Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Sobre o Auto de Fé de Barcelona

outubro/2019

De Paris, França, Allan Kardec havia enviado cerca de trezentas obras espíritas, de sua autoria e de outros escritores, para serem comercializadas pela livraria de Maurice Lachâtre, em Barcelona, na Espanha.

Quando passava pela alfândega espanhola, a remessa foi confiscada pela Igreja local, sob a ordem do bispo Antonio Palau y Termes, a pretexto da autoridade que lhe era concedida pela Inquisição. Argumentando que aquelas obras eram contrárias à fé católica, o bispo de Barcelona sentenciou que fossem queimadas, sem qualquer tipo de indenização aos seus proprietários. A execução – o Auto de Fé – se efetivou na esplanada central daquela cidade, às 10h30, do dia 9 de outubro de 1861.

Auto de Fé foi o nome dado às cerimônias em que eram proclamadas e executadas as sentenças do Tribunal de Inquisição da Igreja Católica, também conhecido como Tribunal do Santo Ofício.

O ato causou grande polêmica, com manifestações favoráveis e desfavoráveis através de jornais, inclusive de outros países, ensejando, a contragosto dos protagonistas da Inquisição, larga propaganda para a Doutrina nascente e já perseguida, desconhecida da grande maioria das pessoas.

A Inquisição Espanhola, que durou 336 anos, tinha sido abolida em 1834, o que levou Allan Kardec a comentar que por maior que seja a cegueira que se reconhece no fanatismo, a gente parece sonhar ao ouvir dizer que as fogueiras da Inquisição ainda se acendem em 1861, às portas da França[i].

E o Codificador assinalou, nesse mesmo artigo: Espíritas de todos os países! Não esqueçais a data de 9 de outubro de 1861. Ela ficará marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é o penhor de vosso próximo triunfo!

*

Estamos no século XXI e ainda constatamos discriminações, preconceitos, perseguições a pessoas, a religiões, a minorias, às mulheres, a nacionalidades, a etnias, inclusive com destruição de templos, agressões e até morte de religiosos, em decorrência da intolerância ideológica, do fanatismo.

O notável físico, Albert Einstein, escreveu: Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.

*

Jesus está nos lábios de muitos, mas em poucos corações.

A necessária revolução silenciosa dos costumes começa na mudança de mentalidade para melhor.

No dizer de Allan Kardec[ii], Espiritismo é uma ideia e não há barreiras impenetráveis à ideia, nem bastante altas para que estas não as transponham.

Eis a presença renovadora do Espiritismo na Terra para reformular ideias, crenças e valores, tudo o que nos faz agir.

Pelo ângulo doutrinário, o Espiritismo é o Consolador prometido por Jesus, preventivo contra o mal, terapia de otimismo e de felicidade.

Pelo ângulo prático, o Espiritismo é o ensinamento de que Fora da caridade não há salvação, indicando-nos a compaixão e o amor como nutrientes da vida.

Pelo ângulo pessoal de cada um, o Espiritismo aponta as transformações morais alcançadas e o continuado esforço em domar as inclinações más, como tarefa diária na formação do caráter diamantino do verdadeiro espírita, do verdadeiro cristão.

Os espíritas nos beneficiamos do consolo da mensagem do Cristo, descobrindo a excelência do amor ao próximo a ser manifestado em cada pensamento, gesto e sentimento, e somos despertados para o uso da liberdade das escolhas, cientes das responsabilidades que assumimos em decorrência delas, que ensejam melhoria moral e progresso continuado na senda da redenção, se as escolhas forem acertadas.

Repletando mente e coração com as luzes do conhecimento e prática espírita, que revive os ensinos de Jesus, anulam-se arrogância e prepotência, filhas diletas do orgulho, fontes das discriminações, preconceitos, causadores de tantos dissabores e males.

Trabalhemos na construção da Nova Era.

Dificuldades ontem; hoje não é diferente. O Movimento Espírita, como todas as ações em nome do Bem, se vê às voltas com adversidades e obstáculos, pois, numa expressão generalizada, luz e sombra vivem ainda milenar batalha.

Jesus é a Luz do Mundo.

E Ele faz convite pessoal e intransferível a cada um de nós, para empunharmos o archote iluminador de consciências: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me[iii].

Indispensável que todos nos conscientizemos – desencarnados e encarnados – dos compromissos perante a ensementação do bem, na seara do Senhor, e, sem medirmos esforços, partamos para a lavoura da realização, porquanto, nunca tal como agora ocorre, houve tanta necessidade do conhecimento, da vivência e da lição espírita, modeladores de um homem feliz e de um mundo melhor.[iv]

 

Referências:

  1. KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1861, v. XI. São Paulo: EDICEL, 1999. Os restos da Idade Média. Auto de Fé das obras espíritas em Barcelona.
  2. Op. cit. Discurso do Sr. Allan Kardec.
  3. BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 16, vers. 24.

4.FRANCO, Divaldo Pereira. Aos espíritas. Por Espíritos diversos. Organizado por Álvaro Chrispino. Salvador: LEAL, 2005. cap. 24.

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