Jornal Mundo Espírita

Junho de 2020 Número 1631 Ano 88

Sempre com as mesmas pessoas?

março/2020 - Por Luciane Buriasco Isquerdo

Introdução

Conhecida no meio Espírita é a Lei de Retorno, através da qual, de alguma forma, cenário o mais próximo possível é montado por mãos operosas de trabalhadores do plano espiritual, para que a mesma situação seja vivida, com as mesmas pessoas, o que tão bem nos é colocado nos diversos romances espíritas, para que assim soframos as consequências de nossos atos, aprendendo com o gosto amargo de nossos erros a não mais cometê-los. Mas, será que pagamos nossos débitos sempre com as mesmas pessoas? Isso não implicaria em aprisioná-las a nossos débitos?

Ildeu e Marcela

Caso muito interessante é relatado por André Luiz1, sob o título Resgate Interrompido.

Ildeu era casado com Marcela e tinha três filhos: Roberto, Sônia e Márcia. Envolveu-se, contudo, extraconjugalmente, com Mara, que mandava cartas à esposa noticiando a relação, o que a levava a chorar em silêncio, sem abandonar ou cobrar do marido o dever de fidelidade. O próprio marido, querendo viver o novo romance, fazia de tudo para que a esposa o abandonasse, mas essa, educada na escola do Dever, dedicava-se ao lar e escondia sua dor.

O filho, por vezes, acordava com os gritos do pai, retornando bêbado ao lar e, tentando socorrer a mãe, com seus nove anos de idade, era tolhido por ele, que determinava sua saída aos berros. Diferente ocorria quando as filhas choramingavam, ocasião em que o pai, bondoso, dizia que era por elas que ainda se encontrava naquela casa. Apesar de todo o trabalho de intercessão do plano espiritual, o marido acaba decidindo assassinar a esposa, de forma que parecesse suicídio. Protegendo Marcela, a equipe espiritual logra êxito em mostrar à filha Márcia, durante o sono, as cenas do crime, oriundas das formas pensamento exteriorizadas por Ildeu. Ela acorda gritando ao pai para que não mate, quando ele estava prestes a trancar a porta do quarto das crianças para perpetrar seu intento.

Marcela acorda, vê o marido aos pés da cama da filha, armado, acreditando que tentava suicídio. Ela reage com tal generosidade que leva às lágrimas os assistentes espirituais presentes. Ele menciona a possibilidade de divórcio, para que não venha a se suicidar, aproveitando-se da situação. Esse acaba sendo o caminho tomado. Os Espíritos a consolam em pensamento, afinal, sem as pensões alimentícias de hoje, isso significava ter que prover sozinha sua subsistência e a dos três filhos, numa época em que o trabalho da mulher era mais exceção que regra.

Em outros tempos, comenta a equipe, também como marido e mulher, neste mesmo país, na última existência – a história deles já vinha de séculos – o atual Ildeu seduzira duas jovens irmãs. Primeiro, deixara a esposa e fora viver com uma delas, que depois abandonara e fora viver com a outra, que tinha a existência patrocinada pela irmã mais velha, entregue que lhe fora pelos pais, à beira do túmulo. Ou seja, praticamente a criara. A derrocada moral de ambas fez com que se tornassem prostitutas. Mais tarde, ele quis regressar ao lar, para que a esposa o cuidasse qual escrava e enfermeira. Tendo-a encontrado com outro homem, com quem tinha casado depois de abandonada por ele, não suportando vê-la feliz, matou-lhe o novo marido.

Nesta existência, o filho Roberto é aquele marido, assassinado pelo hoje Ildeu e que, para dar-lhe a vida tirada, ofertou-lhe a paternidade. As duas filhas da atualidade, a quem dera a vida e prometera encaminhar, são os amores do passado que sua conduta fez com que se prostituíssem.

Assim é que o hoje se encaixa no ontem, reparando erros e promovendo acertos. Mas não havendo a real mudança a que nos comprometemos, não raro incidimos nos mesmos equívocos, como ocorre a Ildeu.

Dentro dessa Lei de Retorno, será que sempre se reconstrói o cenário com as mesmas pessoas do passado? Tantas vezes quantas forem necessárias? É a indagação de André Luiz, justamente no caso narrado, em que Ildeu deserta do lar, abandonando os que se comprometera a amparar.

É o orientador Silas quem responde:

Embora estejamos todos, uns diante dos outros, em processo reparador de culpas recíprocas, em verdade, antes de tudo, somos devedores da Lei em nossas consciências. Fazendo mal aos outros, praticamos o mal contra nós mesmos. Caso Marcela e os filhinhos se ergam, um dia, a plenos céus, e na hipótese de guardar-se nosso amigo mergulhado na Terra, vê-los-á Ildeu na própria consciência, sofredores e tristes, quais os tornou, atormentado pelas recordações que traçou  para si mesmo e pagará em serviço a outras almas da senda evolutiva o débito que lhe onera o Espírito, de vez que, ferindo os outros, na essência estamos ferindo a obra de Deus, de cujas leis soberanas nos fazemos réus infelizes, reclamando quitação e reajuste[1].

Observemos que pagará a outras almas. Afinal, estas não poderiam parar sua jornada. E, ainda elucida Silas: Quem se retarda por gosto não pode queixar-se de quem avança.

É assim que verdadeiros oceanos de distância evolutiva se instalam entre seres amados. E levarão séculos para serem transpostos.

Conclusão

Portanto, é comum que os cenários sejam reconstruídos com as mesmas pessoas, mas tal não se dá necessariamente, até para que não o seja infindamente, aprisionando almas a situações que já não merecem passar. São nossos atos que nos aprisionam a situações que, superadas, não precisam ser repetidas. Se, por amor, podemos aguardar retardatários da marcha ou viver situações que não precisávamos vivenciar, não somos obrigados a tal, para que, de nossa parte, não nos retardemos demasiado.

Referência:

1 XAVIER, Francisco Cândido. Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2007. cap. 14.

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