Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2022 Número 1650 Ano 89
Revivendo Ensino Envie para um amigo Imprimir

Sutilezas da mediunidade

dezembro/2020

Acreditamos sinceramente que a mediunidade, nas suas profundidades e verdadeiras potencialidades, ainda é desconhecida dos estudiosos espíritas. O próprio médium não a compreenderá, não obstante sofrer suas influências e ser acionado ao seu influxo, até mesmo no desdobramento da vida prática.

Basta ser, a mediunidade, o resultado de um jogo transcendente de sensações e percepções, uma indução de forças intelectivas sobre outras forças intelectivas e também perceptivas, para compreendermos que se trata de uma faculdade profunda, complexa, vertiginosa, em suas possibilidades singulares. Se todas as faculdades, ou atributos da alma – a que León Denis denomina Potências -, conhecidas dos homens, estão como que interligadas entre si, dependendo umas das outras na contextura que realiza a individualidade integral, completando-se, harmonizando-se, a mediunidade, como participante desse conjunto de Potências, igualmente estará tão integrada na estrutura psíquica das criaturas quanto as demais, fazendo parte, como vemos, do potencial anímico global que traduz a individualidade imortal, razão pela qual ficou dito que – todas as criaturas possuem mediunidade.

Tais Potências, ou forças, são, segundo sabemos até o momento (possuímos, além dessas, outras preciosas faculdades, que não se revelarão no estado de encarnação ou no de evolução espiritual medíocre). E conforme denominação da Psicologia moderna, as funções conscienciais, que poderemos agrupar em quatro categorias básicas, a saber: funções intelectivas, funções sensoriais, funções afetivo-emocionais e funções perceptivas, das quais se salientam, então, a Memória, a Razão, o Discernimento, a Imaginação etc etc. E se as possibilidades desse agrupamento de forças imortais se desdobram ao infinito, também a mediunidade como participante dessas funções (sensoriais e perceptivas, ao que a observação indica), possuirá possibilidades de ação e sutilezas ainda desconhecidas dos estudiosos atuais. Muitos médiuns sabem disso, embora sem compreenderem bem o que com eles se passa.

Muitas vezes, receoso de não ser acreditado pelos amigos mais íntimos, e temendo ver-se considerado ridículo ou pretensioso, guarda o médium o segredo das mais belas revelações que lhe são facultadas por vontade exclusiva dos mentores espirituais, ou por ação mecânica da própria faculdade, que naturalmente desencadeia os acontecimentos, mesmo à revelia do médium. Geralmente, perseguido, criticado sem piedade até dentro do próprio lar, e também pelos adeptos da própria Doutrina, enche-se ele de complexos e timidez, que tendem a perturbar, quando não impossibilitam, muitos fenômenos que poderiam realizar-se para edificação geral. O Espiritismo – a Terceira Revelação de Deus aos homens – é obra da mediunidade; será bom que de tal não se esqueçam aqueles que preferem ver charlatães e intrujões nessas pobres almas que, para conseguirem do Além o que vem dar corpo à Doutrina Espírita, têm de morrer para si mesmas, sacrificando-se durante a vida inteira e chorando lágrimas de testemunhos acerbos, visto que nenhuma criatura, qualquer que seja, se afinará plenamente com a Espiritualidade, para o feito mediúnico, por entre risos e alegrias e modo de viver displicente e cômodo.

Os médiuns espíritas que se entregam à oratória, sempre veemente e profundamente inspirada, não recebem, precisamente, as intuições no momento em que discursam, no mais das vezes, como nem sempre o seu instrutor espiritual estará presente ao seu lado, na tribuna. O que frequentemente acontece é que, já possuidor do necessário cabedal, embora não seja, verdadeiramente, um orador, na véspera desse trabalho, ou poucas horas antes, o médium será arrebatado em espírito por seu Guia espiritual, durante o sono, para o Espaço. Fornece-lhe as instruções para o discurso; fá-lo discursar em sua presença, imprimindo na mente do seu pupilo o característico da sua própria oratória; exerce sobre ele, enfim, seu intérprete, a sugestão hipnótica, ou hipnose. Ao despertar do sono, o médium estará tranquilo, sentindo algo indefinível dentro de si, sem todavia, recordar o que se passou durante o seu repouso. Mas, no momento da oratória, esta será repetida exatamente como foi delineada e autorizada no espaço, com eficiência e agrado geral, sem que o médium vacile por um instante, na eloquência assim adquirida.

É por isso que o estilo deste ou daquele Espírito, se conhecido dos assistentes, chegará a ser reconhecido, para edificação de todos… Daí a necessidade, que todo médium orador sente, de se recolher e isolar horas antes, ocasião em que, geralmente, se deixa vencer por um sono ameno e reconfortador…

As melhores palestras que nos foi dado realizar, sobre assuntos espíritas, concederam-nas os nossos amigos espirituais, por essa forma, muito embora no momento do testemunho ou reprodução da peça oratória, costumem eles exercer uma certa vigilância em torno do médium.

Será bom, por isso mesmo, para maior grandeza desse feito mediúnico, que os ambientes dos Centros Espíritas não sejam alterados por quaisquer acidentes profanos.

 

Referência:

1 PEREIRA, Yvonne A. Devassando o invisível. Rio de Janeiro: FEB, 1964. cap. 8.

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