Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2020 Número 1633 Ano 88
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Trabalhadores do Bem – O Velho Escriba

abril/2020 - Por Mary Ishiyama

Em janeiro de 2020, comemoramos cem anos de nascimento de Hermínio Corrêa de Miranda.

O Escriba. Assim ele mesmo se denominava, o que redige, o que escreve.

Seus textos eram ditados pela emoção, pela sua observação e aprofundadas pesquisas. Sua obra Nossos filhos são Espíritos é um livro ditado pelo seu coração, sendo impossível não perceber a emoção nas palavras: Eu tinha 23 anos de idade e pela primeira vez na vida agitavam-se em mim as poderosas emoções da paternidade, com todas as suas perplexidades, complexidades e expectativas. Aproximei-me do pequeno embrulho sobre a cama para olhar de perto minha filha. (…) Foi um surpresa observar que tinha olhinhos escuros bem abertos, atentos e acesos, a me contemplarem de maneira enigmática e inquisitiva. Lembro-me perfeitamente das ruguinhas traçadas em sua testa exígua, pelo esforço que fazia ao levantar a cabecinha careca, como se perguntasse a si mesma:  Será que esse sujeito vai ser um bom pai para mim? Cadê minha mãe?1

Por sua vez, o livro Autismo – uma leitura espiritual, traz registros importantes aos pais que têm filhos autistas ou uma criança que está especial, como declara uma mãe. Escreveu Hermínio: Se você não puder curar a criança autista, ame-a. De todo o seu coração, com todo o seu amor e toda a sua aceitação. Alguma tarefa importante ela está desempenhando junto de você, certamente em proveito de ambos.2

Hermínio, um ilustre escritor. Seus livros consolam, esclarecem e iluminam. Ele escreveu mais de quarenta livros. A maioria de suas obras se tornou best-seller e grande parte de seus direitos autorais foi cedida a instituições filantrópicas. Sim, o título de Velho escriba lhe cabe muito bem.

Hermínio Corrêa de Miranda nasceu em 5 de janeiro de 1920, em Volta Redonda-RJ.  Formado em Ciências Contábeis, trabalhou na Companhia Siderúrgica Nacional até se aposentar. Casado com Inez Chiarelli de Miranda, teve três filhos. Ele desencarnou um mês antes de completar 72 anos de união matrimonial.

De família tradicional católica, ele se encontrou no Espiritismo. Dizia não ter sido levado à Doutrina por crise existencial ou sofrimento, mas pela insatisfação com outros modelos religiosos.

Em respeito à crença de seus pais, não relatou sua mudança religiosa. Sabia que sua mãe tinha reservas a tudo que se referisse ao Espiritismo. Em dezembro de 1956, ele se tornou redator da revista Reformador, da Federação Espírita Brasileira, mantendo-se articulista por 24 anos. Em maio de 1961, escreveu o artigo Carta à mãe católica: Mamãe, esta carta contém uma terrível confissão: tornei-me espirita. Sua mãe havia morrido em janeiro daquele ano, portanto, não teve acesso ao texto. Anos depois, através de Divaldo Pereira Franco, Hermínio recebeu um recado dela, dizendo que lera com muita emoção a sua carta e agradecia as palavras de carinho.

Seus livros eram considerados filhos. Segundo sua filha, Ana Maria, sempre que ele se preparava para escrever, dizia: Devo anunciar que estou grávido!3 Assim a família sabia que por um tempo ele estaria focado no novo livro. Assim que o livro nascia, após breve repouso,  haveria nova gravidez.

Conta ainda sua filha que ele foi internado para realizar uma cirurgia, aos 86 anos, permanecendo na UTI por quatro dias. Transferido para o quarto, em cadeira de rodas, estava com um caderno e caneta na mão fazendo anotações. Ao levantar a cabeça, encontrou os olhos de sua filha e da esposa e lhes indagou o que faziam ali. Ante a resposta de que o estavam aguardando para recepcioná-lo, conhecedoras de que havia sido liberado da UTI, se deu conta de que não havia morrido. Disse, então, que o Centro Cirúrgico estava cheio de Espíritos, acreditando ele ter morrido. Ao vê-las, pensou que elas, igualmente, tivessem se transferido para o Além.

Tendo por guias a razão e a paixão pela pesquisa profunda e incessante, e auxiliado por uma sólida cultura humanista, tornou-se experimentado magnetizador e uma das maiores autoridades no campo da mediunidade, da paranormalidade e da regressão de memória.4

Durante quatro décadas, Hermínio participou de grupos mediúnicos onde examinou, questionou e depois relatou a vida dos Espíritos; seus hábitos, caminhos de sofrimento, descobertas, arrependimentos e alegrias. Suas histórias estão descritas em Diálogo com as sombras, Histórias que os Espíritos contaram, A irmã do vizir. Diversidade dos carismas é um livro de conteúdo interessante para os grupos de estudos sobre a mediunidade.

Hermínio desencarnou no Rio de Janeiro, em 8 de julho de 2013, aos noventa e três anos.

Ao despedir-se, considerou a filha: o serão acabara, ele apagou as luzes do quarto e voltou para casa, o céu ficou todo iluminado.3

 

Referências:

1 MIRANDA, Hermínio C. Nossos filhos são Espíritos. Niterói: Lachâtre, 2019. cap. 1.

2 ______. Autismo, uma leitura espiritual. Niterói: Lachâtre, 1998. cap. 12.

3 HADD, Eliana; FERNANDES, Cristian. Jornal Correio Fraterno. São Bernardo do Campo: Editora Espírita Correio Fraterno, ano 52, nº 491, jan./fev. 2020. Meu pai, Hermínio Miranda.

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Herm%C3%ADnio_C._Miranda

 

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