Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87
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Um ilustre cidadão

maio/2017 - Por Mary Ishiyama

Paranaguá, no século XIX, era um polo de efervescência política, cultural e literária. Sofria influência da capital. A movimentação era constante entre as duas cidades.

No porto, navios a vapor vinham de todas as partes trazendo variadas mercadorias e levando madeira e erva-mate, fortalecendo o comércio de importação e exportação.

A cidade possuía um posto telegráfico, iluminação noturna de lampião de querosene e carvão de bambu, um pequeno teatro, o Clube Literário e várias igrejas.

O ponto de encontro dos jovens era no Largo da Matriz, aos domingos pela manhã.

Foi nessa bela e bucólica cidade, à época pertencente à quinta comarca de São Paulo, que, em 16 de fevereiro de 1848, nasceu Leocádio José Correia. Desde muito pequeno mostrou interesse pelos estudos, interesse que jamais abandonou, tornando-se um homem de letras.

É considerado pela historiografia local como o principal médico que atuou em Paranaguá, naquele século. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, voltou à sua Paranaguá onde residia. Atendia as localidades de Guaratuba, Guaraqueçaba, Antonina, Morretes, Ponta Grossa, Castro e Curitiba.

Casou-se em Carmela Cysneiros Correia, com quem teve três filhos.

Sua vida foi curta, dinâmica e diversificada. Em Paranaguá, filiou-se ao Partido Conservador, sendo eleito vereador pela Câmara Municipal e deputado da Assembleia Provincial do Paraná. Abolicionista convicto, assumiu essa causa. Foi Inspetor Paroquial das escolas de Paranaguá. Como Inspetor Sanitário dos Portos de Paranaguá e de Antonina foi de fundamental importância na epidemia de febre amarela.

A doença já existia, mas agravou-se em 1877, com a chegada do navio alemão Pellikan e outros. Questões sanitárias da cidade contribuíram para o alastramento da doença. Os escravos contaminados eram abandonados pelos seus donos e passaram a morar nas ruas, o que só piorou a situação.

Os senhores queriam que se colocassem todos eles em uma das ilhas próximas e os deixassem lá, ao que se opôs Leocádio, considerando um degredo infame.

No entanto, o pânico determinou que eles fossem transferidos para a Ilha dos Valadares onde foi construída uma grande senzala. Isso deixou o médico arrasado, reconhecendo, embora, que tudo empreendera para impedir. Questionava-se das razões daquele povo sofrer tanto.

Para ele, medicina e Deus andavam juntos. Sentia que viera para ajudar, para curar e não entendia porque não conseguia fazer mais.

Sempre esteve próximo ao povo que, depois de ser atendido, lhe beijava as mãos, dada a sua postura diante do sofrimento alheio.

Atendia a todos, independente de terem ou não condições para pagar a consulta. Para muitos, fornecia o medicamento. Alguns faziam questão de pagar e o faziam com galinha, leitão, leite, queijo. Leocádio sorria e dizia: Gente simples!

O que mais apreciava ouvir era: Deus o abençoe, doutor, porque isso o fazia se sentir abençoado.

Passava, quase que diariamente, pelos casebres, vendo as necessidades de seus pacientes, levando alimentos, medicamentos. Algumas vezes, apenas o conforto de sua presença e de seu interesse pelas pessoas.

Encontrava tempo para as atividades culturais. Frequentava o Clube Literário, envolvia-se com poesia, auxiliava nas publicações e traduções para os jornais da cidade, entre eles O Itybere.  Dos seus escritos destaca-se o ensaio Duas páginas sobre o drama da Redenção, publicado postumamente.

À noite, lecionava português e francês.

No teatro dirigiu a peça Talento e ouro, de Leôncio Correia, conseguindo grande sucesso.

Atendia a tudo, sem esquecer da família, que tanto amava.

O ano de 1985 foi muito conturbado para Leocádio. Houve a inauguração da estrada de ferro, a abolição que causou inúmeros conflitos, a instalação da República, trazendo discórdias, em especial, na área de educação. O professor José Cleto da Silva, amigo de infância, chegou a se posicionar como seu inimigo ferrenho.

Todas essas questões acabaram por enfermá-lo. Dores atrozes e graves edemas em membros inferiores o impossibilitaram de se locomover por mais de um mês. Ao retornar às atividades, novos confrontos minaram sua saúde novamente. As dores pioraram, febres e delírios se intercalavam. Quando estava lúcido e lhe perguntavam o que tinha, mostrava que seu bom humor estava presente ao responder Ironia da sorte,

No largo da Matriz juntou-se uma multidão silenciosa que chegou a pé, a cavalo, de carroça, canoa. Eram ricos, pobres, libertos e escravos. O coche fúnebre foi dispensado porque os amigos queriam carregá-lo, no último adeus.

 

Bibliografia:

1.CORREA, Rubens. Dr. Leocádio – história de uma vida. Curitiba: Ipês, 1995.
2.DOLINSKI, João Pedro. Os surtos de febre amarela na cidade de Paranaguá (1852-1878). 2013. 28p. Artigo (Doutorado em História) – Universidade Federal do Paraná, 2013.
3.MACHADO, Marilane.  Um personagem, múltiplas representações: Espiritismo e saúde a partir do personagem Leocádio José Correia. In: XIV SIMPÓSIO NACIONAL DA ABHR, 2015. Anais… Juiz de Fora, 2015.  p. 130-141.
4.MAIA, Marilene Machado de Azevedo. Leocádio José Correia: vida, memória e representações. 2016. 256p. Tese (Doutorado em História) – Setor de Ciências Humanas Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2016.

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