Jornal Mundo Espírita

Abril de 2019 Número 1617 Ano 87

PARADIGMAS EM EVANGELIZAÇÃO ESPÍRITA

janeiro/2013 - Por Cezar Braga Said

  Não tenho a pretensão de propor um novo paradigma, mas oferecer elementos para uma reflexão que nos ajude a pensar na necessária e imprescindível renovação, que é característica de todo espírita que se esforça, e nesse esforço se transforma.

Portanto, falar de indicadores implica em sinalizar, apontar caminhos, sem a pretensão de que esses sejam os únicos ou os melhores para se pensar e se fazer a evangelização espírita.

A palavra paradigma origina-se do grego paradeigma que quer dizer padrão.

 Na visão de Platão que, junto com Sócrates, foi considerado por Allan Kardec como precursor do Cristianismo e do Espiritismo, um paradigma é um modelo, um tipo exemplar que se encontra em um mundo abstrato e do qual existem cópias imperfeitas em nosso mundo concreto.

 Um paradigma indica toda a constelação de crenças, valores, técnicas etc, partilhadas pelos membros de uma comunidade  determinada e a ruptura com ele não se dá de uma hora para outra, ou seja, ela não acontece de forma repentina. Ela ocorre de forma gradual, na medida em que os valores e as práticas vigentes num determinado campo de conhecimento vão deixando de atender às nossas demandas.

Essa ausência de sintonia entre o que se acredita e o que se faz, com aquilo que as novas tendências estão apontando, gera uma tensão, um conflito que acaba por desencadear uma crise paradigmática, originando então uma nova visão de mundo, consequência de uma insatisfação com o modelo, o padrão que anteriormente predominava.

Existem causas internas e externas que nos ajudam a entender essas mudanças.

 As causas internas são o resultado do surgimento de novos olhares, novas metodologias, novas maneiras de se fazer uma coisa dentro de uma mesma teoria ou doutrina, apontando o envelhecimento das maneiras de se explicar a realidade e tudo o que a constitua. São formas tradicionais que já não dão conta daquilo que está acontecendo no mundo.

 As causas externas decorrem de mudanças na sociedade e na cultura de uma época, que fazem com que as teorias tradicionais deixem de ser satisfatórias, devendo, portanto, ser substituídas por teorias mais adequadas e atuais.

  Esse movimento interno e externo afeta igualmente as doutrinas religiosas e também nasce dentro delas, muito embora, ao longo da história, seja mais comum encontrá-lo nas diferentes ciências.

Mas o que toda esta história interessa ao Espiritismo e ao trabalho do evangelizador, do educador espírita de um modo geral?

O Espiritismo, sendo uma doutrina que caminha lado a lado com as ciências, não se encontra num círculo fechado, alheio e refratário a tais acontecimentos. Também vive suas mudanças paradigmáticas, no tocante às interpretações e práticas existentes em nosso movimento e viverá mudanças teóricas sempre que o progresso o exigir.[1]

Duas ciências que avançaram muito em termos conceituais, com as novas teorias e releituras de teorias antigas, foram a Psicologia e a Pedagogia. E ambas estão diretamente ligadas ao trabalho realizado pelo DIJ – Departamento de Infância e Juventude, existente em nossas casas espíritas.

Podemos situar as contribuições dessas ciências como sendo as causas externas, provocadoras de mudanças no paradigma da evangelização espírita. E, como causas internas, algumas práticas inovadoras, principalmente em termos metodológicos, que despontam em certos centros e em unidades federativas do  movimento espírita brasileiro.

Não temos uma mudança conceitual em termos de Doutrina espírita em sua essência, mas um esgotamento nas formas tradicionais de interpretarmos a sua proposta educativa. Essa sim, já manifesta sinais de não corresponder às demandas por conhecimento e ação modernizadora que estão a  exigir as crianças e jovens do século XX

Segundo Allan Kardec, a geração nova[2] traz consigo disposições intuitivas e inatas que nos permitem distingui-la com facilidade pelas seguintes características:

1- Inteligência e razão precoces;

2- Sentimento inato do bem;

3- Sentimento inato das crenças espiritualistas.

Logo, este passa a ser, de modo geral, o perfil da clientela que já está aportando em nossas casas espíritas para participar da evangelização. Com isso, precisamos rever metodologias, sistemáticas de avaliação, preparação dos evangelizadores, planejamento, explorando os conteúdos doutrinários ainda desconhecidos ou mal aproveitados, “antenar-nos” com as teorias da aprendizagem existentes em Psicologia e as novas concepções trazidas pela Pedagogia.

Essa necessidade de sintonia com as ciências educativas, não nos leva a defender uma enxertia de conceitos estranhos ao pensamento espírita na reflexão e na prática evangelizadora, mas um diálogo aberto e criterioso com elas, de modo a não nos colocarmos num isolacionismo rançoso, contraproducente, antidoutrinário e em momento algum defendido por Allan Kardec.

Ao mesmo tempo, não devemos perder de vista que há, no bojo da Doutrina Espírita e subjacente às práticas evangelizadoras, uma teoria da aprendizagem genuinamente espírita, precisando ser desentranhada, conhecida e sistematizada, tendo em vista que o educando é para nós um espírito reencarnado.

Propomos então um quadro sintético, onde situamos duas visões, que intitularemos de antes e hoje, não se constituindo a mais atual numa visão definitiva e nem tão pouco completa, mas permeável a contribuições que possam enriquecê-la e até alterá-la.

 

ANTES HOJE
 1. Finalidade da evangelização: formação de homens de bem (espíritas) e continuadores do Centro Espírita.  1. Finalidade da evangelização: desenvolvimento da espiritualidade com vistas à formação do homem de bem – precursor da aristocracia intelecto-moral. 
 2. Evangelização como transmissão dos ensinos de Jesus e dos espíritos superiores.  2. Evangelização como problematização dos ensinos de Jesus e dos espíritos superiores – Assimilação / Reconstrução.
 3. Evangelização como “aulinha”.  3. Evangelização como processo educativo – encontros de ação evangelizadora.
 4. Evangelização como mais uma das atividades do Centro Espírita.  4. Evangelização como prioridade nas atividades do Centro Espírita.
 5. Boa vontade e curso de preparação como requisitos para atuação de evangelizadores.

                          #Envolvimento#

 5. Boa vontade e preparação contínua para atuação consciente do evangelizador.

#Compromisso#

 6. Estudo da Codificação e de livros espíritas de referência para a preparação do evangelizador. 6. Estudo da Codificação, obras espíritas de referência e obras relacionadas à educação de um modo geral.
 7. Conteúdos clássicos do Cristianismo e do Espiritismo com estímulos à prática do bem –    moralidade externa.  7. Abordagem voltada para o processo de autoconhecimento do evangelizando e sua inserção na sociedade – moralidade interna e externa.
 8. Metodologia baseada na oralização, atividades de pintura, desenhos, dramatizações e aprendizagem de músicas.

# Atividades no Centro Espírita#

 8. Metodologia centrada na interatividade, com visitas a instituições de caráter assistencial, passeios programados, etc.

# Atividades no Centro Espírita e fora dele#

 9. Pouca importância ao ambiente, o fundamental é a aula em si.  9. O ambiente como facilitador do processo ensino-aprendizagem.
10. Apostilas das federações espíritas como únicas referências curriculares.  10. Apostilas das federações e demais obras espíritas e não espíritas que possam subsidiar o trabalho.
 11. Grupos de pais e evangelizadores fazendo trabalhos estanques com alguma interação.  11. Grupo de pais e evangelizadores interagindo constantemente.
 12. Utilização de recursos tradicionais.  12. Utilização de todos os recursos tecnológicos possíveis.
 13. Os Evangelizadores são os jovens da Mocidade Espírita.  13. Jovens da Mocidade Espírita e grupo novo de evangelizadores: pais e frequentadores do ESDE.
 14. Produção das crianças no mural das salas de evangelização.  14. Cartazes e produção das crianças nos outros espaços da Casa Espírita.
 15. Sequência rígida do conteúdo.  15. O conteúdo se estende e é trabalhado de forma diversificada em mais de um encontro.
 16. Rodízio de evangelizadores.  16. Evangelizadores em dupla ou em pequenos grupos(quando possível) para cada grupo de evangelizandos.
 17. Prazo para terminar o programa de estudos.  17. O programa de estudos vai sendo desenvolvido de acordo com o ritmo do grupo.
 18. Crianças rebeldes são afastadas das atividades de evangelização.

# Disciplina preventiva – repressora #

18. Crianças rebeldes são frutos de um ambiente hostil e mudam com novos estímulos de paz e amor.

# Disciplina preventiva – reparadora #

*A elaboração deste quadro contou com a colaboração da companheira espírita Darcy Neves Moreira, do CEERJ- Conselho Estadual Espírita do Rio de Janeiro

 Essa necessidade de continuamente avaliarmos nossas iniciativas, programas, posturas é também defendida pelo Espírito Bezerra de Menezes quando sugere na Separata do Reformador: De tempos em tempos ser-nos-á necessária uma pausa avaliativa para revermos a extensão e a qualidade dos serviços prestados e das tarefas realizadas. Somente assim podemos verificar o melhor rendimento de nossos propósitos.[3]  

         Na mesma Separata, o Espírito Guillon Ribeiro dá um importante alerta a todos os que nos empenhamos na educação das novas gerações sob as luzes da nova revelação, reiterando a importância de uma permanente, contínua e sistematizada preparação ao afirmar que (…)o evangelizador consciente de si mesmo jamais se julga pronto, acabado, sem mais o que aprender, refazer, conhecer… Ao contrário, avança com o tempo, vê sempre degraus acima a serem galgados, na infinita escala da experiência e do conhecimento.[4]

É assim que amando-nos e instruindo-nos vamos fazendo o melhor que podemos de modo a contribuir com mais qualidade e menos improviso, mais conhecimento e menos ignorância, melhores sentimentos e não apenas com a necessária boa vontade, nessa tarefa sublime de evangelizar evangelizando-nos.

 

BIBLIOGRAFIA:

A Evangelização Espírita da infância e da juventude na opinião dos espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1986, 3ª edição.

KARDEC, Allan. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999, 19ª edição.

KUHN, T.S. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 1982.

MARCONDES, Danilo. A crise dos paradigmas e o surgimento da modernidade. In: BRANDÃO (Org.). A crise dos paradigmas e a educação. São Paulo: Cortez, 1994.

 


[1]              .  A Gênese,  p.37.

[2]              . Idem, p. 357.

[3]              . A Evangelização Espírita da infância e da juventude na opinião dos Espíritos. p.17.

[4]              . Idem, p.28.

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