Jornal Mundo Espírita

Março de 2020 Número 1628 Ano 87

Revivendo ensinos

março/2017 - Por Pescador de pérolas

Um homem imprevidente, sem ter os mais comezinhos conhecimentos de náutica, entendeu, um dia, acossado pela sede maléfica da riqueza, de construir um barco para ir, mar afora, ganhar a vida, pois ouvira dizer que, no fundo misterioso do oceano, havia pérolas, pérolas  que se vendiam por muito bom dinheiro, para regalo e prazer da vaidade humana.

E quando o barco estava pronto, o homem egoísta e imprevidente, não querendo que ninguém compartilhasse da sua fortuna, da fortuna que ele sonhava ir buscar no fundo misterioso do oceano, meteu-se sozinho dentro do mesmo barco e fez-se de vela para o mar largo, deixando para trás a praia branca, silenciosa e tranquila, beijada àquela hora, pela luz opalescente da lua.

E o barco singrava velozmente, com as velas pandas enfunadas pelo vento que soprava mansamente, como uma carícia invisível e boa.

E no meio majestoso daquela serenidade do oceano e do céu, que se confrontavam, só o coração daquele homem não estava tranquilo, agitado pelo furacão do egoísmo.

Já muito ao longe ele podia divisar, como suave aceno de saudade, o ondular das copas dos coqueiros, agitados pelo vento.

E o barco corria velozmente, suavemente, deslizando à flor das águas marinhas.

. . . . .

Mais veloz, porém, do que o barco, corriam doidamente as paixões desordenadas daquele navegante incauto que se fizera ao mar largo sem conhecimentos de náutica.

Súbito, na fímbria longínqua do horizonte, uma nuvem apareceu, negra e pesada, que mais e mais crescia, toldando a serenidade do céu, onde a lua ponteava como um grande crisântemo de ouro.

O vento, o mar e o céu já não estavam serenos, pois a tempestade surgira, violenta e brutal, fustigando as águas. Ondas horríssonas se entrechocavam, num gargalhar satânico e, num desses embates, foi para o fundo  do mar o barco desarvorado do pobre navegante incauto, que saíra ao mar largo para pescar pérolas.

A vida é também um mar, ora calmo, ora tempestuoso, onde só devem navegar aqueles que têm por bússola a Caridade, essa estrela dos navegantes espirituais que Deus colocou no imo da consciência de cada criatura.

Feliz de quem tem olhos para ver essa estrela e conhecimentos profundos para manejar essa bússola.

Carlos B. de Souza
Revista de Espiritualismo, maio 1919.

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