Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2022 Número 1650 Ano 89

Um homem de família

dezembro/2021 - Por Maria Helena Marcon

Esta é mais uma daquelas histórias que fala das escolhas que fazemos para as nossas vidas.

Leva-nos, com certeza, a algumas reflexões em torno de nossas próprias atitudes, dos nossos anseios e de como nos estamos comportando a fim de alcançar o que idealizamos para os nossos dias sobre a Terra.

Será mesmo que o melhor é escolhermos uma profissão que nos mantenha ativos muitas horas ao dia, que não nos permita feriados, férias, finais de semana, momentos de descontração?

Tudo isso para se ter uma mansão espetacular, com mármore na bancada da cozinha, tapetes caros, uma enorme piscina, o carro mais moderno, último tipo.

Bom, logo nos devemos perguntar para que termos tudo isso se a nossa vida haverá de se resumir em horas intermináveis em um escritório, uma fábrica, um comércio. Ou seja, para que ter tanto luxo e conforto se mal chegaremos em casa para dormir, se não teremos tempo para descansar nas poltronas luxuosas ou nadar na límpida piscina?

Essa era a realidade de Dane Jensen, um caça-talentos,  um especialista em procurar e identificar os melhores talentos para assumirem determinadas funções em uma empresa. Sua missão é preencher vagas com o pessoal mais qualificado para cada atividade.

Em verdade, o grande objetivo é ganhar mais e mais dinheiro. Não somente para enriquecer o dono da empresa, mas, igualmente, porque um belo percentual se destina aos seus próprios bolsos.

Nessa tarefa de encontrar o profissional mais adequado para grandes corporações, aquele que fará a grande diferença na equipe, Dane não se importa de simular dados, manipular informações.

Por vezes, parece que sua consciência o desperta, especialmente quando o filho Ryan diz que sabe que o trabalho dele é importante porque ele ajuda outros pais a arrumar emprego para que cuidem bem das suas famílias.

Mas, o celular logo o chama para o seu habitual, o profissional que não tem hora. E, quando precisa disputar com uma colega de trabalho, Alison, a chance de substituir o chefe da empresa, que está prestes a se aposentar, mais do que nunca ele demonstra que não tem escrúpulos.

Para superar a meta, ele mente, inventa situações, numa conduta que podemos qualificar de falsidade ideológica, interferindo em contratações.

É interessante nos determos a pensar em como Deus nos manda recados. Como a Sua Lei está inscrita na consciência1, como todos fomos criados para a perfeição2, Ele se utiliza de várias formas para chamar a atenção dos Seus filhos para os essenciais objetivos da vida.

Assim, um dia, Ryan pergunta ao pai se ele crê em Deus, em outro momento ele próprio se questiona, como se algo, intimamente, o incomodasse: a vida é somente isso: trabalhar, ter dinheiro, casa, conforto, uma esposa para lhe atender as necessidades sexuais?

Contudo, será somente com algo retumbante que Dane questionará os seus valores.

É quando Ryan é diagnosticado com Leucemia Linfoide Aguda – LLA e pode vir a morrer. Registre-se, aliás, que uma das indagações do oncologista pediátrico é terrível: Como vocês não perceberam os sinais?

Isso nos leva a nos perguntarmos se temos olhado, com atenção, aos que conosco convivem. Temos registrado o cansaço incomum de nossos idosos, as palavras que parecem se perder em algum lugar de uma memória frágil? Temos prestado atenção a sinais de melancolia3, essa vaga tristeza, que se apodera dos corações e os leva a considerar amarga a vida, que ensombra a face dos nossos amores?

Sinais físicos. Sinais psíquicos. Detalhes. Somente percebidos por quem não está focado, com exclusividade, no material, no ganho maior, num trabalho que não tem hora, nem dia, nem repouso.

O que vemos, no filme, é o protagonista tentando negar a realidade da crise enfermiça do filho. Depois, a inconsolável constatação de que seu filho pode morrer, a qualquer momento.

Quando, em uma crise, o filho é ligado a aparelhos para a manutenção da vida, a questão se torna nevrálgica.

E aqui se pode pensar na delicadeza de algumas situações. O médico estabelece o que deverá ser feito, caso outra crise se apresente. Os pais devem decidir se desejarão prolongar a vida do filho, simplesmente sustentado pelas máquinas ou…

A cena em que a esposa Elise acusa o marido de querer prolongar a vida da criança porque se sente culpado por não ter estado mais presente na vida dos filhos é de machucar a alma.

Isso nos conduz, sim, a muitas reflexões. Por vezes, somos assim. Deixamos os dias transcorrerem, sem muita atenção ao pequerrucho que quer relatar as suas grandes peripécias do dia, que se resumiram em vencer a escadaria do andar térreo ao superior; ou do filho que nos traz o desenho de um edifício grandioso, que não passa de alguns traços indefinidos.

Nossos filhos, tesouros que nos foram confiados por Deus. O que nos une? Por que nos chegaram ao lar? Por que fomos designados como seus pais?

E recordamos que, quase sempre, laços anteriores de afeição nos unem. Quando não, são compromissos que assumimos, perante a Divindade, a fim de reconduzir ao bom caminho uma alma em desequilíbrio.

De toda forma, a paternidade4 é, sem contestação possível, uma verdadeira missão. É ao mesmo tempo grandíssimo dever e que envolve, mais do que o pensa o homem, a sua responsabilidade quanto ao futuro. Deus colocou o filho sob a tutela dos pais, a fim de que estes o dirijam pela senda do bem, e lhes facilitou a tarefa dando àquele uma organização débil e delicada, que o torna propício a todas as impressões. Muitos há, no entanto, que mais cuidam de aprumar as árvores do seu jardim e de fazê-las dar bons frutos em abundância, do que de formar o caráter de seu filho. Se este vier a sucumbir por culpa deles, suportarão os desgostos resultantes dessa queda e partilharão dos sofrimentos do filho na vida futura, por não terem feito o que lhes estava ao alcance para que ele avançasse na estrada do bem.

Um Homem de Família nos leva a refletir se somos um simples provedor, o profissional competente, que não deixa faltar nada à família, a não ser a sua presença. E aqui se evidencia o imensurável valor da família, dos afetos. Eles são, em síntese, o alicerce de qualquer profissional.

Serão os dias no hospital, algumas saídas com o filho doente para lhe mostrar os edifícios que ele desejava conhecer pessoalmente, as longas horas de preocupação pela enfermidade que parece avançar, avassaladora, que farão Dane sentir o problema alheio.

Por isso, se importará com aquele profissional de quase sessenta anos, cujo currículo deixara de lado, há muito tempo, não se importando com sua situação crítica de desemprego.

Renunciando a altos valores, que lhe dariam, com certeza, a vitória e assunção à chefia, ele conseguirá emprego a Lou Wheeler, como chefe de engenharia, em uma importante empresa.

Algo muito marcante é a orientação do pediatra oncologista para que falem com o menino, em coma. Diz que as palavras dos pais são o melhor remédio para esse tipo de paciente.

O que Dane acredita balela, de início, passa a ser uma realidade, depois de alguns dias. Ele confidencia ao filho tudo que acontece. É como se os papéis se invertessem: agora é ele quem relata todo o seu dia, suas vitórias e até, o que ele qualifica como uma coisa boa que fez e sentiu que lhe fez bem: conseguir o emprego para o desempregado e quase desesperado Lou.

É isso mesmo: o bem faz bem a quem o pratica. O bem nos faz bem à alma. É um vislumbre da felicidade de que falam os bons Espíritos, nos quais5 predomina o desejo do bem. São felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem.

Dane terá o filho de retorno ao lar, superando a enfermidade. Mas, perderá o emprego. Registramos aqui a impiedade, a falta de compaixão com o coração de um pai arrasado pela possibilidade da desencarnação do filho e os cuidados que lhe deve dispensar.

Simplesmente assim: Você não é mais o mesmo. Você não nos dá o retorno que desejamos, está dispensado.

Com certeza, isso atingirá o âmago dos que perdemos o emprego, por situação análoga ou não, que precisamos recomeçar do nada, tivemos que nos reinventar para sobreviver, para sustentar a família.

O ditado popular diz que quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela. O que acabamos descobrindo, de verdade, é que, às vezes, Ele tem planos bem diferentes para as nossas vidas. Para isso, Ele até derruba paredes, muros ou muralhas.

Afinal, Ele é Onipotente, Infinito em Suas qualidades: Bondade, Justiça, Amor.

 

Ficha Técnica:

A Family Man

Gênero: Drama

Direção: Mark Williams

Roteiro: Bill Dubuque

Elenco: Gerard Butler, Gretchen Mol, Alison BrieWillem Dafoe, Anupam Kher,  Alfred Molina, Maxwell Jenkins

Produção: Bill Dubuque, Alan Siegel, Nicolas Chartier, Craig J. Flores, Mark Williams

Trilha Sonora:  Mark Isham

Fotografia: Dante Spinotti

Duração: 117 minutos

Ano: 2016

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. I, q. 621.

2 Op. cit. Introdução ao estudo da Doutrina Espírita. item VI.

3 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V, item 25.

4 ______. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 2, cap. V, q. 582.

5 Op. cit. pt. 2, cap. I, item 107.

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