Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Revivendo ensinos

As origens da dor

setembro/2016 - Por Vianna de Carvalho

Um fato de interesse capital que os credos religiosos ou filosóficos até aqui não haviam explicado, satisfatoriamente, é a desigualdade entre os homens, ocasionando as flagrantes diferenças apreciadas nas condições da vida sobre o planeta. Se volvermos os olhos para qualquer ponto deste doloroso cenário, o que cai na esfera da nossa visão é um espetáculo de campo de batalha.

Superficialmente, parecia há bem pouco tempo, reinar a ordem e o equilíbrio das sociedades cultas, dirigidas por instituições que se vieram organizando através de esforços muitas vezes seculares. Desçamos, porém, ao fundo das coisas, façamos estudo analítico e logo descobriremos anomalias, iniquidades, vícios e baixezas, sombras e tumultos coagulados, intoleravelmente, no seio das coletividades.

A repartição da justiça é uma quimera revoltante; não raro, a inocência se vê ludibriada enquanto o crime passa entre as multidões coroado de louros. Não raro, o direito opta pelo tartufismo repudiando a honorabilidade. A massa proletária, a imensa colmeia dos humildes se estorce agonicamente, a braços com múltiplas e sempre renovadas vicissitudes. Que exigem esses calcetas da miséria? Conforto, luxo, prerrogativas usufruídas tranquilamente pelas classes monopolizadoras do capitalismo sem entranhas, sem piedade e alheio a todos os gestos da humana solidariedade? Não. Exigem apenas uma coisa muito simples – trabalho – recurso único para que apelam na ânsia de atenuarem, quanto possível, os reclamos das necessidades inadiáveis que os oprimem de todos os lados…

Encarando os indivíduos de per si, a observação não é menos desconsoladora. Alguns pairam na luminosa atmosfera do poder, da ostentação, dos sucessivos triunfos alcançados sem fadiga. Este subjuga a glória a golpes de talento, domina as circunstâncias ambientes e sobe ao Capitólio. Outro amontoa riquezas que fulguram no diadema de seu império de um momento; dorme entre dourados coxins e desperta entre músicas festivas. Mas há uma cifra espantosa de infelizes condenados a uma luta que no berço se inicia e só no túmulo finaliza. Para esses, existir é o mais próximo sinônimo do desespero. A fome, a enfermidade e a miséria conspiram em seus lares, roubam-lhes as esposas, os filhos, as afeições uma a uma, no delírio da devastação implacável.

Como conciliar a bondade infinita de Deus com a tirania de tantos males, esmagando o homem sobre a Terra?  A Divina equidade comporta exceções,  privilégios, escolha arbitrária concedida a uma parte das criaturas com detrimento das demais? Tal é a doutrina corrente, admitindo uma graça especial sobre os predestinados. Aparece em qualquer época o vulto do homem de gênio, do apóstolo, do missionário? Isto é simplesmente um favor de Deus segundo a teologia. O Ente Supremo dá assim um formal desmentido à lei de justiça que deveria ser infalível, como atributo inalienável do Absoluto. Esta conclusão, de lógica maciça, invalida inteiramente a ideia da graça como manifestação do Soberano Poder.

Para o Espiritismo, semelhante problema se aclara sem haver mister invocar argumentações retumbantes nem recorrer a sortilégios de complicada hermenêutica. Todos os Espíritos, sem distinção de espécie alguma, são criados nas mesmas condições de simplicidade, todos partem de um ponto inicial que é origem dos seres destinados à posse dos bens celestes.

Compelidos a evoluir, passam pelas formas inferiores da natureza, adquirindo experiência, desenvolvendo crescentes potencialidades à custa do próprio esforço. No momento em que entram na posse de si mesmos com o desabrochar da consciência, simultaneamente aparece o livre-arbítrio, facultando-lhes a escolha do bem ou do mal. Se realizam boas obras, voltam em encarnações cada vez melhores, gravitam para o polo da felicidade espiritual. Se teimam na prática do vício, encarnam em condições sofredoras e tantas vezes quantas forem necessárias à efetividade de sua regeneração e consequente acesso às alegrias dos mundos superiores.

Cada um constrói a própria ventura e cada um responde diretamente pelas infrações cometidas contra o código dos preceitos morais. Daí, as desigualdades provocadas pelo exercício da vontade livre. O espírito negligente estaciona nos degraus inferiores da intelectualidade, desconhece a virtude e torna-se passível de expiações purificadoras. Gera, dessa maneira, a adversidade, a miséria e as humilhações de todos os feitios. Fenômeno oposto caracteriza a ascensão das almas obedientes, laboriosas e confiantes na misericórdia do Senhor. Destarte, as desgraças da vida, a dor, o luto e as decepções deste mundo são obras nossas, absolutamente nossas e nunca da Inteligência Impecável que só difunde no Universo os raios da eterna beleza, em cujo seio palpitam gloriosamente todas as manifestações do Seu amor sem limites.

Revista de Espiritualismo, junho de 1916.

Assine a versão impressa
Leia também