Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2017 Número 1601 Ano 85

Revivendo ensinos

As experiências com a médium Florence Cook

novembro/2017

Durante estes últimos seis meses, Mlle. Cook fazia frequentes visitas à minha casa e por vezes aí passou uma semana inteira.

Não trazia consigo mais que uma pequena bolsa sem chave; durante o dia estava sempre acompanhada por mim, por Mme. Crookes ou por algum membro de minha família, e não dormia só; faltava-lhe, portanto, absolutamente, ocasião de preparar qualquer coisa que fosse necessária a fazê-la representar o papel de Katie King. Fui eu próprio quem preparou minha biblioteca e meu gabinete escuro, e habitualmente Mlle. Cook, depois do jantar, conversava um pouco conosco, ia direto ao gabinete o qual, a pedido seu, fechava a chave a segunda porta, chave que guardava comigo durante toda sessão. (…)

Logo que entrava no gabinete, Mlle. Cook deitava-se no soalho, colocava uma pequena almofada debaixo da cabeça e em breve ficava em completo letargo. Durante as sessões fotográficas Katie envolvia a cabeça da médium com um xale para impedir que a luz caísse em seu rosto.

Frequentemente, quando Katie estava em pé muito próxima ao médium, eu levantava um lado da cortina e as sete ou oito pessoas que estavam no laboratório podiam ver, ao mesmo tempo, Mlle. Cook e Katie em plena claridade da luz elétrica. (…)

Tenho uma prova de Katie e a médium fotografadas juntas, porém Katie está colocada diante da cabeça de Mlle. Cook.

À proporção que eu tomava parte ativa nessas sessões, a confiança que me depositava Katie aumentava gradualmente, de forma que ela não queria mais dar sessão antes que eu tivesse tomado todas as disposições precisas, dizendo-me que esta confiança estabeleceu-se e quando ela ficou plenamente convencida que eu cumpria minhas promessas, os fenômenos aumentavam de intensidade e tive provas que me seriam impossíveis obter se eu me tivesse portado de outra forma. (…)

Uma das fotografias mais interessantes é a que estou de pé ao lado de Katie, que tem um dos pés apoiados em um ponto particular do soalho. Em seguida, fiz com que Mlle. Cook  se vestisse exatamente como Katie; e eu e ela colocamo-nos na mesma posição, e nos fizemos fotografar pelas mesmas objetivas colocadas absolutamente como em outra experiência e pela mesma luz. Colocamos então os dois desenhos um sobre o outro, e minhas duas fotografias coincidiam perfeitamente quanto à estatura etc., mas a de Katie é um pouco mais alta que Mlle. Cook, parecendo perto desta uma mulher gorda. Em outras muitas provas a largura de seu rosto e grossura de seu corpo diferem essencialmente de sua médium, e as fotografias fazem ver muitos outros pontos de dessemelhança.

A fotografia, porém, é tão importante para pintar a beleza perfeita do rosto de Katie como são as palavras para descrever o encanto de suas maneiras. A fotografia pode, é verdade, dar-nos o desenho do seu porte, mas como poderia ela reproduzir a pureza brilhante de sua tez ou a  expressão sempre móvel de sua fisionomia, ora velada pela tristeza quando contava algum triste acontecimento de sua vida passada, ora risonha e cândida como a de uma inocente donzela, quando chamando meus filhos os advertia contando episódios de suas aventuras na Índia? 

(…) Tenho certeza absoluta de que Mlle. Cook e Katie são duas individualidades distintas, pelo menos no que é concernente a seus corpos. Alguns pequenos sinais que Mlle. Cook tem no rosto não existem absolutamente no de Katie. Os cabelos de Mlle. Cook são de um castanho tão carregado que parecem quase negros. Uma madeixa que Katie permitiu que cortasse de suas tranças luxuriantes é de um brilhante castanho dourado.  Ao cortar esta madeixa segui com meus dedos até o alto da sua cabeça para assegurar-me que os seus cabelos eram naturais ou, por outra, nascidos.

Uma noite contei as pulsações de Katie, seu pulso batia regularmente 75, ao passo que o de Mlle. Cook, instantes depois acusava 90, seu número habitual.

Auscultei o peito de Katie e pude ouvir um coração bater interiormente e suas pulsações eram ainda mais regulares que em Mlle. Cook quando depois da sessão fiz nela a mesma experiência. Da mesma forma examinei os pulmões de Katie que se mostraram mais sãos  do que os da médium que, na ocasião, tratava de uma bronquite.

Quando chegou o momento de Katie despedir-se de nós, eu lhe pedi o favor de ser o último a vê-la. Nesta conformidade, depois de ter chamado a cada um dos presentes dizendo a um por um algumas palavras em particular, ela deu suas instruções gerais para nossa direção futura, e proteção que devia dar-se a Mlle. Cook. (…)

Terminadas essas instruções, Katie pediu-me que entrasse com ela para o gabinete e consentiu que eu aí me conservasse até o fim…

Depois de ter corrido a cortina ela conversou comigo por algum tempo, depois atravessou a câmara para ir ter com Mlle. Cook que estava deitada no soalho. Inclinou-se sobre ela, tocou-a e disse-lhe: Acordai-vos, Florence, acordai-vos, é forçoso que eu vos deixe agora.

Mlle. Cook despertou toda chorosa e suplicou a Katie para que se demorasse mais algum tempo. Não posso, minha querida; minha missão está acabada. Que Deus vos abençoe! (…) Durante alguns minutos elas conversaram, até que, enfim, as lágrimas de Mlle. Cook a impediram de falar.

Seguindo as instruções de Katie eu corri para segurar Mlle. Cook que caíra soluçando convulsivamente. Olhei ao redor de mim, porém Katie e seu vestido branco tinham desaparecido. Logo que Mlle. Cook ficou mais calma, se trouxe luz e a conduzi para fora do gabinete.

William Crookes
Revista A Luz, março de 1890

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