Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Trabalho na Terra e no mundo espiritual

dezembro/2016 - Por José Passini

Há algum tempo – tanto em artigos da autoria de encarnados, divulgados pela Internet, quanto em algumas obras mediúnicas – têm sido notadas acusações contra a exigência da parte de dirigentes espíritas relativamente a médiuns e outros trabalhadores da seara. Será que está havendo um excesso de severidade, ou será que os reclamantes, encarnados e desencarnados, são indisciplinados e querem generalizar sua maneira de ser?

Nós, espíritas, estamos bem informados a respeito da continuidade da vida, que significa também continuidade da nossa maneira de pensar, de falar e de agir. Tendo essa certeza, é natural que nós, trabalhadores da seara espírita, esperemos ser admitidos em alguma tarefa, depois da inexorável viagem de volta ao Mundo Espiritual. Muito justo acalentemos doces esperanças de cooperação ativa no Mundo Maior, diante dos relatos de Benfeitores que nos mostram atividades constantes e nobres exemplos de dedicação ao Bem. Entretanto, devemos meditar profundamente sobre a qualificação exigida dos trabalhadores no Além.

Aqui na Crosta, em nome da fraternidade, da tolerância, ou mesmo por pieguice, são aceitos até cooperadores com pouca noção de responsabilidade, muitos dos quais não têm coragem suficiente para abandonar de vez as tarefas assumidas, mas também não a têm para se esforçarem, no sentido de se capacitarem a fim de darem melhor conta delas.

No livro Nosso Lar, podemos ver algumas situações vivenciadas por André Luiz, quando candidatou-se ao trabalho. Quem observar atentamente as suas experiências verificará que não basta apenas querer participar de alguma atividade no Mundo Espiritual, pois, além do conhecimento específico da tarefa em que pretenda colaborar, o Espírito deve ter profunda consciência da necessidade de vivenciar os ensinamentos do Evangelho, através do esforço no cultivo da humildade, da benevolência, da tolerância e da disciplina. Pode-se ter ideia dos requisitos necessários à integração em equipes espirituais que operam tanto no Espaço quanto na Terra, observando-se algumas instruções do Espírito Aniceto a André Luiz, que se candidatava à participação em sua equipe, em trabalho a ser efetivado na Terra, conforme se lê no livro Os Mensageiros. Aniceto, o instrutor espiritual, revela-se, ao longo da obra, Espírito que alia bondade imensa a conhecimento profundo. Trata-se de verdadeiro modelo de virtudes, entre as quais se destaca a disciplina, tanto para si, quanto para aqueles que trabalham com ele.

Aqui na Terra, se chefiando alguma equipe na seara espírita, por certo encontraria forte resistência entre alguns trabalhadores, que o julgariam excessivamente exigente. André Luiz registra, nos capítulos 2 e 3 da obra citada, algumas recomendações dele aos candidatos:

Nosso serviço é variado e rigoroso. O departamento de trabalho, afeto à nossa responsabilidade, aceita somente os cooperadores interessados na descoberta da felicidade de servir. Comprometemo-nos, mutuamente, a calar toda espécie de reclamação. Ninguém exige expressão nominal nas obras úteis realizadas, e todos respondem por qualquer erro cometido. Achamo-nos, aqui, num curso de extinção das velhas vaidades pessoais, trazidas do mundo carnal. Dentro do mecanismo hierárquico de nossas obrigações, interessamo-nos tão somente pelo bem divino. Consideramos que toda possibilidade construtiva vem de nosso Pai e esta convicção nos auxilia a esquecer as exigências descabidas de nossa personalidade inferior.

Mais adiante, Tobias comenta a função do Centro de Mensageiros:

Este serviço é a cópia de quantos se vêm fazendo nas mais diversas cidades espirituais dos planos superiores. Preparam-se aqui numerosos companheiros para a difusão de esperanças e consolos, instruções e avisos, nos diversos setores da evolução planetária. Não me refiro tão só a emissários invisíveis. Organizamos turmas compactas de aprendizes para a reencarnação. Médiuns e doutrinadores saem daqui às centenas, anualmente. Tarefeiros do conforto espiritual encaminham-se para os círculos carnais, em quantidade considerável, habilitados pelo nosso Centro de Mensageiros.

Diante do que diz Tobias, não seria prudente examinarmos a possibilidade de termos sido preparados, antes da nossa vinda, para alguma tarefa relacionada à difusão do Espiritismo? Não seria, por certo, a consulta a um médium o meio de nos certificarmos se temos algum compromisso firmado antes da nossa atual encarnação. Bastaria que observássemos quais as oportunidades de trabalho que nos são oferecidas, buscando na oração a lucidez necessária para nos esclarecermos, mesmo porque, as referências aos que fogem dos compromissos são preocupantes:

Saem milhares de mensageiros aptos para o serviço, mas são muito raros os que triunfam. Alguns conseguem execução parcial da tarefa, outros muitos fracassam de todo. O serviço legítimo não é fantasia. É esforço sem o qual a obra não pode aparecer nem prevalecer.

Como ilustração, na obra citada, nos capítulos 7 a 12, lê-se o relato de vários Espíritos que, embora bem preparados antes da encarnação, falharam no desempenho das tarefas a que se propuseram, talvez porque não tenham tido, na Terra, os alertamentos que temos agora! Aqui na Terra, são frequentes as reclamações quanto às exigências de um trabalhador guindado à posição de dirigente de um grupo de trabalho. Ao solicitar aos companheiros observância de horário, assiduidade, seriedade na execução da tarefa, quantas vezes recebe demonstrações de desagrado, não raro via comentários descaridosos? Aniceto, se encarnado, dificilmente escaparia de ser tachado de mandão, ao expressar-se assim:

Esclareça ao novo candidato os nossos regulamentos e venham juntos para as instruções, após o meio-dia.

André Luiz, que já assimilara as normas de trabalho, pondera:

Notei que o trabalho no Posto se desenvolvia em ambiente da mais bela camaradagem, não obstante o respeito natural às noções de hierarquia. (cap. 3)

Ainda no livro Os Mensageiros, lê-se, no capítulo 39, uma lição ilustrativa da obediência à hierarquia e uma cobrança do fiel cumprimento da orientação recebida, quando o responsável pela guarda de determinado setor de trabalho espiritual, aqui na Terra, dirige-se a dois trabalhadores que deixaram de seguir as instruções recebidas, admoestando-os: “Vieira, recomendo a você e ao Hildegardo a melhor observância do nosso critério doutrinário.” Vieira e o colega fizeram-se palidíssimos, não respondendo palavra. Diante da reprimenda, reconhecendo que agiram equivocadamente, Vieira comentou com André Luiz: Recebemos uma admoestação justa. Seria fácil encontrarmos, aqui na Terra, no meio espírita, colaboradores desse nível de responsabilidade?

No capítulo 41, da obra já citada, vemos o chefe de uma equipe de guardas inquirindo um servidor espiritual sobre um acidente ocorrido no trecho de estrada sob sua vigilância: Glicério, como permitiu semelhante acontecimento? Este trecho da estrada está sob sua responsabilidade direta. O servidor do caminho esclareceu, respeitosa e tranquilamente, os motivos do acidente, lembrando, ainda, que o ferido era um pobre chefe de família, numa demonstração de bondade, que é um dos requisitos principais para se trabalhar no Mundo Espiritual. Depreende-se do relato, que o trabalhador no Mundo Espiritual, além do conhecimento específico para o desempenho de suas tarefas, tem de apresentar um esforço consciente da aplicação dos postulados do Evangelho.

No tocante à pontualidade, na obra Nos Domínios da Mediunidade, no capítulo 5, chama-nos a atenção o seu início: Faltavam apenas dois minutos para as vinte horas, quando o dirigente espiritual mais responsável deu entrada no pequeno recinto. É de se notar que não há registro de atrasos, de esquecimentos…

Infelizmente, apesar dos alertamentos que o espírita recebe através da literatura mediúnica, principalmente de André Luiz, ainda vemos pouca noção de responsabilidade diante das tarefas atribuídas a trabalhadores encarnados quanto à assiduidade, pontualidade, disciplina.

Diante do que acabamos de ver, ao ser-nos atribuída uma tarefa, na casa espírita que frequentamos, devemos sentir-nos na posse de belíssima oportunidade de começarmos, desde já, porta adentro da nossa própria individualidade, um esforço de adequação à disciplina e ao devotamento exigidos dos trabalhadores do Mundo Espiritual, conforme se vê nas obras de André Luiz. Assim, animados desse entendimento da necessidade de reforma íntima, aproveitemos as oportunidades de trabalho que nos são oferecidas aqui na Terra, onde as exigências são menores. O esforço no sentido de nos adequarmos, desde já, aos requisitos exigidos dos trabalhadores do Mundo Espiritual nos capacitará a integrar equipes de Benfeitores Espirituais que operam durante as horas de sono físico dos encarnados, conforme nos revela André Luiz, no livro Missionários da Luz, capítulo 8.

E, diante do valor e do alcance da tarefa de evangelização da criança, não é difícil imaginar que haja equipes de estudo e aprimoramento específico também para aqueles que nela colaboram.

Integrados nessas tarefas espirituais noturnas desde agora, teremos maiores chances de nelas permanecermos, ou de sermos admitidos noutras, tão logo desencarnemos. Caso contrário, teremos – na melhor das hipóteses – longo período de reeducação espiritual, antes de sermos admitidos no trabalho efetivo sob a égide de Jesus.

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