Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2022 Número 1650 Ano 89
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Tenente Gail Halvorsen, armas, bombas e chocolates

dezembro/2021 - Por Mary Ishiyama

Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os soldados, entre armas e munições, levavam barras de chocolate porque, muitas vezes, seria o único alimento, por dias.

Com o capitão Gail era um tanto diferente. Ele tinha o hábito, ainda, de ter uma caixinha de chicletes no bolso de sua farda, no lado esquerdo do peito.

Nesse triste evento, contudo, houve homens e mulheres que fizeram a diferença na vida das pessoas. Talvez, se perguntássemos, hoje, para quem era criança alemã, à época, qual a sua lembrança da guerra, responderia que ficava à espera do Bombardeiro de doces, ou do tio Candy Bomber.

Quando a Alemanha foi derrotada, os aliados a dividiram em quatro zonas, sob o controle da União Soviética, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Os soviéticos ocuparam o leste do país. Os Estados Unidos e seus aliados, o oeste. A capital, Berlim, também foi dividida em quatro partes. Logo surgiram desavenças. Os Estados Unidos, britânicos e franceses, de um lado e a União Soviética do outro. Denominaram Berlim Oriental e Ocidental.

Em junho de 1948, a União Soviética bloqueou Berlim, fechando rodovias e ferrovias, decretando a escassez de suprimento civil e militar.

No dia 24 de julho, os aliados responderam com um contrabloqueio, interrompendo fornecimento de carvão e aço, prejudicando a indústria do lado oriental, de forma severa.

Os soviéticos fecharam as pontes, aumentando a crise. Se os militares resolvessem abrir espaço à força, as chances de uma retomada da guerra seria fatal. A única opção disponível era o corredor aéreo. E surgiu a Operação Vittles.

No final de julho, a Força Aérea Real Britânica, a americana e a francesa iniciaram um transporte aéreo, no intuito de suprimir necessidades imediatas da população. Transportavam, diariamente, milhares de toneladas de suprimentos, por via aérea e os lançavam no oeste de Berlim.

Ulrich Kirschbaum, em uma entrevista para a BBC, contou que tinha 6 anos e era comum as crianças dormirem com fome, morar em apartamentos semidestruídos e brincar nas ruínas da cidade.

Contou que os aviões traziam remédios, combustível, suprimentos domésticos, tudo o que uma cidade precisa para sobreviver. Nós ficávamos na sacada e cronometrávamos os voos. A cada 90 segundos, um avião passava sobre a nossa casa. Era maravilhoso!1

Um dia, em que ele e outras crianças olhavam o aeroporto de Tempelhof, através de uma cerca de arame, viram o piloto Gail Halvorsen, de 19 anos. Acenaram para ele, que se aproximou para conversar. Percebeu que elas olhavam para o seu bolso, onde havia os chicletes. Eram muitas crianças e pouco chiclete, mas ele deu o que tinha. De maneira silenciosa e ordeira, um dos meninos dividiu as tiras de chicletes em pequenos pedaços. Os que não conseguiram um pedaço, cheiravam os papéis das embalagens. Para muitos, era a primeira vez que comiam um doce.

 

Isso abalou o jovem Gail, que prometeu trazer doces para todos, no dia seguinte. Os meninos perguntaram como poderiam saber qual era o avião dele e ele respondeu que voaria baixo e balançaria as asas.

Muitos coraçõezinhos não conseguiram dormir naquela noite. Será que o piloto traria doces realmente? E o piloto pensava: Meu Deus como vou trazer doces para tantas crianças?

Voltando para a base, convenceu os amigos a doar as suas rações de chocolate. No entanto, como ele daria os doces? Não tinha como jogar as caixas, poderia machucar as crianças. Teve a ideia de fazer pequenos paraquedas.

Ele e os amigos os prepararam e prenderam saquinhos com doces. No dia seguinte, ao sobrevoar a região, ele viu as crianças, em maior número do que no dia anterior. Baixou o avião, balançou as asas. Seus companheiros abriram a comporta do avião e os pequenos paraquedas encheram o ar.

Onde três ou quatro anos antes caíam bombas, agora choviam barrinhas de chocolate, cada uma embalada em um pequeno paraquedas.1

Gail teria que levar mais doces. Conseguiu ajuda. As crianças dos Estados Unidos, ao saberem das crianças alemãs, mandavam dinheiro de suas merendas e escreviam mensagens de coragem para elas; as escolas faziam pequenos paraquedas, empresas de doces enviavam caixas de doces, tecidos e barbantes para os paraquedas.

Durante mais de um ano, até o final do bloqueio em 12 de maio de 1949, homens e mulheres de bem fizeram a alegria de crianças, que, a cada rasante do avião do tio Candy Bomber, aumentava em número.

Quando a notícia desses lançamentos chegou aos ouvidos do General William Tunner, comandante da operação de transporte, ele mandou chamar o tenente. Principiou lhe dando uma enorme bronca, com ameaça de corte marcial. Depois, diante do piloto, temeroso, começou  a rir e mandou que ele continuasse com o que chamou de Operação Little Vittles.

Tim Chopp, criança à época, lembra-se de quando conseguiu pegar uma barra de chocolate: Levei uma semana para comer tudo. Eu a escondia, mas o chocolate não era o mais importante. A coisa mais importante era que alguém na América sabia que eu estava passando necessidade, e alguém se importava. Isso significava esperança.2

Foram vinte e três toneladas de chocolates, balas e doces que Gail e seus companheiros lançaram às crianças alemãs. Seu gesto foi repetido para outras crianças, na Bósnia, durante a guerra e em projetos semelhantes em várias partes do mundo.

O agora Coronel Halvorsen tem cinco filhos, vinte e quatro netos e quarenta e três bisnetos. Em 10 de outubro de 2020 completou 100 anos de idade.

Foi agraciado com a Medalha de Ouro do Congresso. Na Alemanha, foi uma das raras pessoas, viva, a batizar uma escola, além de receber a Ordem de Mérito da República Federativa Alemã.

Gail Halvorsen não foi um herói de guerra, ele é um herói da paz.

 

Referências:

  1. https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39156521
  2. https://www.terra.com.br/noticias/tecnologia/gail-halvorsen-ultimo-heroi-a-bombardear-berlim-completa-100-anos,d7e5bbf64d10fe589b38087397ef7d4cb0ho1qhy.html
  3. https://ichi.pro/pt/a-historia-da-operacao-vittles-833638655830
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