Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2021 Número 1639 Ano 88

Rosa e Momo

janeiro/2021 - Por Maria Helena Marcon

O filme traz às telas, depois de quase dez anos de seu último papel no cinema, a vencedora do Oscar de Melhor Atriz de 1962, a italiana Sophia Loren. Dirigida por seu filho, Edoardo Ponti, aos 86 anos de idade, ela interpreta uma judia sobrevivente dos campos de concentração nazistas.

Trata-se de uma adaptação do livro de Romain Gary, publicado em 1975, sob o pseudônimo de Emile Ajar, Madame Rosa – A vida à sua frente. Em sua primeira versão cinematográfica, em 1977, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Madame Rosa fora prostituta, por mais de quarenta anos. Alcançando seus sessenta anos de idade, aposentou-se, recolheu-se ao lar e passou a acolher filhos abandonados de outras colegas. É nessa casa que chegará Momo, o garoto senegalês, de 12 anos.

A proposta do médico de Rosa é que ela acolha aquele menino, ao menos por algumas semanas. No entanto, como ela poderia fazer isso com aquele mesmo que, há pouco, derrubando-a, lhe furtara a bolsa, em plena praça?

A insistência é grande e Momo, diminutivo de Mohamed, se junta a dois outros meninos no lar de Rosa.

As histórias de vida de cada um são tristes e nos falam de como a esperança é importante para não se perder a vontade de viver. A mãe do menorzinho mora no andar de baixo. De uma forma que assombra Madame Rosa, no intuito de querer ser uma mãe o melhor possível, ela se prostitui à noite e durante o dia se dedica ao pequeno, visitando-o, levando-o a passear, oferecendo-lhe as pequenas grandes alegrias da convivência materna.

A diversidade de raças, o preconceito, o bullying parecem sutis, mas demonstram o quanto ainda estamos longe de amar, de forma plena. Quando é indagado a Momo qual a religião que professa, ele confessa que nunca soubera ser muçulmano, até lhe dizerem isso na escola.

Escola da qual ele fora expulso por agredir um colega que o atormentava. Interessante a forma como por vezes nos comportamos. Vemos a agressão, a punimos, sem nos interessarmos em indagar dos motivos que a ela conduziram o agressor.

Com certeza, nada que justifique qualquer ato violento, de vingança ou represália. No entanto, quando estamos olhando para um menino alijado, por questões adversas, de seu próprio país, necessitando asilo em solo estrangeiro; um menino, que nem lembra direito como era o seu país porque dele saiu, em fuga, ainda muito pequeno; quando nos defrontamos com um garoto que ficou órfão muito cedo e se vê às voltas com normas da assistência social/conselho tutelar; alguém imerso em saudade de carinho, antes de punir, de expulsar, não seria o momento de melhor analisarmos  a questão?

Onde a nossa compreensão, a nossa compaixão?

E o agredido, será simplesmente, uma vítima inocente ou terá, de alguma forma, provocado, insistentemente, o incidente?

Recordamos Jesus frente à turba exaltada que lhe traz a mulher surpreendida em adultério, a fim de que Ele a julgasse.

Em Sua sabedoria, conhecedor da lei que ordenava a lapidação para esse crime, sem grandes discursos, analisa as várias circunstâncias. Segundo o Espírito Amélia Rodrigues1, que detalha fatos, além dos descritos nos versículos do Evangelista João2, existe uma circunstância com a qual os acusadores não se importam, nem consideram: onde está o homem que com ela adulterara? Por que não fora trazido para o julgamento, de igual forma? Por que lhe fora permitida a pura e simples evasão do local do adultério?

Afinal, a mulher estava em sua casa. Ele a adentrara, e ali consumara o ato. Se ela traíra o tálamo conjugal, ele fora o usurpador da honra de outro homem, tomando-lhe a esposa para seu próprio deleite. Por que ninguém se importava com ele? Por que somente a mulher deveria sofrer o julgamento e a penalidade?

E por que ela caíra em adultério? O que a isso a conduzira?

Detalhes importantes quando se analisa um delito, quando nos propomos opinar, sentenciar, condenar.

Não por outro motivo, conclui o Mestre2: Ninguém te condenou? Nem eu, também te condeno. Vai-te e não peques mais.

E, na lição de se atentar para o argueiro no olho alheio, sem nos darmos conta da trave no próprio3, é que ao descobrir que Momo trabalha para um traficante, vendendo drogas com um sucesso extraordinário, o negociante que o recebera na loja, para algumas tarefas, na semana, diz que não o entregará à polícia.

Não, ele não o delatará mas espera que ele entenda, e logo, que aqueles traficantes e drogados não são a sua família. A sua família se constitui daqueles que verdadeiramente se importam com ele.

No episódio da adúltera, como aqui, a oferta da segunda chance, da reformulação do proceder, o estimular à correta decisão, no uso do livre-arbítrio.

Será ele ainda que falará a Momo de que não há necessidade de agredir quem o ofende, porque a palavra é a mais poderosa arma de um homem. A palavra convence, atrai, conquista.

Poderoso veículo de comunicação, a palavra é abençoado instrumento para preservar a vida e enriquecê-la de bênçãos (…)

A arte de falar é conquista que todos devem lograr.4

Momo representa os muitos expulsos de sua terra natal, pelas guerras, por questões políticas, por governos ditatoriais. Obrigados a abraçarem outro idioma, que precisam aprender com rapidez, a fim de se adequarem, poderem se expressar, trabalhar, viver em estranho solo.

Já nos demos conta de como isso é aterrador? Ser obrigado a abandonar seu lar, sua terra, sua gente? Será de julgarmos sem piedade quando a resposta de uma criança a tudo isso é a má conduta, a revolta? Não precisaremos mudar nossos métodos de persuasão, de convencimento para a disciplina e para o bem?

Embora Madame Rosa não tenha demonstrações de ternura, ela e Momo acabarão por estabelecer uma conexão. Ele descobrirá como ela se sente amedrontada, como, em certos momentos, o medo parece dominá-la, numa recordação dos horrores vividos durante a guerra. E descobrirá, também, que para se sentir segura, nesses momentos, ela busca um local escondido, no porão do prédio. Uma espécie de esconderijo, algo que ela deseja impenetrável mas que ele, de forma paulatina, terá licença para adentrar, participando das memórias dela.

Ele se dará conta das crises que tomam de assalto Madame Rosa. As coisas estranhas que ela faz, vez ou outra, quando parece que a lucidez a abandona. Será ele quem criará desculpas para o seu comportamento perante os demais, como a defendê-la de qualquer julgamento de terceiros.

Para ele, ela segredará do seu temor de ficar doente, de não desejar ser recolhida a um hospital, onde, com certeza, farão experiências terríveis com ela. Passado e presente parecem se confundir em sua mente.

O homem, diz Joanna de Ângelis5, é as suas memórias, o somatório das experiências que se lhe armazenam no inconsciente, estabelecendo as linhas do seu comportamento moral, social, educacional.

Essas memórias concorrem para a libertação ou a submissão aos códigos estabelecidos, que propõem o correto e o errado, o moral, o legal, o conveniente e o prejudicial.

Face a tais impositivos, desencadeiam-se, no seu comportamento, as fobias, as ansiedades, as satisfações, o bem ou o mal-estar.

(…) o medo assume avantajadas proporções, perturbando a liberdade pessoal e comunitária do indivíduo terrestre.

Quantos dos nossos idosos temem o internamento hospitalar, mesmo não tendo a atemorizá-los eventuais torturas de um tempo transato? Quantos procuram esconder a própria dificuldade de se locomover, de enxergar, de se recordar do essencial, temerosos de serem retirados do seu lar, do seu cantinho, para serem deixados em clínicas especializadas.

Quantos, próximos à morte, são entregues a cuidados médicos extremos, ligados a múltiplos aparelhos, que lhes impedem, inclusive, qualquer manifestação.

Louvamos, nesse particular, a dignificação da morte pela qual trabalhou a Dra. Elizabeth Klüber-Ross. Quando nada mais há a ser feito, deixar que o paciente morra em paz, junto aos seus, onde melhor se sinta.

Morrer rodeado pelos amores, junto àquilo que, um dia, lhe constituiu a felicidade. Talvez um simples ramo de acácia, mesmo que artificial, como no filme, para lembrar os dias venturosos.

Algo que os faça recordar dias de felicidade. Uma foto, um quadro, um livro. Uma conexão com alegrias fruídas, amores vividos…

Quantas vezes cremos serem tolices que nossos idosos apreciem tanto velhas lembranças, arquivadas em álbuns de fotografias, ou algum objeto antigo que lhes remete ao passado de ventura?

Talvez devêssemos estar mais atentos, sermos empáticos e tentarmos realizar a viagem de recordações com eles.

É o que Momo assegura para aquela a quem aprendeu a amar: o seu cantinho seguro, ninguém mais além deles dois, mãos dadas de afeto, gestos de pura afeição. A morte serena, recordando dias tranquilos…

Aqueles que tiverem a força e o amor para ficar ao lado de um paciente moribundo com o “silêncio que vai além das palavras”, saberão que tal momento não é assustador nem doloroso, mas um cessar em paz do funcionamento do corpo. Observar a morte em paz de um ser humano, faz-nos lembrar uma estrela cadente. É uma entre milhões de luzes do céu imenso, que cintila ainda por um breve momento para desaparecer para sempre na noite sem fim.6

O filme, com certeza, nos trará muitas emoções. Remeter-nos-á, de acordo com as experiências pessoais, a reflexões profundas. Quem sabe, até nos estimule a algumas alterações de pensar, de agir para conosco e para com os que nos cercam.

 

Referências:

  1. FRANCO, Divaldo Pereira. Quando voltar a primavera. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1977. cap. 13.
  2. BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 8, vers. 3 a 11.
  3. cit. Mateus. cap. 7, vers. 3 a 5.
  4. FRANCO, Divaldo Pereira. Episódios diários. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1986. cap. 11.
  5. Momentos de felicidade. Pelo Espírito Joanna de Ângelis, Salvador: LEAL, 1991. cap. 11.
  6. KLÜBER-ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1989. cap. XII.

 

Ficha Técnica:

La vita davanti a sé

Gênero: drama

Direção: Edoardo Ponti

Roteiro: Ugo Chiti, Fabio Natale e Edoardo Ponti

Elenco: Sophia Loren, Renato Carpentieri, Francesco Cassano, Ibrahima Gueye, Babak Karimi, Massimiliano Rossi, Abril Zamora

Produção: Carlo Degli Esposti, Regina K. Scully, Nicola Serra, Geralyn White Dreyfous, Edoardo Ponti, Guendalina Ponti, Jamie Wolf

Trilha Sonora: Gabriel Yared

Duração:  94 minutos

Ano: 2020

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