Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Ter e Ser

junho/2011 - Por Antonio Moris Cury

Ressalvadas as exceções, é impressionante o interesse da sociedade atual pelo consumo, que muitas vezes figura como meta principal a ser alcançada. Estamos tratando do consumo de variada ordem e buscado com avidez por várias classes econômicas e sociais, pois, segundo se ouve com intensa frequência, além do prazer que a compra em si proporciona, e seja do que for (vestuário, bens móveis, automóveis, semoventes, imóveis, etc.), há nela embutida uma espécie de poder, que os outros percebem com clareza, o que aumenta sobremaneira a possibilidade de exibição do comprador/consumidor. E, em geral, é grande o exibicionismo do ser humano. Basta que observemos com atenção, já que ele está presente nos atos e fatos mais triviais do dia a dia.

Não parece haver dúvida que o consumo desenfreado (às vezes até mesmo no que se refere ao excesso de alimentos adquiridos) tem recebido valiosa contribuição dos meios de comunicação, que, por veiculação de publicidade muito bem feita, transmite ao indivíduo menos atento ou que pouco pensa, a informação de que tal ou qual produto precisa ser adquirido de qualquer maneira, pois sua compra é indispensável e inadiável para alcançar a tão almejada felicidade. Trata-se de apertada síntese, porquanto nem mesmo a compra por impulso está sendo analisada. Não era à toa, por isso, que já no século passado se costumava dizer em Curitiba, que “a propaganda bem feita é capaz de fazer a pessoa comprar o que não precisa com o dinheiro que não tem”, em frase atribuída a um ex-governador do Paraná, já desencarnado.

Ter, ao que parece, passou a ser o mais valioso. Desde logo é importante enfatizar, entretanto, que o Espiritismo não faz apologia da pobreza nem se posiciona contra a aquisição de bens, haveres ou recursos, desde que a aquisição se faça por meios lícitos, moralmente honestos e não provoque dano a outrem. É legítima, portanto, a aspiração à aquisição de bens, nos moldes antes apontados, uma vez que podem trazer conforto e bem-estar ao adquirente e à sua família e, de quebra, se forem bem aplicados, podem gerar emprego, renda e melhores oportunidades de educação, crescimento e progresso para outras pessoas. Contudo, não devemos esquecer que necessário é o que nos traz o bem-estar e supérfluo é o abuso do necessário.

Neste passo, convém relembrar que “Os bens da Terra pertencem a Deus, que os distribui a seu grado, não sendo o homem senão o usufrutuário, o administrador mais ou menos íntegro e inteligente desses bens. Tanto eles não constituem propriedade individual do homem, que Deus frequentemente anula todas as previsões e a riqueza foge àquele que se julga com os melhores títulos para possuí-la” (O Evangelho segundo o Espiritismo, 124ª edição FEB, 2004, páginas 308 e 309).

Isto é tão verdadeiro que a simples observação do dia a dia o confirma. Somos meros usufrutuários dos bens materiais, seus simples administradores, tanto que, para dizer o mínimo, os bens que julgamos possuir (e que julgamos ser de nossa propriedade) se transmitem aos nossos herdeiros ou sucessores por ocasião de nossa desencarnação; nossos herdeiros ou sucessores, por sua vez, passam a ser os seus usufrutuários, os seus administradores, até que a desencarnação também os alcance, e assim sucessivamente, de modo que, em realidade, estamos apenas tomando conta dos bens materiais, sem esquecer que Deus com frequência anula todas as previsões e a riqueza foge àquele que julgava possuí-la, como menciona o texto antes reproduzido.

Por outra parte, e felizmente, também encontramos inúmeras pessoas que cada vez mais vão se conscientizando e percebendo melhor a importância do ser, (especialmente de ser uma pessoa de bem), que praticam o bem onde quer que estejam, em qualquer circunstância ou situação; que agem de conformidade com firmes princípios morais que já detêm, a começar por respeitar a todos indistintamente, independentemente de suas condições econômicas, sociais, étnicas, culturais, profissionais, etc., e que já enxergam com bastante clareza a importância que toda pessoa tem de ser respeitada, como alguém que também está a caminho da evolução espiritual, razão pela qual procuram tratar os outros com interesse, atenção, gentileza e educação, qualidades que se adquirem com esforço, empenho, determinação, disciplina e principalmente vontade para a conquista dos valores imperecíveis, de que são exemplos o conhecimento (das ciências, das artes, das filosofias, das religiões, etc.) e as virtudes (bom-senso, equilíbrio, honestidade, honradez, ética, bondade, amor, etc.), dentre estas notadamente o amor, a lei maior da vida, magnificamente sintetizada por Jesus, o Cristo, na célebre e milenarmente conhecida sentença: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, que resume toda a lei e os profetas, sabendo-se que quem ama ao próximo como a si mesmo, exatamente por esta razão, ama a Deus sobre todas as coisas. Em outras palavras, pode-se afirmar que amar ao próximo como a si mesmo equivale a procurar enxergar no próximo um irmão (porque todos somos filhos de Deus) e fazer a ele o que gostaríamos que ele nos fizesse. Todavia, para amar ao próximo como a si mesmo é absolutamente necessário amar-se.

E para amar-se é preciso conhecer-se.

A esse propósito, vale a pena relembrar que “A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus” (questão 629 de O Livro dos Espíritos, a obra fundamental do Espiritismo).

Pode parecer muito difícil, mas não é. Basta que comecemos, e que iniciemos por nosso autoconhecimento.

A este propósito, recordemo-nos da questão 919 de O Livro dos Espíritos: “Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?” Resposta: “Um sábio da Antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo”. Esta mesma questão, que merece ser lida por inteiro e refletida pausadamente, contém instrução, dentre tantas outras, passada por Santo Agostinho, por via mediúnica, de enorme importância para todos nós, a saber: “O conhecimento de si mesmo é a chave do progresso individual”.

Os eventuais tropeços podem decorrer de vários fatores, notadamente da presente existência vivida na Terra, um planeta de provas e de expiações, de categoria inferior no Universo, onde prevalecem o mal e a imperfeição, ainda.

A melhoria, nossa e da Terra, depende de nós, que cada um faça bem a sua parte, com esmero, com excelente qualidade, com muito amor, uma vez que estamos ajudando a construir o nosso planeta, até porque Deus não nos deu o mundo pronto e acabado, assim como não nos criou perfeitos, como é fácil concluir pelo uso da lógica e da razão, repetidamente aconselhadas pela veneranda Doutrina Espírita.

Não percamos de vista, por fim, que qualquer avanço positivo que conseguirmos em nossa caminhada individual atingirá a um sem-número de pessoas, direta ou indiretamente, beneficiando-as, assim como seremos também os seus primeiros beneficiários.

Daí a importância da questão 642 de O Livro dos Espíritos: “Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura bastará que o homem não pratique o mal?” Resposta: “Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo o mal que haja resultado de não haver praticado o bem”

Fazer o Bem não tem contraindicação. Fazer o Bem faz bem. Optemos pelo Bem, portanto, em qualquer circunstância e em qualquer situação. Sempre.

Assine a versão impressa
Leia também