Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Toy Story 4

outubro/2019 - Por Maria Helena Marcon

Será que uma animação, dirigida ao público infantil, pode nos trazer algum ensinamento? Assistimos ao Toy Story 4, e o que vimos, na sessão, foram mais adultos do que crianças e, ao final, surpreendentemente, o público rompeu em aplausos.

São cem minutos de pura diversão, com as peripécias de Woody, o boneco que já foi de Wendy, que cresceu, foi para a Faculdade e agora é de outra criança, Bonnie.

Toy Story 4 encerra a série, nascida em 1995, nove anos após o último filme da saga e traz a importante mensagem da amizade, da solidariedade, da importância do amor.

Os brinquedos,  se servem às crianças, também desejam ser amados. Por isso, é apresentado o drama de Gabby-Gabby, a boneca que nunca foi de nenhuma criança, que acumula poeira em uma prateleira de um Antiquário. Não é uma boneca de última geração. Ao contrário, um exemplar mais antigo, com um rosto angelical, parecendo uma criança e vestindo roupa bem infantil.

Seu maior desejo é se tornar o brinquedo de uma criança e ser amada. Quanto isso nos fala de que todos necessitamos de amor, de carinho, de atenção.

Os versos da oração que traduz os sentimentos franciscanos nos falam de que é melhor amar do que ser amado.

Sim, amar é algo excepcional. Essa capacidade de que somos dotados, todos os que fomos feitos à imagem e semelhança do Criador, é intraduzível em linguagem humana. É algo que nos deixa felizes, que nos faz ver estrelas mesmo na noite coberta de nuvens, prenunciando borrasca, que nos faz acelerar os batimentos cardíacos na presença daquele a quem devotamos esse sentimento.

Amar nos faz bem, no entanto, precisamos ser amados. Temos essa necessidade de alguém que nos aconchegue, alguém para quem fazemos toda a diferença, alguém que nos olhe nos olhos e nos diga: Eu te amo.

Pode ser o amor de um amigo, de um irmão, dos pais, de alguém que nos adote como filho do seu coração, amor de alguém com quem desejamos viver e conviver pelo resto das nossas vidas. E, como fala o boneco Buzz Lightyear: Para o Infinito e Além!!!

O amor faz milagres, sustenta vidas, estimula ao crescimento. Exatamente como as plantas, que necessitam da terra adubada, do sol, do vento, da brisa delicada para crescer e produzir folhagem, flores e frutos, somos nós.  Criados pelo Amor de Deus Pai, somos feitos para o amor e necessitamos dele para vivermos.

Um toque para se afugentar a depressão é salientado no filme. Afinal, não sendo usado por Bonnie como brinquedo, Woody, fechado no armário, vai se tornando triste.

Tristeza que ele procura disfarçar, mas que sente. Perigoso caminho para a depressão. Contudo, o senso de dever, aliado ao sentimento de que deve fazer tudo para a criança ser feliz, leva o boneco a muitas aventuras, para resgate do brinquedo que Bonnie fez, no primeiro dia de adaptação ao Jardim de Infância e pelo qual se encantou: Garfinho.

Tendo retirados de sua mesa, por um coleguinha, os materiais com os quais deveria criar algo, na aula de artesanato, Bonnie se serve de coisas do lixo para montar o seu boneco: um olho grande, outro pequeno, palitos como pés, braços móveis…

De imediato, ela se afeiçoa por Garfinho. Algo para nos recordamos o quanto devemos prestar atenção à produção dos nossos pequenos. Para ela, com um armário cheio de brinquedos, aquele será o mais importante, doravante: aquele com quem ela quer estar, no horário das refeições, na hora de dormir, nos passeios.

Quantos de nós como pais já vimos isso: o brinquedo caro, sofisticado, deixado de lado, preterido por algo desengonçado, sem graça e que, com o passar do tempo, vai ficando sempre mais gasto e feinho?

Mas a criança não vê nele feiúra, porque ama a sua obra de arte, ou o brinquedo eleito pela sua preferência amorosa.

Quem pode discutir isso? Afinal, onde está a beleza senão nos olhos de quem a vê?

Garfinho é um personagem que tem a certeza de que foi criado para macarrão, salada e talvez até pudim, e depois pro lixo. Sou descartável, afirma com veemência.

Essa é uma outra mensagem interessante que nos remete a ponderar o quanto nos menosprezamos, por vezes, o quanto nos consideramos pessoa de menos valia. Condicionamo-nos a determinadas tarefas, não acreditando que podemos vencer barreiras, suplantar dificuldades e conquistar novos horizontes.

Exemplos nos oferecem alguns profissionais que, por não conseguirem estabilidade em sua área profissional, utilizam a criatividade e passam a atuar em ramos totalmente diversos. E crescem, se realizam, trabalham com prazer, inclusive estimulando a outros.

Mas, Garfinho vive buscando o lixo, considerando que lá e somente lá é o seu lugar. Ele é lixo. Quanta baixa autoestima. Woody terá um longo caminho a trilhar até convencê-lo de que ele é importante para uma menina, que precisa dele para continuar a ser feliz.

Finalmente, uma lição de desprendimento nos momentos finais do filme. Woody aprende com Betty, a pastora (de porcelana) que o mundo não se restringe à devoção a um único ser. O mundo é imenso e muitas crianças existem que aguardam serem felizes.

Há uma imensidade de coisas a serem vistas, a serem descobertas e a serem feitas. Então, ele deixará os amigos antigos para ficar com Betty e suas ovelhas: Mariel, Muriel e Abel, no imenso parque de diversões, onde, naturalmente, terão muitas missões, tentando fazer felizes as crianças.

Será que já descobrimos nossa missão? Será que estamos utilizando todo nosso potencial? Eis algo para pensarmos…

 

Ficha técnica:

Toy Story 4

Gênero: Animação, aventura, comédia, família, fantasia

Direção: Josh Cooley

Roteiro: Andrew Stanton, John Lasseter, Lee Unkrich, Peter Docter, Rashida Jones, Will McCormack

Elenco: vozes de Tom Hanks, Annie Potts, Joan Cusack, Tim Allen, Keanu Reeves, Christina Hendricks, Tony Hale

Produção: Galyn Susman

Trilha Sonora: Oscar Randy Newman

Duração: 100 minutos

Ano: 2019

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