Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Revivendo ensinos

Ciência e fé

outubro/2017

No conceito de certas filosofias enraizou-se a falsa noção de que é inexequível sustentar o equilíbrio entre essas duas formas da atividade espiritual.

Alguns pensadores tomaram a sério o propósito de erigir muralhas limitando as esferas da razão e do sentimento, especialmente quando este entende com as efusões da religiosidade.

Aparentemente, a tentativa em consorciar essas forças, tão diversas, dá origem a uma antítese mais convencional do que própria às suas qualidades diferenciais. A questão está em desfazer o erro, provindo de um sentido capcioso concedido aos termos, ora pela escola materialista, ora pelas teologias embrenhadas no cipoal da metafísica, de onde não se aventuram a sair, com receio de irreparável desmoronamento.

O materialismo instituiu o prejuízo de que a ciência só se deve ocupar com fenômenos terra a terra e leis relativas ao plano objetivo. Todas as manifestações superiores, dependentes de princípios invisíveis, foram catalogadas no sobrenatural e indignas de sistematização. Como se além, no território do imponderável, pudesse predominar a exclusão da ordem, que é a base do organismo universal!

As teologias percorreram caminho idêntico a respeito da fé: outorgaram-lhe aplicação forçada e exclusiva aos surtos do misticismo. Não facultaram que descesse à aridez das análises e interrogações tão úteis à firmeza de qualquer convicção exposta aos embates da crítica, a se exercer no pleno direito de suas atribuições.

Daí o crê ou morre da Idade Medieval e o moderno antagonismo que muitas seitas alimentam contra os rígidos processos da ciência.

A fé cega, realmente, tornou-se antípoda dos conhecimentos seriados pela experiência dos laboratórios.

Suas intuições divergem da linha traçada por um meticuloso exame, abraçando largo horizonte na interpretação da natureza.

Pretendendo apoiar-se no milagre, dissolve-se com este, em face das provas inatacáveis, demonstrando a permanência invariável das leis distribuídas na Divina Obra.

Há, pois, mister substituí-la por outra em condições de estabelecer harmonia com a indagação científica. É o caso da fé raciocinada, cuja solidez constitui o motivo explicativo do vigor e expansibilidade atinentes às teorias do Espiritismo.

Fazendo-a interferir na economia da inteligência, desaparecem as anomalias dogmáticas, cessam os conflitos interiores e o crente não precisa mais recorrer a vãos mistérios para conservar a chama consoladora de suas opiniões religiosas.

Vianna de Carvalho
Revista de Espiritualismo, novembro de 1916

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