Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Transformação moral

março/2016 - Por Antônio Moris Cury

Em meados do século passado, era muito comum e frequente ler-se e, sobretudo, ouvir-se a palavra carestia, que, segundo o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (2.  ed, 2008), significa: alta de preço; encarecimento do custo de vida; escassez, falta, carência; preço alto.

Naquela época, o substantivo carestia era tido e havido como sinônimo de crise.

Atualmente, sobretudo nos primeiros quinze anos do século XXI, uma das palavras que mais se leem e ouvem é crise. E crise com variados sentidos e significados.

Crise na educação, crise econômica, crise política, crise na saúde pública e privada, crise financeira, crise na segurança pública, crise nos transportes, crise nos serviços públicos em geral, crise de confiança etc.

A crise de confiança, por exemplo, faz com que se desconfie de quase tudo e de todos, o que é ruim, porque paira no ar, sem que se declare abertamente, a dúvida, a interrogação íntima, a incerteza, a insegurança. Grosso modo, duvida-se de tudo, a começar da publicidade, oficial ou não, das promoções do comércio com enormes descontos [há quem diga que tal ou qual promoção é de 50% de desconto do dobro do preço normalmente praticado], dos pagamentos parcelados sem juros porque, em verdade, os juros já estão embutidos nas parcelas, de tal modo que quem pagar à vista sem desconto estará pagando, também, os juros incluídos, sem a utilização do prazo correspondente ao parcelamento [este sistema  – se é que assim se pode denominar – possibilita ao comércio não só a venda do produto, sua razão de existir, mas igualmente a realização de uma operação financeira, vale dizer, vantagem e lucro duplicados], motivo pelo qual aumenta sobremaneira a falta de confiança na oferta e, principalmente, na negociação.

São exemplos triviais de nosso dia a dia. Há milhares de outros, incontáveis, em que salta aos olhos a falta de transparência, de lisura, de boa-fé. E, com isto, o egoísmo, a ambição desmedida e a ganância dizem presente!

Por que se escreve e se fala tanto em crise nos últimos anos? O que estará por trás, detrás de tudo isso?

Acreditamos que a transformação moral, para melhor, de parte significativa dos seres humanos que atualmente habitam o planeta Terra implicará, ipso facto, considerável avanço nos níveis de confiança, de convivência digna, de entendimento, de lisura nos negócios, de honestidade, de integridade, de honradez e de respeito.

Naturalmente que ocorrerá a pouco e pouco, e não de uma hora para outra, a exemplo do que acontece com a Natureza que, como bem o sabemos, não dá saltos.

Sobre a transformação moral, é importantíssimo o ensinamento contido em O Evangelho segundo o Espiritismo (ed. FEB, 2013, cap. XVII, item 4): Aquele que pode ser, com razão, qualificado de espírita verdadeiro e sincero, se acha em grau superior de adiantamento moral. O Espírito, que nele domina de modo mais completo a matéria, dá-lhe uma percepção mais clara do futuro; os princípios da Doutrina lhe fazem vibrar fibras que nos outros se conservam inertes. Em suma: é tocado no coração, pelo que inabalável se lhe torna a fé. Um é qual músico que alguns acordes bastam para comover, ao passo que outro apenas ouve sons. Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más. Enquanto um se contenta com o seu horizonte limitado, outro, que apreende alguma coisa melhor, se esforça por desligar-se dele e sempre o consegue, se tem firme a vontade.

Cremos que essa notável e valiosa orientação sirva para qualquer pessoa, espírita ou não.

A análise cuidadosa do trecho transcrito indica que o verdadeiro espírita não é perfeito [o que não é nenhuma novidade, uma vez que na Terra prevalecem o mal e a imperfeição, ainda], não é santo, não alcançou a angelitude, não é o dono da verdade, não é superior a quem quer que seja, mas, sim, é aquele que faz esforços continuados para domar suas más inclinações, de passado recente ou remoto, a fim de tornar-se melhor a cada dia.

E pode tornar-se melhor a cada dia quem [independentemente de ser espírita ou não] opta pelo Bem sempre, sem qualquer hesitação, pois comprovadamente é a melhor opção, seja qual for a circunstância, seja qual for a situação; procura ser útil onde quer que se encontre, e cada vez mais útil; procura fazer a parte que lhe cabe, com  esforço, dedicação, zelo e competência; procura agir com ética, com correção de conduta, sem causar dano ou prejuízo a outrem; busca o seu aperfeiçoamento pessoal, de modo contínuo e permanente, esforçando-se por se aprimorar intelectual e moralmente; procura esclarecer-se pelo estudo, pessoal ou em grupo, e por profunda reflexão.

A propósito, vale reproduzir o item 629 de O Livro dos Espíritos (ed. FEB, 1974), a obra fundamental do Espiritismo: Que definição se pode dar da moral?

A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da Lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a Lei de Deus.

A este propósito, interessante destacar o parágrafo do excelente livro O Evangelho segundo o Espiritismo [ótimo para ser lido e consultado em todas as ocasiões, particularmente naquelas em que estivermos em dúvida, com medo, desorientados ou aflitos]: A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas, sob a condição de ser bem empregada. Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer que a Humanidade avance. Infelizmente, muitos a tornam instrumento de orgulho e de perdição contra si mesmos. O homem abusa da inteligência como de todas as suas outras faculdades e, no entanto, não lhe faltam ensinamentos que o advirtam de que uma poderosa mão pode retirar o que lhe concedeu. (cap. VII, item 13)

A clareza é solar!

Nada obstante, talvez o melhor começo para alcançar-se a transformação moral [para melhor] seja o conhecimento de si mesmo, que é o meio prático  mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal, cumprindo não perder de vista, além disso, que o conhecimento de si mesmo é a chave do progresso individual. (item 919, O Livro dos Espíritos)

Por derradeiro, acreditamos que o exposto esteja em consonância com o ensino máximo de Jesus, o Cristo: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Quem ama ao próximo como a si mesmo estará, exatamente por este motivo, amando a Deus sobre todas as coisas.

Amar ao próximo como a si mesmo é fazer a ele o que gostaríamos que ele nos fizesse.

Só pode amar ao próximo como a si mesmo aquele que se ama.

E para amar-se é preciso conhecer-se, razão pela qual o conhecimento de si mesmo é a chave do progresso individual.

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