Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86

Terra, planeta Amor

julho/2018 - Por André Trigueiro

Há aproximadamente cinco bilhões de anos, quando o Mestre Jesus iniciava a condução dos trabalhos que resultaria na formação do mais novo planeta do universo, já se sabia que a Terra abrigaria um dia uma categoria de seres feitos à imagem e semelhança do Pai, dotados de razão, intelecto superior e noção de Deus, constituindo-se o topo da cadeia evolutiva. Se dividíssemos a idade da Terra em uma semana (sete dias), o homem só apareceria por aqui quando restassem apenas três minutos para a meia-noite de domingo.

Embora relativamente recente, a nossa presença no planeta já determinou tantas interferências no software inteligente da vida, tantos abalos nos sistemas que regulam o equilíbrio nos diferentes reinos da natureza, que geólogos do mundo inteiro entendem que já estaríamos testemunhando o aparecimento de uma nova era geológica. Chamada de Antropoceno, esta nova era seria marcada pela forma como alteramos o clima, destruímos a biodiversidade, descartamos quantidades monumentais de lixo, exaurimos os estoques de água doce e limpa, entre outros impactos sistêmicos. É curiosa que a espécie-líder, a mais evoluída do orbe, seja capaz de destruir tão avassaladoramente as condições que permitem a vida por aqui, inclusive sua própria sobrevivência. O fato de conhecermos os riscos e, ainda assim, desprezá-los, inspirou o aparecimento da palavra ecocídio, quando coletivamente realizamos escolhas que ameaçam a nossa própria vida enquanto espécie.

É chegado o momento de reagir. A crise ambiental é, antes de tudo, uma crise ética, pois somos parte do problema e precisamos fazer parte da solução. Se essa crise é causada por nossos hábitos, comportamentos, estilos de vida e padrões de consumo, a reforma íntima (objetivo supremo das nossas encarnações segundo a Doutrina dos Espíritos) deve alcançar a ética do cuidado com a nossa casa comum. O uso racional de água e da energia, a redução do volume de lixo (promovendo a reciclagem e a compostagem), o consumo consciente, práticas sustentáveis de construção e de mobilidade, entre outras medidas, conspiram a favor de um mundo melhor e mais justo. Se nada nesse planeta nos pertence de fato (nem o próprio corpo), já que estamos aqui de passagem e daqui só levaremos o nosso Espírito imortal, que uso podemos fazer dos recursos da Terra? Em um sentido mais amplo, talvez possamos comparar essa situação com a Lei do Inquilinato, que rege as regras de ocupação de um imóvel que não nos pertence. O dono do imóvel exige que o locatário devolva o patrimônio (ao final do período estabelecido em contrato) nas mesmas condições em que o mesmo lhe foi entregue, ou até em melhor situação (no caso das benfeitorias negociadas com o proprietário). Isso é o certo. Não seria lícito nem ético depreciar, destruir, depredar o patrimônio alheio.

Todos nós somos contemporâneos da maior crise ambiental da História da Humanidade, sabemos porque ela acontece, quem é o responsável e o que precisa ser feito para resolvê-la. Aliás, os espíritas já conhecem há muito tempo a receita para usar com discernimento os recursos da Terra. Antes mesmo de existir as expressões ecologia, meio ambiente ou desenvolvimento sustentável, exatamente na segunda metade do século XIX, Allan Kardec organizou os conteúdos da Codificação reservando generoso espaço para a Lei de Conservação, uma das Leis Morais que aparecem em O Livro dos Espíritos. Nesse capítulo, além de compreendermos a diferença entre necessário e supérfluo (algo precioso nesses tempos de deslumbramento com o consumismo que acelera a destruição dos recursos naturais), é possível acessar lições de sabedoria da Espiritualidade Maior sobre o que devemos fazer para evitar o risco de um colapso na capacidade de suporte do planeta nos prover do que seja fundamental à vida.  A Terra ofereceria ao homem sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ela emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário. (q. 705)

Nós, espíritas, gostamos de recitar como um mantra o título do livro de Humberto de Campos (psicografado por Chico Xavier) Brasil: coração do mundo, Pátria do Evangelho, achando que essa condição nos foi imposta pelo destino, como um dogma, um selo que nos distingue perante a eternidade sem qualquer esforço ou sacrifício.

Esquecemos-nos de que essa condição precisa ser construída a cada dia, ratificada por nossas escolhas, pelo trabalho que cada um de nós precisa realizar nessa direção.

Assim se dá também em relação ao Mundo de Regeneração. Segundo Santo Agostinho nos informa em O Evangelho segundo o Espiritismo, trata-se de um mundo mais evoluído ética e moralmente, mas não totalmente livre de dor e sofrimento, já que o homem ainda é carnal, e, por isso mesmo, sujeito às vicissitudes de que só estão isentos os seres completamente desmaterializados. Não há maiores informações nas obras básicas e outras sobre o estado ambiental do mundo de regeneração, porque, talvez, ele esteja sendo construído a cada dia, a cada momento, a cada escolha que fazemos nos dias atuais. Melhor, portanto, fazer agora do que deixar para depois. Melhor resolver nesta encarnação que deixar como legado (para nossos descendentes e para nós mesmos em encarnações futuras) os terríveis efeitos do descaso para com a nossa casa planetária.

Quis o destino que a maior nação espírita do mundo esteja situada no único país com nome de árvore, que detém o maior estoque de água doce superficial de rio ou subterrânea, maior quantidade de solo fértil  pronto para o plantio (sem precisar derrubar mais uma árvore sequer), maior quantidade de seres vivos catalogados pela ciência, maior floresta tropical úmida etc.

Se o acaso não existe, o que se deve esperar dos espíritas como bons inquilinos? O que devemos fazer como bons gestores dos recursos fundamentais à vida não apenas para nós brasileiros, mas para toda a civilização do presente e do futuro? Façamos a nossa parte desde já.  A regeneração já começou.

Tribuna Espírita, ano XXVII, nº 201, janeiro/fevereiro 2018,
do
Centro Espírita Leopoldo Cirne, de João Pessoa, Paraíba.

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