Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Todo em luz, tangível e vivo

novembro/2015

Aquele recuado dia do mês de agosto reservava a Pedro, Tiago e João momentos inimagináveis, com modificação em suas vidas e grande repercussão para a Humanidade.

Acompanhando Jesus, empreenderam horas de caminhada na subida do Monte Tabor.1

Alcançando o platô, ao final de tarde, os três discípulos se recostaram para descanso, enquanto Jesus, nas proximidades, punha-se em oração.

A noite chegara de mansinho e avançou silenciosa.

Na madrugada, os discípulos são acordados com vozes diferentes.

Num misto de surpresa, de assombro, de deslumbramento e de admiração, viram Jesus transfigurado, com Seu rosto resplandecendo como o Sol e as Suas vestes alvas como a luz e, com Ele, trazidos de além da morte, por meio de exuberante fenômeno mediúnico, estavam os ilustres líderes da raça, Moisés e Elias, em ímpar diálogo.

Momento histórico que faz do Tabor símbolo da Nova Era, que tem na Imortalidade sua essência.

*

As horas transcorriam pesadas e lentas entre as sombras das saudades.[i]

Não obstante fossem dias de luz, apagaram-se as claridades da esperança e os júbilos murcharam nos corações oprimidos pelas dores superlativas.2

Subitamente perceberam a imensa falta impreenchível que o Mestre lhes deixara nos sentimentos.

O doce e meigo Rabi falara que voltaria três dias depois de morto.

Eles criam, mas já não sabiam em que acreditar.

Na alva do primeiro dia da semana entrante, Maria de Magdala, Joana de Cusa e Maria de Cleófas resolveram levar bálsamo e óleos à Sua sepultura.

Chegaram ao sepulcro novo, que José de Arimatéia oferecera para que Ele ali fosse inumado.

Ao adentrarem na antessala da caverna feita para as despedidas, viram um ser angélico que as informou da ocorrência: Ele não estava ali. Havia ressuscitado, como prometido.

Susto e angústia dominaram-nas naquele momento grave.

Maria de Magdala, saindo, a chorar, interrogou o “jardineiro” que cuidava das rosas silvestres e do local: Para onde O levaram?

Ele voltou-se. Todo em luz, tangível e vivo, o Mestre sorriu: Rabboni! (Mestrezinho!)2

*

A plataforma do Tabor ficou para trás, na História.

E nós nos vemos na planície imensa da existência, absorvidos pelas exigências do dia a dia.

Precisamos parar, por momento que seja, da correria desenfreada, e repassarmos pela tela da lembrança, as promessas, os feitos e os testemunhos de Jesus, e meditar a respeito.

Já não há morte. Há vida, sempre.

A plataforma do Tabor ficou para trás, na História, mas o fato não foi apagado da História e nem do nosso conhecimento pessoal.

O Excelso Jardineiro que veio reflorir os caminhos na Terra, demonstrou que os túmulos permanecem vazios, pois a vida se encontra radiante, pulsante, vibrante, atuante, fora deles.

Dois momentos, além de muitos outros, vividos por Jesus, em incontestável demonstração de que a vida continua além da vida.

Nossos mortos vivem!

O chamado Dia dos Mortos, que se passa no mês de novembro, deveria ser denominado Dia do Vivos. Dia em que se homenageia a Imortalidade.

A exemplo de Jesus, nossos entes queridos que nos antecederam no retorno à Pátria Espiritual, não estão ali, nas sepulturas. Espíritos que são, seguem plenamente vivos pelos caminhos infindáveis que nos levam a Deus, com corações que continuam amando, com pensamentos ricos de lembranças.

Encontram-se no mundo espiritual, nossa querência de origem e nosso porto de destino.

Não nos esqueceram e nem deixaram de nos amar.

*

Nascer, viver, morrer são termos da mesma equação biológica e prosseguir vivendo é a fatalidade da Criação.

A morte, desse modo, ao invés de ser a destruidora da alegria e do afeto, é o anjo amigo que interrompe os fenômenos circunstanciais e transfere o ser para a realidade onde tudo tem solução, onde a vida tem início e prossegue.

Para nós, enquanto experienciamos as lições na planície existencial, o impositivo que se apresenta é o de viver o presente, em razão de o passado apresentar-se já realizado, enquanto o futuro se encontra ainda em construção.

Desse modo, o sentido existencial é o de aprimoramento pessoal com o consequente enriquecimento advindo da sabedoria conseguida que conduz à paz.

Não morrendo jamais a vida, todo o empenho deve ser feito em seu favor, de modo que a cada instante se adquiram melhores recursos de iluminação, de compaixão, de beleza, de harmonia.

Jesus retornou da sepultura vazia para manter o contato com os corações queridos, confirmando a grandeza da Imortalidade a que se referira antes, demonstrando que o sentido existencial é o da aquisição dos tesouros do amor e da amizade, para a conquista da transcendência.

Ora pelos teus desencarnados, envolve-os em carinho e vive com dignidade em homenagem a eles, que te esperam além da cortina de cinza e sombra, quando chegar o teu momento de libertação.

Revendo o platô do Tabor e a gloriosa manhã da ressurreição, estejamos, pois, tão certos como o dia sucede a noite, de que a vida sucede a morte do corpo físico.

 

1. BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo. São Paulo: Paumape, 1979. cap. 17, vers. 1 a 8.

2. FRANCO, Divaldo Pereira. Há flores no caminho. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 2004. cap. 24.

3. __________. Trigo de Deus. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1993. cap. 23.

Assine a versão impressa
Leia também