Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2017 Número 1599 Ano 85
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Um enamorado de Cristo

setembro/2017 - Por Mary Ishiyama

Só os enamorados de Cristo podem tocar o coração das pessoas e abri-las ao amor misericordioso do Senhor.

Dessa forma, o Papa Bento XVI descreve Jean-Marie Baptiste Vianney, o Cura D’Ars, nascido na pequena localidade de Dardilly, perto de Lyon, na França, em 8 de maio de 1786.

Filho de simples agricultores, nasceu em um período político complicado. Sua infância foi vivida em pleno terror da Revolução Francesa, com os sacerdotes sendo perseguidos e as escolas fechadas. Frequentou a escola por apenas dois invernos e, somente aos dezoito anos de idade aprendeu a ler e escrever.

Sentiu-se ligado a questões religiosas desde muito pequeno. Foi uma dura batalha convencer seu pai a deixá-lo seguir o sacerdócio, considerando que ele não queria perder os braços fortes do filho, na tarefa da lavoura.

Finalmente, aos vinte anos, Jean-Marie ingressa nos estudos, tendo que vencer inúmeras dificuldades. Era visto como limitado de inteligência, falava e escrevia mal o francês e era muito pior em latim, à época, imprescindível para o exercício sacerdotal, desde que toda a celebração litúrgica era nesse idioma.

Ele chegou à ordenação presbiteral após muitas vicissitudes e incompreensões, graças à ajuda de sacerdotes sapientes que não se detiveram a considerar apenas os seus limites humanos, mas souberam olhar mais longe, intuindo o horizonte que se perfilava naquele jovem verdadeiramente singular. 1

Em 1815, foi ordenado sacerdote, porém, não poderia ser confessor por ser considerado incapaz de guiar consciências. Três anos após, o abade Malley, reconhecendo o homem extraordinário, além das suas limitações, libera-o para exercer plenamente suas atividades.

Foi designado vigário em Ars-sur-Formans, ao norte de Lyon, cidade decadente, profundamente abalada, empobrecida e violenta pelos dez anos da Revolução Francesa. O povo vivia negligenciado, a igreja absolutamente deserta e as tavernas lotadas.

Jean-Marie ali chegou no mês de fevereiro de 1818. A carroça transportava poucos e gastos móveis, e uma verdadeira fortuna em joias preciosas ao seu coração: aproximadamente trezentos livros. Conta a tradição que, na estrada, ele pediu a um menino pastor: Mostra-me o caminho de Ars e eu te mostrarei o caminho do céu. Um pequeno monumento de bronze à entrada dessa localidade lembra esse encontro.

Naquela primeira noite, o novo pároco dormiu no chão porque dera o seu colchão a um pobre necessitado. Devido à umidade da casa contraiu uma enfermidade, que o acompanhará através dos anos.

Assim era sua vida: dava tudo o que tinha ou ganhava. Alimentava-se com pouca frequência e basicamente de batatas, água e pão preto. Quando acontecia de ganhar pão branco, distribuía ao povo.

Seu principal objetivo era transformar as pessoas e a cidade para Deus. Traçou e seguiu um plano, que constituía em primeiro se transformar, viver o que pregava.

Depois, reformar a Igreja, afinal, era necessário respeito ao Senhor, e ele desejava que fosse o melhor possível. O passo seguinte seria cativar os jovens, arrebanhá-los para a Igreja e fechar as tavernas. Esse detalhe lhe deu um pouco mais de trabalho, mas esse homem não temia o trabalho.

Conseguiu atrair as pessoas para a Igreja, através de seus sermões e sua capacidade de ouvir e compreender. Era compreensivo, mas enérgico, o que cativou a população. Por falta de fregueses, as tabernas fecharam o que fez decrescer o número de indigentes, pois a causa principal fora suprimida, a miséria moral.

O fato de o povo trabalhar aos domingos também o incomodava. Acreditava que havia a necessidade do descanso e de um dia para Deus. Também foi vitorioso nisso, chegando às lágrimas no sermão do domingo, em que viu a igreja repleta. Desagradava-lhe o costume da população blasfemar tanto, imprecar, fazer uso de palavras grosseiras, cantar músicas com letras vulgares. Partiu para mais essa luta, mudando-lhes a visão e o linguajar.

Alcançou sucesso, tornando-se comum se ouvir, pelas ruas, as pessoas cantando hinos de louvor e glória a Deus, e as expressões: Deus seja bendito!  Como Deus é bom!

Peregrinos que iam a Ars, ficavam perplexos com a paz que sentiam na cidade.

Naturalmente,  todas essas benesses tiveram seu preço, exigindo-lhe trabalho, disciplina e muita perseverança. Aliando-se tudo isso à má alimentação, dormir somente de duas a três horas por noite, passar horas intermináveis atendendo a peregrinos, custou-lhe a saúde.

Na noite de 4 de agosto de 1859, aos setenta e três anos, serenamente, desencarnou o Cura D’Ars, como era conhecido.

Jean-Maria Baptista Vianney foi canonizado pelo Papa Pio XI, em 1925. Seu corpo se encontra na igreja da paróquia de Ars, que se tornou um grande centro de peregrinação.

Frase que reflete muito bem a grande figura do Cura D’Ars diz que Deus escolheu os insignificantes para confundir os grandes1. De fato, o homem tido como inapto para guiar as mentes, mostrou que a grandeza de um homem está além da cátedra, está no amor que ele tem e distribui.

Ele foi, com certeza, um homem enamorado de Cristo.

  1. 1. franciscanos.org.br/?p=59417

2.http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=AD59E81E-D9EC-1A31-248EEA840880192A&mes=agosto2005

  1. 3. FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ. Expoentes da Codificação Espírita. Curitiba, 2002.
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