes. Português. O antigo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 3, vers. 3.
  3. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. I, q. 634.
  4. cit. pt. 2, cap. II, q. 132.
  5. cit. pt. 1, cap. II, q. 23 e 25a.
  6. cit. pt. 2, cap. I, q. 79.
  7. cit. pt. 2, cap. I, q. 76.
  8. cit. pt. 3, cap. VIII, q. 783 nota.
  9. cit. pt. 3, cap. VIII, q. 780a.
  10. cit. pt. 2, cap. IX, q. 540.
  11. BÍBLIA, N. T. I Coríntios. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 3, vers. 16.
  12. XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1985. cap. 30.
  13. KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Rio de Janeiro: FEB, 2001. pt. 1, cap. VII, Código penal da vida futura, item 2º.
  14. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. XIV, itens 13 e 14.
  15. cit. cap. XIV, item 15.
  16. XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1987. Introdução.
  17. cit. cap. 1.
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