Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2017 Número 1601 Ano 85
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Um Farol em Sacramento

novembro/2017 - Por Mary Ishiyama

Nascido no ano de 1880, no dia 1º de maio, em Sacramento, Minas Gerais, era um entre quinze filhos do casal Hermógenes Ernesto de Araújo e  Jerônima Pereira de Almeida. Desde cedo, fazia pequenos biscates para poder adquirir livros, sua grande paixão.

Estudioso e esforçado, auxiliava os professores lecionando para os colegas e ao seu pai, como guarda-livros, na casa comercial.

Foi um homem além de seu tempo. Jovem, associou-se a antigos professores e fundou o Liceu Sacramento, onde lecionou de 1902 a 1906.  Fundou a Gazeta de Sacramento, sendo seu redator por dois anos, escrevendo sobre literatura, filosofia, política, economia, entre outros assuntos.

Em 1904, com vinte e quatro anos, Eurípedes Barsanulfo foi eleito vereador especial do districto de Sacramento pelo Partido Republicano Mineiro. Esteve presente em comissões e projetos de relevo como a construção da cadeia, do cemitério municipal, concessão de linhas telefônicas, iluminação pública, implantação do bonde elétrico e a instalação da Usina Cajuru. (…) Propôs reformas de ruas, pontes e espaços públicos; propôs a criação de uma escola no então distrito de Conquista. Impôs, como condição para a aprovação dos estatutos do Colégio Sagrado Coração de Jesus, a efetivação diária das lições de Português, Aritmética e Geografia e a não obrigatoriedade do ensino religioso. Em 1908, assumiu, de forma interina, a vaga de Agente municipal, cargo equivalente a prefeito.

(…)Em 1910, o então presidente de Minas Gerais prorrogou os mandatos dos vereadores que se encerrariam naquele ano.(…) Barsanulfo considerou esse ato ilegal, desde que os edis foram eleitos para governar naquele triênio, e pediu a renúncia de suas atividades parlamentares.2

O primeiro contato de Eurípedes com o Espiritismo se deu com o livro Depois da morte, de Léon Denis, presente de seu tio Mariano Ferreira da Cunha, fundador do Centro Espirita Fé e Amor, o primeiro do Triângulo Mineiro.

Em uma reunião, Eurípedes recebeu a comunicação do Espírito Vicente de Paulo revelando-lhe ser seu protetor, dizendo-lhe das tarefas que o aguardavam no campo mediúnico. Ao deixar a reunião, ele foi à igreja matriz, onde era presidente da Irmandade de São Vicente de Paulo, e entregou o cargo.

Não demorou muito para sofrer as consequências de sua atitude. O padre, até então seu amigo, influenciou os paroquianos, os professores do colégio e os pais dos alunos, que começaram a tirar os filhos do colégio.

Em 1905, fundou o Grupo Espírita Esperança e Caridade, no qual desenvolveu e trabalhou suas potências mediúnicas: cura, audiência, psicografia, psicofonia e efeitos físicos.

Pela vidência, via, com clareza, as duas realidades da vida, o que o auxiliava no trabalho de atendimento aos necessitados.  Ao infeliz renovava esperanças, aos doentes renovava a saúde ou consolava, esclarecendo os porquês de suas vicissitudes.

Durante quinze anos, distribuiu, gratuitamente, medicamentos prescritos pelo Espírito  Bezerra de Menezes.

Existem vários relatos a respeito da sua faculdade de bicorporeidade, ou seja, enquanto o corpo fluídico do médium surge em um determinado local, seu corpo físico permanece em outro.

Esse tipo de evento era comum e os alunos do Colégio Allan Kardec, fundado por ele em 1907, e do qual foi administrador até a sua morte, ao perceberem, diziam: O senhor Eurípedes  foi embora. E esperavam seu retorno para tomar conhecimento de suas andanças, quando relatava fatos que aconteciam na Primeira Guerra Mundial, ou ia auxiliar um parto ou outro atendimento qualquer.

A psicografia de Francisco Cândido Xavier narra um desdobramento de Eurípedes, em que ele se viu em linda paisagem, avistando um homem a meditar, envolto por doce luz. Aproximou-se. Algo, em seu íntimo, lhe dizia para não avançar mais. Em júbilo, reconheceu-se na presença do Cristo. Diante de tamanha emoção, começou a chorar. Quando asserenou as emoções, percebeu que Jesus também chorava. Humildemente, perguntou:  Senhor, por que choras?

Não houve resposta. Acreditando não ter sido ouvido, questionou: Choras pelos descrentes do mundo?

Quando se deu conta, o meigo olhar do Cristo estava sobre ele e ouviu em sua intimidade:  Não, meu filho. Choro por todos os que conhecem o Evangelho, mas não o praticam…

Desde essa noite até o fim da sua vida física, nunca mais deixou de trabalhar com Jesus.

Sua tarefa no corpo físico terminou em 1918, aos trinta e oito anos de idade, vitimado pela gripe espanhola.

No entanto, o Farol nunca deixou de iluminar a longa noite dos tempos.

 

Bibliografia:

  1. FERREIRA, Inácio. Subsídio para a história de Eurípedes Barsanulfo. Uberaba, Minas, 1962.
  2. BRETTAS, Anderson C. F. Eurípedes Barsanulpho e o Colégio Allan Kardec, Capítulos de História da Educação e a Gênese do Espiritismo nas terras do Alto Paranaíba e o Triângulo Mineiro (1907/1918). 2006. 247 f. Monografia (Especialização em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006.
  3. XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. A vida escreve. Pelo Espírito Hilário Silva. Rio de Janeiro: FEB, 1960.
  4. NOVELINO, Corina. Eurípedes, o homem e a missão. Araras: IDE, 1979.
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