Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2020 Número 1633 Ano 88

Somos todos iguais

julho/2020 - Por Maria Helena Marcon

Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, ou seja, sem conhecimento.1

Isso nos remete à tônica do filme Same kind of different as me. Todos fomos criados, pela Divindade, de igual forma.

Cada um de nós, no entanto, tem uma missão, cuja finalidade é de nos esclarecer e progressivamente conduzir à perfeição, pelo conhecimento da verdade1 e para nos aproximarmos dEle.

O objetivo final é idêntico para todos: chegar à perfeição. E adquirimos o conhecimento passando pelas provas que Deus1 nos impõe.

Ainda, segundo a mesma fonte, somos como crianças inexperientes, algumas rebeldes e, por isso, retardando a nossa chegada ao objetivo final.2

Essa essência de rebeldia é que, por vezes, nos esquecemos. Essa questão de que todos estamos propensos ao erro, tem dificultado nossos relacionamentos na Terra.

Por isso, a questão do perdão e a oportunidade de um recomeço se faz importante. O que, infelizmente, nem todos nos permitimos oferecer, embora desejemos que outros nos concedam essa segunda chance.

É de nos perguntarmos o que teria sido de Saulo de Tarso e Maria Madalena se os atos inconsequentes, praticados antes do seu contato direto com o Mestre, não tivessem merecido a oportunidade de serem reformulados.

O que teria o mundo perdido em termos de grandiosidade. Basta lembrar que o Evangelho não nos teria chegado, não fosse o extraordinário trabalho de Paulo de Tarso.

Deborah Hall nos confere, no filme em ótica, logo de início, essa lição. Ao saber da traição do marido, do caso extraconjugal que ele mantém, ela o confronta e o deixa decidir-se. O que ele quer: ficar com ela, a esposa, os filhos ou com a outra mulher?

Ron, o marido, sem pestanejar, opta pela esposa e os filhos.

Naturalmente, sempre que oportunidades novas se nos apresentam, chances de refazer o passado equivocado, algumas normas se estabelecem.

A de Deborah é que ele abandone, de forma definitiva, o caso extraconjugal. Ela mesma toma do celular dele e, com voz calma, informa à outra que não procure mais o seu marido. Eles são uma família e assim viverão, doravante. Sem gritos, sem qualquer agressão.

Ron se esforça para a reconquista da esposa. Ele é um negociante de arte, reconhecido internacionalmente, mas atende aos rogos dela e a vai auxiliar no  trabalho voluntário em uma instituição para moradores de rua.

Ele precisa trabalhar seus próprios conceitos para aceitar estar ali, servindo a uns mal-agradecidos, revoltados, pessoas que, na sua ótica, não têm nada porque não trabalham, não fazem nada.

Espelhando-se no exemplo da esposa, toda amorosidade, ele se modificará a pouco e pouco.

Na sua atividade, um detalhe especial. O atendimento de Deborah àquela gente não é impessoal. Ela faz questão de, ao lhes servir o alimento, se apresentar e perguntar o nome do outro.

Nem sempre a reação é positiva, por vezes, grosseira. Porém, ela não se incomoda. Um exemplo muito importante para aqueles que nos propomos a uma atividade assistencial de qualquer natureza. Afinal, não somos todos um tanto rebeldes, quando a adversidade nos chega às portas, quando nos sentimos invisíveis, desprezados pelos outros?

Por isso, ela insiste, sobretudo, com os mais difíceis. Recordamos, nesse momento, da parábola da ovelha perdida. Não é aquela que exige do pastor uma dedicação especial, indo procurá-la e trazendo-a, com carinho, aos ombros, de retorno ao redil?3

Um personagem, entre os demais, se destaca. Chamam-no Suicida, embora, como comente Ron, parece mais um matador, porque chega agressivo, querendo bater nas pessoas. Furioso, porque alguém lhe roubou os sapatos, será um desafio mais do que especial.

Um desafio que Deborah entrega ao marido porque ela sonhara com aquele homem negro, aquele mendigo. E, no seu sonho, aquele homem deveria provocar alterações no mundo.

E o primeiro mundo no qual ele provocará mudanças será em suas vidas, enquanto ele próprio reencontrará a sua essência de homem bom, que fora, desde a tenra infância, maltratado, submetido a humilhações de toda sorte.

Interessante que, ao lado da amorosidade, Deborah dá exemplos de firmeza, impondo e pedindo respeito, no sentido de preservação, especialmente das pessoas que se doam àquele povo todo.

Então, a vemos exigir que Denver, o Suicida, se acalme, quando ele adentra o restaurante dos sem-teto, batendo em tudo com um bastão. Afinal, a jovem que ali serve, em voluntariado, precisa ter sua integridade física preservada. Também seu estado d’alma, pois se apavora, ante reação tão alterada.

O que surpreende, no transcorrer das cenas, é se descobrir a riqueza daquele mendigo. Um negro que sofrera, desde criança, a discriminação racial e o abandono. Trabalhando desde muito cedo, ninguém lhe apontara que poderia ter uma vida diferente, poderia ter ido para a escola. Não transpondo os limites da fazenda de algodão, nenhum outro panorama conhecia.

Manter as pessoas na ignorância é uma fórmula muito eficiente para tê-las dependentes e escravas.

Quando Denver se define pela fuga daquele local sem compaixão, no qual os negros não são considerados seres humanos, com anseios e emoções, descobre um mundo jamais visto e jamais sonhado.

Infelizmente, um ato equivocado logo o conduzirá à prisão. Em suas palavras, na prisão sem lei, onde permaneceu alguns anos, entrou um menino e saiu um homem… assassino.

Muitas são as dores que ele vai revelando, no compasso da amizade que Ron e Deborah lhe oferecem.

Ele vai conhecer o que é um lar de verdade, o que é ter amigos brancos, o que é confiar em alguém. E se ele é um analfabeto, seus valores são preciosos, demonstrando a veracidade da multiplicidade das vidas, em que revelamos na presente as conquistas das passadas. Um analfabeto, um ser maltratado, um sábio com uma rica filosofia de vida.

Com câncer terminal, a fortaleza moral de Deborah se revela mais uma vez. Ela prepara a instituição, o marido, os filhos, para sobreviverem à sua ausência.

Aos filhos faz prometer que jamais irão interferir na vida do pai, caso ele opte por namorar e casar-se novamente.

Ao próprio marido, confessa que ela não se importaria se, depois de sua morte, ele tomasse para esposa a que lhe fora caso extraconjugal, anteriormente.

O filme mostra o que é a reconstrução de um ser humano, machucado, agredido, desde os tenros dias da existência.

Um ser que, apesar de tudo, se importa com o próximo, o que Denver demonstra buscando alimento e levando, todos os dias, a outro sem-teto, que vive em uma cadeira de rodas.

Também ao sinalizar a Ron que seu pai, quase sempre embriagado e inconveniente, grosseiro em suas atitudes, é um homem bom.

Basta cavar! – Diz ele. Há de encontrar o homem bom.

Precisei cavar muito fundo! – Dirá Ron, futuramente.

Seu pai foi outro que modificou a própria vida. Abandonou o vício e, para surpresa da esposa, acostumada à sua forma rude de falar, dirá de como ela é preciosa. Como fez a grande diferença em sua vida.

A reconciliação com o filho é um dos pontos altos do filme. Afinal, Ron e Denver sairiam pelo mundo a falar da coragem do amor, que tudo pode e tudo modifica. O amor paciente, compreensivo, compassivo.

Como poderiam fazer isso, antes mesmo de Ron tudo ajustar em sua própria família?

Enfim, o filme nos traz um convite para olharmos o outro, desvestindo-nos dos preconceitos habituais de cor, raça, escala social, maneiras de nos portarmos.

Criança rebelde por vezes faz birra, grita. Está dizendo que precisa de atenção, de cuidados, de carinho.

Quantos dos nossos irmãos no mundo não se enquadram nessa situação?

Quantos estão gritando que desejam ser vistos, amados, compreendidos.

Em certa cena, Denver indaga a Ron: Você sabe o que está fazendo quando nos dá um prato de comida?

Estou ajudando, responde o interpelado.

Não, complementa o mendigo. Você está nos dizendo que não somos invisíveis.

Como desejamos todos ser amados, vistos, considerados.

Faz-se aqui de excelsa oportunidade o convite do Celeste Amigo: Amai-vos, como eu vos amei.4

Ele amou a mulher samaritana, de vida equivocada, tanto que a foi convidar para ser divulgadora da Sua mensagem. Ele amou a prostituída de Magdala, exaltando-lhe o arrependimento e a proposta de redimir-se. Ele amou ao cobrador de impostos Zaqueu, honrando-lhe a casa, com Sua presença, inaugurando nova fase em sua jornada terrena.

Amou aos que conviviam com Ele, também os que pareciam distantes e esquecidos.

Recordando que o filme é baseado em fatos, cabe-nos pensar nos exemplos dessas vidas, como as de Deborah, Ron e Denver, que nos demonstram que é possível reformular conceitos, mudar atitudes, semear o bem, graças à coragem de amar.

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 2, cap. 1, q. 115.

2 ______. Op. cit. pt. 2, cap. 1, q. 115a

3 BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 15, vers. 4 a 6.

4 Op. cit. João. cap. 13, vers. 34.

 

Ficha Técnica:

Same kind of different as me

Gênero: Biografia, drama

Direção: Michael Carney

Roteiro: Ron Hall, Denver Moore, Lynn Vincent

Elenco:   Greg KinnearRenée ZellwegerDjimon Hounsou, John Voigt, Olívia Holt, Ann Mahoney, John Newberg, Nyles Steele

Produção: Cale Boyter, Darren Moorman, Mary Parent, Michael Carney

Trilha Sonora: John Paesano

Duração:  119 minutos

Ano: 2017

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