Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

Ter convertido e ser converso

março/2019 - Por Rogério Coelho

(…) e se convertam, e eu os cure.
Jesus –  Mt, 13:15

Converter, do lat. convertere, verbo transitivo direto, significa: fazer mudar; mudar a natureza de; transformar; transmudar; comutar; substituir; mudar de religião; de partido; de opinião.

Converso, do lat. conversu, adjetivo ou substantivo masculino, significa: religioso leigo, com votos, mas sem haver recebido ordens sacras.

Vemos que, gramaticalmente, existe diferença entre as palavras converter e converso, onde a primeira é verbo e a segunda é adjetivo ou substantivo. Mas a diferença é ainda maior, quando a análise atinge o Espírito que vivifica e não a letra que mata: o convertido apenas exibe a Verdade; o converso vive a Verdade. Portanto, não basta converter-se: torna-se necessário ser converso!

Os integrantes do Colégio Apostólico, à exceção de Judas de Kerioth, (que era só convertido), Maria de Magdala, Paulo de Tarso, Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Francisco Cândido Xavier são expressões máximas de criaturas conversas.  Não apenas se converteram (verbo), mas, tornaram-se conversos (adjetivo).

Ser converso é o qualificativo de quem mudou não apenas na superfície, mas no âmago do ser, nas mais abissais anfractuosidades do Espírito.

Inúmeras criaturas se têm convertido ao Espiritismo, mas ainda não são conversas, vez que a transformação é apenas superficial, um leve verniz que sai ao mais leve toque das dificuldades, mostrando a verdadeira coloração: não se mostram menos invejosas, egoístas e orgulhosas, nem mais caridosas, continuando a acoroçoar velhos, arraigados e perniciosos hábitos como, por exemplo, o tabagismo, o alcoolismo, a drogadição, a maledicência, característicos da conversação vazia…

Ter-se simplesmente convertido, portanto, não constitui condição de alforria espiritual, pois vezes sem conto, muitos convertidos permanecem de ouvidos moucos para as Verdades espirituais e coração demasiadamente endurecido para sensibilizar-se com a dor do próximo e agir para mitigá-la, a exemplo da nobre atitude do bom samaritano com o homem caído à beira da estrada vitimado por ladrões que o feriram e despojaram.

Ensina Allan Kardec[1]:  Dá-se com os homens, em geral, o que se dá em particular com os indivíduos. As gerações têm sua infância, sua juventude e sua maturidade. Cada coisa tem de vir na época própria; a semente lançada à terra, fora da estação, não germina. Mas, o que a prudência manda calar, momentaneamente, cedo ou tarde será descoberto, porque, chegados a certo grau de desenvolvimento, os homens procuram por si mesmos a luz viva; pesa-lhes a obscuridade. Tendo-lhes Deus outorgado a inteligência para compreenderem e se guiarem por entre as coisas da Terra e do céu, eles tratam de raciocinar sobre a sua fé.

Entendemos, assim, que o Espírita convertido, mas não converso, ainda está vivendo o período álacre da infância e juventude dos raciocínios ainda mesclados com os fortes apelos e alvitres do homem-velho; é como se fosse uma semente lançada à terra fora da estação. São aqueles que Allan Kardec classificou[2] como espíritas experimentadores, imperfeitos e exaltados.

Atentemos no ensinamento de Arago[3]: A Humanidade tem realizado, até ao presente, incontestáveis progressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam logrado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. Resta-lhes, ainda, um imenso progresso a realizar: o de “fazerem que entre si reinem a Caridade, a Fraternidade e a Solidariedade, que lhes assegurem o bem-estar.” Não poderiam consegui-lo nem com as suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, espólios de outra idade. (…)

Já não é somente de desenvolver a inteligência o de que os homens necessitam, mas de elevar o sentimento e, para isso, faz-se preciso destruir tudo o que superexcite neles o egoísmo e o orgulho. (…)

Mas uma mudança tão radical como a que se está elaborando, não pode realizar-se sem comoções. (…)

Os cataclismos gerais foram consequência do estado de formação da Terra.“Hoje, não são mais as entranhas do planeta que se agitam: são as da Humanidade”.

A Terra está em franca operação para elevar-se na escala dos mundos. Alcançará o nível dos chamados Mundos de Regeneração.

Somente os conversos poderão reencarnar nessa nova Terra assim classificada.   Aos simplesmente convertidos não restará outra alternativa senão as trevas exteriores onde haverá choro e ranger de dentes; isto é, serão (a exemplo dos capelinos) exilados para mundos compatíveis com o seu progresso, ou melhor, com sua falta de progresso.  Esses são como as virgens loucas da referência evangélica[4] que batem à porta, muito tarde, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos!… e Ele respondendo, dirá: Em verdade vos digo que vos não conheço.

Os diversificados matizes existentes nas personalidades dos convertidos e dos conversos, estão bem realçados na lição de Eros[5], intitulada: A vida: duas vidas, onde aprendemos: A vida são duas vidas: exterior e interior.

A sua vida interior é a responsável pelos reflexos no seu comportamento exterior.  

O que você anele e cultive na mente se tornará impulso e necessidade que se manifestarão em busca intérmina.

Assim, tente abandonar o ego, porém, sem pressão nem amargura, e sim mediante a reflexão em torno daquilo que lhe é realmente importante, pois que de imediato se apresentará na face exterior da sua vida como a harmonia desejada.

O equilíbrio do seu pensamento, fazendo-o tagarelar menos e meditar mais, facultar-lhe-á um bom trânsito entre a vida interior e a exterior.

Quando você conseguir vencer no íntimo as paixões dissolventes, externamente você irradiará bem-estar, porque todo aquele que conhece a Verdade corrige os excessos, e não se preocupa com os resultados imediatos.

Aquele que apenas exibe a Verdade, inquieto quão infeliz, fomenta e vive a balbúrdia, incapaz de beneficiar-se com a realidade.

 A vida interior saudável vincula o homem ao mundo transcendente; enquanto a exterior, com as suas sensações liga-o ao mundo físico.

Viva interiormente na luz, e o exterior se manifestará em tranquilidade, sem qualquer tormento.                                   

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XXIV, item 4, § 2.

2 ______. O livro dos médiuns. 71. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. pt. 1, cap. III, item 28, § 1º, 2º e 4º.

3 ______. A Gênese. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. cap. XVIII, itens 5, 7 e 8.

4 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. Bíblia Sagrada. 6. ed. São Paulo: PAULINAS, 1953. cap. 25, vers. 11 e 12.

5 FRANCO, Divaldo Pereira.  Paz íntima. Pelo Espírito Eros. Salvador: LEAL, 1997. cap. A vida: duas vidas.

Assine a versão impressa
Leia também