Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2020 Número 1636 Ano 88

Tendo sido semeado, cresce

novembro/2020 - Por Sandra Borba Pereira

Como Mestre excelente, Jesus faz uso de variados recursos didáticos, numa linguagem essencialmente pedagógica e rica de significados, visando facilitar a aprendizagem dos Seus seguidores.

Ali, Ele aproveita uma situação da vida cotidiana para estimular a observação dos discípulos (o caso do óbolo da viúva); além, narra parábolas com elementos da natureza e da cultura local, motivando os ouvintes a refletir sobre a Bondade e a Justiça Divina (parábola da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo); adiante, evoca o fato histórico referente à atitude de Davi que comeu os pães da consagração em dia de sábado, para provocar a atitude crítica diante da tradição paralisante, dentre outras situações pedagógicas por Ele criadas.

A pesca, o comércio, o pastoreio e as atividades agrárias fazem parte do repertório crístico para ilustrar ensinos e lições, facultando aos interlocutores melhores condições para a identificação de sentidos e significados educativos e emancipadores do conteúdo da Boa Nova.

Neste espaço, gostaríamos de recortar a atividade do plantio, usada em inúmeras passagens do Evangelho para ilustrar a capacidade humana de agir, criar, semear na vida, de modo geral, nas relações interpessoais e na relação com o mundo e, de modo mais específico, em ações que visam à cultura/cultivo das boas sementes: sentimentos, valores, atitudes, crenças…

Jesus ilustra inúmeros ensinos com a ação de semear estabelecendo, inclusive, ricas e profundas comparações com o ser humano, como na célebre parábola do semeador. Após a narrativa da parábola2, os discípulos solicitaram a explicação do Mestre no que foram prontamente atendidos.

A semeadura e seus elementos ainda estarão presentes em outras parábolas e ensinos: parábolas do joio e do trigo, dos lavradores maus, do homem insensato que acumulava trigo no seu celeiro, da figueira estéril e Ele mesmo se denominou videira e lenho verde.

O título deste texto encontra-se no ensinamento de Jesus sobre a fé e seu poder, ao relatar a parábola do grão de mostarda, a diminuta semente que, ao germinar, se transforma em arbusto frondoso.

Jesus ainda fez uso de singular imagem para nos alertar sobre os naturais e sábios processos da vida, apresentando-nos um critério existencial/temporal de grande importância, usando a metáfora:3 Primeiro a erva, depois a espiga e por último o grão cheio na espiga, para aprendermos com a Mãe-Natureza a respeitar o ritmo da vida, em tudo. Em outro momento pondera que pelo fruto reconhece-se a árvore.

Curiosamente o semeador, nas falas de Jesus, nunca é nominado: é anônimo, mas com a responsabilidade da escolha do tipo de semente a semear.

Somos todos semeadores no campo da vida, responsáveis pelos cultivos que realizamos, expressos em nossas múltiplas atitudes. Mas, o que semeamos? Evocando as sábias palavras de Paulo4 vemos que convém distinguir semear segundo a carne ou segundo o Espírito, conforme a liberdade de escolha do semeador.

Semear segundo a carne, diz o Apóstolo dos Gentios, significa tudo o que diz respeito à ação frágil da criatura humana em sua propensão ao erro, ao equívoco e se manifesta no adultério, nos homicídios, na ira, no ciúme, entre outras semeaduras, cujas colheitas serão obrigatórias. Semear segundo o Espírito, prossegue, significa cultivar o que está de acordo com a palavra divina. São sementes de amor, paz, benignidade, bondade, fé… que igualmente propiciarão a colheita correspondente.

Somos os cultivadores que optamos por essa ou aquela semente plantando-a na própria vida, na família e nos grupos sociais por onde transitamos, no decurso de nossa existência reencarnatória. Considerando nossa condição evolutiva, nos movemos nesse ato, de modo paradoxal, cultivando as mais das vezes sementes do trigo e do joio. Isso nos exorta a uma atitude de defesa da nossa boa semente para que as ervas daninhas não perturbem sua germinação, numa atitude de vigilância, conforme o próprio Jesus nos alertou na parábola do joio e do trigo.

Quanto à ceifa/colheita situamos um importante ponto para nossa reflexão. Ao final da parábola do semeador, Jesus situa que na terra fértil as sementes produzem de forma diferente: trinta, sessenta ou cem por um. É o respeito às possibilidades e esforços de cada um.

Destacando a necessidade de semear a boa semente em nossa trajetória de vida, identificamos a elevada responsabilidade de pais, educadores e evangelizadores, enfim, de todos os que atuam/influenciam no campo de corações e mentes infantojuvenis.

Evangelizadores são semeadores das sementes segundo o Espírito, conforme situou Paulo5.

Responsáveis pela escolha de sementes de qualidade na ação evangelizadora, pelo seu cultivo e zelo enquanto germinam, os evangelizadores são também semeadores do hoje, que frutificará amanhã, produzindo um futuro melhor, mais ditoso, pois suas sementes de fraternidade, respeito e paz cobrirão o chão do mundo inteiro.

Daí a necessidade da preparação para a seleção dessas sementes e o cuidadoso ato de semear, o que exige conhecimento doutrinário e didático, trabalho organizado e cuidados especiais para que a plantação não se fragilize diante do descuido ou inaptidão do semeador. Regar as plantas, vigiar para que a semente encontre as condições propícias de germinação com vistas à futura colheita. O que se deseja como fruto dessa semeadura? Crianças e jovens como pessoas do Bem e construtores de uma cultura de paz.

Como evangelizadores trabalhamos com sementes/conteúdos com sabor de eternidade, como afirmou Comenius, o pai da Didática e, por isso mesmo, não conseguimos avaliar de imediato os resultados/frutos obtidos pela ação evangelizadora junto aos evangelizandos, Espíritos imortais em trajetória evolutiva.

A colheita definitiva pertence ao Senhor da Vinha. Para nós ficam os frutos da alegria de servir, de cooperar com a regeneração da Humanidade, na certeza de que6 conosco vai à frente, abençoando-nos a humilde cooperação, aquele trabalhador divino que limpará a eira do mundo, como nos diz Emmanuel.

Conclamamos os evangelizadores do Brasil e mais além: prossigamos na semeadura a que fomos convocados, com carinho, desvelo, responsabilidade e esforço para alcançar os melhores resultados, cooperando com Jesus, o Sublime Semeador dos campos de nossa vida. Que continuem florescendo essas sementes, a fim de que o solo da Terra se encha de jardins com flores de virtudes e os campos com as árvores frondosas da fraternidade que deve nos unir como verdadeiros irmãos.

 

Referências:

  1. BÍBLIA, N. T. Marcos. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 4, vers. 32.
  2. Op. cit. Mateus. cap. 13, vers. 3 a 23.
  3. Op. cit. Marcos. cap. 4, vers. 28.
  4. Op. cit. Epístola aos Gálatas. cap. 6, vers. 8.
  5. Op. cit. cap. 5, vers. 22.
  6. XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1982. cap. 90.
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