Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Um elo de amor unindo África e Alemanha

agosto/2019 - Por Mary Ishiyama

O amor é o elo que une as pessoas, independente de país, sexo, cor ou crença. Felizes seremos quando esse amor seja simples e natural para todos nós.

Por ora, nos miramos em exemplos que nos emocionam, como o da Dra. Noorjehan Abdul Majid, nascida em Moçambique, África.

Seu sonho sempre foi ser médica. De família muçulmana tradicional, isso era um pouco complicado. No entanto, depois que seu avô adoeceu gravemente e foi tratado por uma médica, concluiu que uma mulher poderia ser uma boa médica. E disse que gostaria que uma de suas netas cursasse Medicina.

Foi a deixa para a menina de dez anos. Ela se formou em 1998 e pensava em trabalhar como pediatra. As crianças sempre foram seu ponto fraco. Em 2001, ao ser transferida para o Hospital Geral da Machava em Maputo, onde trabalhou como diretora clínica, ela se deparou com uma realidade muito diferente: pacientes tuberculosos e aidéticos.

Em 2002, a situação da AIDS (SIDA – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, em nosso idioma) era grave em Moçambique, tendo sido criada, pela Comunidade de Sant’Egidio, a Drug Resource Enhancement against AIDS and Malnutrition – DREAM, com o principal objetivo de controlar a epidemia e a má nutrição na África Subsaariana (países localizados ao sul do deserto do Saara).

A Comunidade de Sant’Egidio é uma organização fundada em 1968, por Andrea Riccardi, no bairro de Trastevere, em Roma, Itália, dedicada à caridade, evangelização e promoção da paz.  É conhecida como a pequena ONU do Trastevere e mais de sessenta mil pessoas em mais de setenta países, de vários continentes, participam das suas atividades.

Essa comunidade ofereceu auxílio ao trabalho da Dra. Majid, fornecendo o tratamento antirretroviral no pais, fazendo com que ela se tornasse a primeira profissional a oferecer esse tipo de tratamento.  Não foi fácil a ação dela porque não havia outras pessoas que tivessem passado por esse tratamento para servir de exemplo e os pacientes o viam com receio.

Restava para a médica apenas a boa vontade, a paciência e a persuasão e, acima de tudo, a doença devastadora, para que aceitassem o tratamento, mesmo com medo.

O programa DREAM foca no tratamento de mães soropositivas e na prevenção da transmissão do HIV (VIH – Vírus da Imunodeficiência Humana, em nosso idioma) de mães para filhos. Em 2015, não houve uma única criança nascida de mãe soropositiva, que apresentasse o vírus. Noorjehan diz que, desde 2002, quando fez parceria com esse projeto, nasceram em Moçambique dezessete mil crianças livres do vírus.

Apesar de ser muçulmana, trabalhar em um programa católico e atender pessoas de nenhuma ou de várias religiões, ela afirma:  Nunca tivemos choques inter-religiosos entre nós. Somente interessa saber a religião da pessoa por uma questão de respeito. A relação com os meus pacientes é de respeito: eles têm diferentes religiões e crenças, mas isso nunca nos afastou do nosso objetivo, que é melhorar a qualidade de vida dos moçambicanos.

De forma inédita, a muçulmana Dra. Noorjehan Majid, em 2016, recebeu um prêmio alemão, o Klaus-Hemmerle, instituído pela Organização Cristã Movimento Focolar. O júri que lhe atribuiu a distinção realça que a premiação é pelo trabalho desenvolvido na luta contra a SIDA, mas também pelo empenho dessa muçulmana em desenvolver um trabalho conjunto com cristãos e seguidores de outras crenças no seu país.

A embaixadora alemã Annette Schavan ressaltou que o programa DREAM, de Sant’ Egidio e o empenho da premiada mostram de maneira convincente onde os cristãos e os muçulmanos podem se encontrar: na ajuda concreta ao homem necessitado.

Juntos, respeitando as diferenças somos mais fortes. De acordo com o site da DREAM: São milhões as pessoas que ao longo desses anos, desfrutaram de algum modo, do Programa DREAM através do tratamento, da prevenção, dos cuidados, da educação sanitária e da formação.1

A Dra. Majid afirma estar feliz com o resultado dos seus trabalhos, mas que não é o prêmio em si que a faz feliz, mas o reconhecimento de estar no caminho certo.

Eu faço aquilo que eu penso que tem que ser feito sem ofender ou magoar ninguém, sem obrigar ninguém a declinar da sua religião. Muito pelo contrário, eu acho que não interessa a religião que for, mas ajuda muito na cura da pessoa. Acredito que uma pessoa que tem fé consegue entender e tratar de si próprio melhor que ninguém.

Esse deve ser o sentimento que nos move, o sentimento de estarmos fazendo o que é certo. O elo do amor unindo uma mulher muçulmana, homens de várias religiões e sem religião alguma.  África, Itália, Alemanha se tornam um só país quando existe tolerância, respeito e acima de tudo isso, o amor ao próximo.

 

Referências:

1.https://dream.santegidio.org/2016/01/26/premio-klaus-hemmerle-noorjehan-majid-uma-medica-muculmana-que-luta-juntamente-com-comunidade-de-santo-egidio-contra-sida-em-africa/?lang=pt-br

2.https://lifestyle.sapo.pt/saude/noticias-saude/artigos/medica-mocambicana-distinguida-na-alemanha-por-trabalho-com-maes-seropositivas

3.http://www.folhademaputo.co.mz/pt/noticias/nacional/medica-mocambicana-recebe-premio-klaus-hemmerle/

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