Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Revivendo ensinos

A crise do senso moral

janeiro/2017

Provavelmente, nas primitivas eras da Humanidade, o princípio de obediência às normas da vida social e de respeito às decisões proferidas pelos mais avisados, fundava-se no critério de uma quase homogeneidade nas tendências individuais e, consequentemente, nos costumes que regiam os primeiros núcleos humanos. Assim deverá ter sido, visto como era precaríssima, senão nula, a cultura dos homens que constituíram os primeiros esboços de vida associativa; e o espírito de união, de fraternidade e de respeito não tolera termos médios na longa escala das conquistas morais e intelectuais.

A simplicidade de coração, a sinceridade nas manifestações da vontade e humildade nas expressões do sentimento são o apanágio – ou das criaturas incultas e inexperientes, ou desses  seres eminentemente evoluídos, que já não revelam sequer vestígios das humanas paixões.

Assim foi, e assim deverá ser hoje, se do pavoroso conflito das necessidades dos indivíduos, das famílias, das sociedades, enfim, não surgissem novos aspectos de vida, novas formas de labor, novas manifestações da atividade intelectual nas artes, nas ciências e nas indústrias, criando incessantemente os germes de novas ambições, de novas lutas, de competições esmagadoras, a alimentar eternamente o fogo das mais funestas paixões.

Eis porque as normas sociais, exprimindo necessariamente o senso e as tendências da maioria, distanciam-se cada vez mais da razão e da verdade. Todas as vezes que, para triunfar na vida, é mister espezinhar uma lei moral ou sacrificar um princípio de ordem natural, erige-se em norma social um absurdo,  um erro, uma infração consciente às leis harmônicas que regem os dois mundos, da matéria e do Espírito.

Se é bem verdade que as más inclinações dos primeiros indivíduos determinaram, no seio das sociedades humanas, reações intensas que acabaram por enfraquecer o organismo social, arrebatando-lhe as melhores energias para a luta pelo bem, não é menos certo que esses germes mórbidos, multiplicando-se incessantemente, acentuaram, ao inverso, o império absoluto do conjunto sobre as partes, de sorte que o fator psíquico dos indivíduos desapareceu por completo para dar lugar a esse automatismo psicológico das coletividades.

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A sociedade, como um complexo eminentemente heterogêneo, pela infinita diversidade de caracteres dos indivíduos que a compõe, é a mais instável e mais corruptível de todas as organizações. Um organismo minado por germes, que já não mais permitem as reparações indispensáveis ao equilíbrio vital, é um organismo em franca decadência, incapaz de reagir aos mais poderosos estimulantes; é um pobre enfermo que se não pode reanimar.

O vírus terrível das mais tenebrosas paixões, dos mais revoltantes vícios, injetando-se profundamente na alma humana, determinou um estado de espírito hostil a toda e qualquer tendência para a realização dessa perfeição moral com que ainda sonham alguns idealistas. O utilitarismo, como manifestação positiva do egoísmo a que os homens foram conduzidos, pela aparente vitória dos incapazes e audaciosos, e, sobretudo, pela descrença implantada com os princípios do niilismo materialista, aniquilou por completo o sentimento inato da imortalidade e consequentemente da sanção a que a própria consciência submete na vida espiritual todos os atos da vida terrena. (…)

Um tal estado de espírito não pode gerar pensamentos e ações norteados por sentimentos de amor à verdade e ao bem. E quando uma dessas almas de elite se levanta sã e límpida do concerto humano em que pastam vícios e paixões execráveis, eis que mil vozes se alçam em uníssono para abatê-la com apodos e ironias causticantes, como fariam os garotos malfeitores que apagam a pedradas as luzes da via pública para que os seus vandalismos fiquem na penumbra da impunidade. É nessa maioria colossal, esmagadora, que se concretiza a opinião pública, força invencível que todos nós somos obrigados a acatar, a venerar até, como a exteriorização sublime da verdade, da razão esclarecida!

Mas, quanto estava errada a razão quando estabeleceu que a maioria decidiria de todos os pleitos da verdade contra o erro! Partindo da premissa falsa qual seja a de que os protestos da minoria são os protestos da ignorância, do erro, concluiu logo o humano intelecto que a verdade deve estar com a maioria. Se assim é, todos os códigos, leis, instituições que regem as coletividades humanas devem ser a expressão da verdade e da justiça; as decisões, os veredictos proferidos pelos tribunais de toda a espécie devem ser indefectíveis (…)

Tal não sucede, porém. Códigos, leis e instituições existem que exprimem apenas as necessidades, os interesses e paixões mais vis da coletividade que os elaboraram (…).

Poder-se-ia dizer, sem receio de errar, que o senso moral nos indivíduos personificou-se na insensatez da maioria, e que essa maioria só estará com a verdade quando, mercê da ação perseverante dos labores experimentados através dos séculos, os homens atingirem o nível moral e intelectual compatível com a posse desse tesouro, que hoje é monopolizado por uma insignificante minoria de almas evoluídas, míseras criaturas que a sociedade não compreende (…).

Flávio Luz
Revista de Espiritualismo, novembro de 1920

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