Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Revivendo ensinos

A fé espírita de Victor Hugo

agosto/2017

Aos dois de agosto de 1883, Victor Hugo depositava nas mãos de Auguste Vacquerie um envelope aberto contendo as suas últimas vontades, concebidas em poucas mas expressivas palavras:

Lego cinquenta mil francos aos pobres. Desejo ser conduzido ao cemitério em coche fúnebre. Recuso o sufrágio de todas as igrejas; aceito uma prece de todas as almas. Creio em Deus.

Uma publicação feita por M. Louis Barthou, membro da Academia Francesa, na Revue des Deux Mondes, de vários trabalhos inéditos de Victor Hugo, provocou um debate no jornal Le Figaro [ano de 1919].

Vieram à baila vários documentos que atestam a fé inabalável do príncipe dos poetas na doutrina da vida futura. Surgiram os relatos feitos por Auguste Vacquerie nas Migalhas da História (Miettes de l’Histoire) das interessantes sessões de Espiritismo a que assistiu Victor Hugo. No decurso dessas memoráveis experiências, a que o grande pensador foi arrastado por Mme. Girardin, teve ele provas inegáveis de que se comunicava com Voltaire e com sua falecida filha Leopoldine.

(…) As provas iniludíveis da fé espírita do poeta de As Contemplações, escritas pelo seu próprio punho, felizmente existem, e o Sr. Barthou publicou-as no Figaro, de 15 de janeiro último [1919].

Àqueles que não leram as obras de Victor Hugo, ou que as leram mas não compreenderam, o escritor espírita Kermario oferece um documento claro, decisivo, que não deixa dúvida alguma acerca das convicções espíritas do grande poeta. Trata-se de uma carta que o autor de A lenda dos séculos enviou a Lamartine, quando esse perdeu a esposa:

Hauteville-House, 23 de maio.

Caro Lamartine.

Acabais de passar por uma grande desgraça; sinto a necessidade de levar o meu coração para junto do vosso. Eu venerava aquela que amáveis. O vosso elevado espírito vê além do horizonte; percebeis distintamente a vida futura.

Não é preciso dizer-vos: Tende esperança. Sois daqueles que sabem e que esperam.

Ela é sempre a vossa companheira, invisível, mas presente. Perdestes a esposa, mas não a alma. Caro amigo, vivamos nos mortos.

Nenhuma inteligência, por mais modesta que seja, poderá compreender nessas palavras outra coisa que não seja uma arraigada convicção espírita.

  1. Lesseps deu à publicidade alguns pensamentos escritos por Victor Hugo após a morte de seus filhos:

Morre-se esperando, e aqueles que morrem deixam após si aqueles que choram.

Paciência, pois nós somos apenas precedidos. É justo que a noite chegue para todos.

É justo que todos subam, um após outro, para receber a sua paga. As injustiças, as preterições são apenas aparentes.

O túmulo a ninguém esquece. Um dia, talvez bem logo, a hora que soou para os filhos há de soar também para o pai.

A jornada de trabalho estará terminada; terá chegado a sua vez; então ele terá aparência de um adormecido; metê-lo-ão entre quatro tábuas, a esse alguém desconhecido que dizem chamar-se um morto, e conduzi-lo-ão à grande e sombria abertura.

Lá se encontra o limiar impossível de se adivinhar. Aquele que chega é esperado por aqueles que já chegaram. Aquele que chega é bem-vindo. Aquilo que parece ser a saída é para ele a entrada.

Então ele percebe distintamente o que havia obscuramente aceito, os olhos da carne se fecham, os olhos do espírito se abrem e o invisível se torna visível. Aquilo que para os homens é o mundo, para ele se eclipsa. Enquanto o silêncio se faz em torno da vala aberta, enquanto pazadas de terra, de poeira lançada por sobre a cinza futura, caem sobre o esquife surdo e sonoro, a alma misteriosa abandona essa vestimenta, o corpo, e sai toda de luz daquele montão de trevas. É quando para essa alma os desaparecidos tornam a aparecer, e os verdadeiros vivos que na sombra terrestre se chamam os mortos, enchem  o horizonte ignorado, se comprimem, radiantes, em uma profundeza de nuvem e de aurora; chamam docemente pelo recém-chegado, e se lhe inclinam sobre o rosto resplandecente com aquele belo sorriso tão próprio das estrelas!

Assim partirá o batalhador carregado de anos, deixando, se procedeu bem, alguns pesares após si, seguido até a beira do túmulo por olhos molhados – quem sabe! e por graves frontes descobertas; enquanto isso, recebê-lo-ão com indizível satisfação na eterna claridade; e se não sois luto neste mundo, ó meus amados, lá em cima sereis festa!

Em um discurso que proferiu em Guernesey, diante do túmulo de uma moça, disse Victor Hugo:

Os mortos são invisíveis, mas não ausentes.

  1. Auguste Dide, senador pelo Gard, em um discurso que pronunciou no Cercle Parisien pour la propagande de l’instruction dans les départements, de que Victor Hugo era presidente, narra um fato inédito, um episódio quase trágico da agonia do grande pensador:

No momento da morte, viram-no endireitar-se no leito; estavam presentes, ao lado do moribundo, Mme. Lockroy e uma filha. Eis que ele se embrulha no lençol e diz à jovem senhora e à filha: “É um morto que vos fala; volto do túmulo para anunciar-vos a boa nova!”

E isso dizendo caiu sobre o leito, fulminado.

Tudo isso é por demais eloquente para que nos detenhamos em comentários sobre as convicções plenamente espíritas de Victor Hugo. Tudo quanto aí fica exprime as verdades que ninguém jamais contestou.

Victor Hugo fez-se espírita, procedeu como espírita e morreu como espírita.

Flávio Luz
Revista de Espiritualismo, julho de 1919

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