Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Revivendo ensinos

Deus castiga

maio/2017

Nesta pergunta, aparentemente sem importância, se insinua uma das grandes teses tratadas por todas as religiões.

A tradição teológica vulgarizou o conceito do sofrimento como resultado da cólera celeste. Foi para aplacar os melindres do Eterno, feridos pelo pecado de Adão e Eva, que o Cristo tomou sobre os ombros a missão de vir morrer, sacrificado nos braços de uma cruz. Tal é o dogma aceito na quase totalidade das igrejas militantes de nosso tempo. Não resiste à menor análise cometida pela razão. Basta um ligeiro confronto dessa teoria com os atributos do Incriado Ser para evidenciar o erro de apreciação em que se colocam as seitas escravas da forma exterior pertinente dos sagrados textos.

Deus contém o infinito de todas as perfeições: é axioma fundamental existente na estrutura de todos os credos. Infinito na sabedoria, no poder e na manifestação da bondade. Ora, o castigo decorre da contingência própria aos nossos falíveis julgamentos. Traduz o gosto de impor penalidade ditada por agravos que se resolvem, essencialmente, na satisfação de impulsos vingativos. Daí surgiu a blasfêmia expressa na frase – ira divina – tão repetida na literatura apavorante das religiões anti-reencarnacionistas.

Elas declaram que o Senhor se revolta contra Suas criaturas e lhes envia, sob formas diversas, os espinhos brotados dessa exacerbação prepotente.

Se assim fora, ter-se-ia por força de admitir a presença de mesquinhas paixões no conjunto da natureza divina. Ninguém castiga por  prazer e sim com o fito de serenar a suscetibilidade pessoal magoada ante qualquer ofensa a ordens previamente determinadas.

Logo, se Deus castiga, elimina ao mesmo tempo a doçura inefável que imaginamos inalterável na íntima organização de Sua misericórdia. Torna-se humano, pelo menos enquanto persistir o efeito que originou a resolução de oprimir o delinquente. Eis que ilações de lógica irresistível conduz esse princípio geralmente invocado para explicar o fenômeno das amarguras terrestres.

No Espiritismo, o ponto de vista assume aspecto inteiramente diverso. Sofremos para aprender e não como intervenção coercitiva da Justiça Suprema.   As provações representam escolas de experiência, meios de progressividade, oportunismo de reabilitação.

O Absoluto não está sujeito a nenhuma espécie de agastamento enfermiço dando motivo a reprimendas semelhantes às que os seres finitos trocam entre si no fragor das lutas passionárias. Como Centro e Foco de todo o bem, exclui a possibilidade de exteriorizar ações contrárias à Lei do amor.

Portanto, urge banir para sempre de nossas cogitações a noção do castigo, substituindo-a pela necessidade do resgate que empresta à dor as dignificadoras funções de nos dirigir, como seguro guia, na escalada aos deslumbrantes píncaros da evolução espiritual.

Vianna de Carvalho.
Revista de Espiritualismo, outubro/1920.

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