Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2017 Número 1600 Ano 85
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Um mergulho no mar de amor

outubro/2017 - Por Mary Ishiyama

Mergulhando no mar de amor é o título do livro, de autoria de César Soares dos Reis, sobre a vida de João Barbosa, conhecido como Frei Fabiano de Cristo.  O título não poderia ser mais verdadeiro: era um homem corajoso, humilde, meigo e desapegado de questões materiais.

Nasceu em Soengas, Portugal, em fevereiro de 1676, de família pobre, como tantas do lugarejo. O parco sustento era retirado do pastoreio de ovelhas e pequenos biscates no tempo da colheita da uva.

Em suas lembranças, fala do inverno impiedoso, do pouco agasalho. Costumava correr à frente das ovelhas não somente para direcioná-las, mas para aliviar o frio, com a neve a lhe encharcar os farrapos que trazia aos pés.  Lembra também dos dias felizes em que sua mãe assava pães, o fogão de barro quentinho e as broas exalando o cheiro pela casa. Sentindo o aroma, à distância, sua boca se enchia d’água e ele apressava seu regresso ao lar.

Trabalhava de sol a sol. O único dia de descanso era o domingo, embora depois de assistir à missa, aproveitasse o restante do dia para preparar as ferramentas para o trabalho da semana.

João cresceu temendo a Deus. Ensinaram-lhe que Ele era um senhor vigilante, pronto para punir pelo menor deslize.  Olhando suas ovelhas, percebia que elas confiavam nele e se indagava: Por que nós, que somos o rebanho do Senhor, temos que ter medo dEle?

Quando o vento inclinava o trigo, ele imaginava que era o Senhor  visitando Sua obra. Quando sentia o vento em sua face, pensava:  Deus me visita no vento. Acho que o vento é a carroça que transporta Deus.1

Aprendeu a ler com o pároco e seu pai, vendo-lhe um futuro promissor,  arranjou-lhe um emprego no Porto, como conferencista de uma empresa exportadora de especiarias para as colônias portuguesas.

João ouvia histórias sobre o Brasil e sonhava conhecê-lo. Vivia-se a febre do ouro no Brasil.

Juntou dinheiro, conseguiu dois sócios e, um belo dia, desembarcou no Rio de Janeiro. Sentiu um enorme respeito diante de tanta beleza e gratidão a Deus por poder viajar dentro de uma pintura que só Deus poderia ter criado.1

Os três iniciaram sua busca pelo ouro em Parati. A vida não lhe foi fácil mas, em 1704, era um grande comerciante, possuidor de respeitável fortuna. Estabeleceu-se na cidade para administrar o comércio, enquanto os sócios continuaram viajando.

João procurou auxiliar familiares, amigos e necessitados com dinheiro, remédios e alimentos. Mesmo assim, se sentia insatisfeito. Quando sentia o vento em sua face, lembrava-se do carro de Deus e pensava: Será a vida somente isso?

Refletindo sobre a miséria moral em que viviam os homens, parecia ouvir na alma: Isso não diz nada ao seu coração?1

A pergunta o perseguia por alguns dias. No entanto, os negócios o absorviam. Quando um dos sócios foi assassinado, João precisou viajar para o Rio de Janeiro.

Foi ali, visitando o Convento de Santo Antônio, que sentiu algo semelhante a um reencontro. Ouviu, apaixonado, as histórias de Francisco de Assis, narrada pelos frades e decidiu mudar o rumo de sua vida.

Chamou seu sócio, repartiu os bens, doou sua parte para sua família, igrejas em Portugal, obras assistenciais e ao Convento São Bernardino de Sena, em Angra dos Reis, onde ingressou.

No convento havia duas categorias de religiosos, os que tinham nível superior e os sem estudo, categoria de João. Eram os irmãos menores ou leigos, encarregados da limpeza, da alimentação, da portaria, da enfermagem.

Graças a suas andanças como tropeiro, João serviu bem na portaria, pois sabia lidar com todo tipo de gente. Havia necessidade de ser severo, mas também caridoso. Trabalhou, depois, na enfermaria. Por ter aprendido com um velho índio a utilidade das plantas, preparava xaropes, unguentos, pomadas. Isso, aliado ao seu carinho e cuidado, realizava verdadeiros milagres junto aos doentes. Sua fama se espalhou.

Após um ano de aprendizado, aos trinta anos, João deixa de existir para surgir a luminosa figura de Frei Fabiano de Cristo.

Quando foi para o Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, sua fama o precedera. Como porteiro, sempre gentil, tinha um pedaço de pão ao faminto do corpo e uma palavra de consolo ao faminto da alma. Sua postura desarmava os violentos e os aproveitadores que chegavam ao convento.

Fabiano conhecia muito bem as questões do mundo. Talvez por isso soubesse, melhor que ninguém,  atender aos anseios dos corações que chegavam até ele.

Com o passar dos anos cuidou da enfermaria, tratou de assuntos muito delicados e conturbados da sociedade, inclusive entre os frades, que discutiam por ideologias, algumas descabidas. A todos pacificava e trazia novamente à razão do ideal de Francisco.

Em 1716, adoentado, suas pernas estavam inchadas e feridas doloridas lhe causavam febres e dificuldade de locomoção. À medida que envelhecia, as dores recrudesciam. No entanto, nada o impedia de continuar no trabalho, sem lamento ou reclamação.

Em 17 de outubro de 1747, aos setenta e um anos de vida e quarenta e três de doação, ele partiu. O povo do Rio de Janeiro homenageou seu benfeitor, o homem que ajudara escravos, índios, prostitutas, comerciantes, elites. O próprio governador Gomes Freire de Andrade compareceu ao enterro, pois que também fora beneficiado pelo pai dos pobres.

Seu corpo foi enterrado no convento que tanto amou, onde aprendeu e viveu sob os ensinos do pobrezinho de Assis, Francisco, o amor em ação.

 

REIS, César Soares dos. Mergulhando no mar de amor. Rio de Janeiro: Lorenz, 1996.

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