Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Revivendo ensinos

Ambientes psíquicos

abril/2017

É com frequência que se empregam as expressões ambiente moral, ambiente intelectual, para significar um dado conjunto de circunstâncias que, acentuadamente, influem sobre o caráter ou sobre a inteligência, modificando-os no sentido do aperfeiçoamento ou decadência. Aliás, é inegável que essa influência, aparentemente do domínio das sugestões provocadas pelos sentidos comuns, gera-se num ambiente psíquico cujas leis ignoramos por completo, ambiente de vibrações sensivelmente em harmonia com os sentimentos e tendências do Espírito influenciado.

Se é verdade que o exemplo modifica até certo ponto nossas tendências, e que a palavra falada ou escrita tem um grande poder de persuasão e de transformação, a evidência força-nos a admitir que a simples permanência do indivíduo em certos ambientes benéficos ou perniciosos, impregnados de emissões que exteriorizam os mais variados sentimentos, é quanto basta para modificar-lhe os característicos da personalidade, desde que exista uma relativa harmonia entre o meio indutor e o induzido.

Em artigo publicado nestas mesmas colunas, esforçamo-nos por exprimir o nosso pensamento acerca da indução que os campos psíquicos produzem no perispírito (…).  E como essa indução se exerce também em sentido contrário, isto é, como o Espírito incorporado ou encarnado é dominado quase que exclusivamente pelo campo vibratório da matéria organizada que lhe dá acesso no nosso plano, explica-se porque o homem não exprime a totalidade das suas faculdades e aquisições espirituais e o seu organismo (médium) não permite que os desencarnados possam transmitir-nos a totalidade dos seus pensamentos e sensações.

A homogeneidade dos sentimentos que dominam os membros de uma determinada coletividade, a convergência dos seus pensamentos para um fim comum, consubstanciado em ideais puros e elevados constitui ambiente psíquico favorável à manifestação de energias desconhecidas, capazes de efeitos supranormais, considerados, frequentemente, como feitos miraculosos de um poder sobrenatural. Não raro, um único indivíduo, recolhido em si mesmo pelo exercício da prece, engrandecido na fé que desperta e regenera as nossas energias superiores, criando um ambiente propício à contribuição das inteligências do espaço, opera subitamente o milagre da sua própria transformação, sentindo-se, desde então, completamente curado de enfermidades crônicas e reputadas incuráveis. As célebres curas de Lourdes e tantas outras reclamadas pela Igreja como graças concedidas pelos Santos aos seus fiéis devotos, enquadram-se perfeitamente na categoria das manifestações produzidas pela condensação repentina de ambientes psíquicos superiores.

Muitas vezes, esses ambientes benéficos formam-se em torno de certos indivíduos dotados de vibrações perispirituais excepcionalmente mais sutis (médiuns), transformando-os em agentes inconscientes e espontâneos de curas surpreendentes. Pela simples imposição das mãos ou pelo desejo ardente de fazer o bem, esses indivíduos veiculam para o doente uma descarga instantânea de fluidos regeneradores que, corroborados pela receptividade voluntária (fé) deste último, operam a sua cura radical naquele mesmo instante.

Obedecendo às mesmas leis, predominam, infelizmente, nos ambientes que excitam as nossas tendências, como um reflexo das nossas próprias individualidades, as sugestões maléficas, as seduções da carne, as maquinações diabólicas da ambição, da inveja, do ódio, do ciúme, arrastando-nos a cada instante ao pecado, ao crime, depois de vencidos em batalhas heroicas em que a consciência apenas exprimiu a inferioridade do bem sobre o mal.

As grandes aglomerações humanas devem, forçosamente, criar ambientes psíquicos cuja resultante há de impressionar ou influenciar cada um dos indivíduos segundo a tonalidade das suas respectivas vibrações perispirituais.

As pessoas sensitivas que penetram nesses ambientes (teatros, cinemas, reuniões), recebem logo uma forte sensação de mal estar, calor nas faces, sopro quente sobre a nuca, confusão de ideias, enfim, um desequilíbrio físico e psíquico que perdura enquanto esses sensitivos se encontram envolvidos pela trama das linhas de força do ambiente.

Frequentemente, numa atmosfera favorável e simpática, a administração de um só elemento dissonante é quanto basta para perturbar por completo a harmonia do meio, produzindo não somente as sensações desagradáveis a que aludimos, mas, sobretudo uma queda repentina da média moral e intelectual do ambiente psíquico, tão comum nas assembleias numerosas.

São tão diversos os gostos, as opiniões, a cultura espiritual, numa palavra, os sentimentos dos indivíduos que da sua reunião, excepcionalmente, se pode esperar uma harmonia de vistas no sentido do progresso e do bem-estar comum.

Além das dissonâncias que nós mesmos criamos nesse ambiente, há que tomar em consideração a ingerência inevitável de agentes estranhos ao nosso plano, atraídos por sentimentos simpáticos, e que necessariamente multiplicam e intensificam suas dissonâncias.

A quase totalidade dos humanos não se preocupa com essas questões que evidentemente transcendem dos seus meios habituais de percepção. A indiferença votada às cogitações de uma ordem mais elevada acaba por identificar os indivíduos com as anomalias do seu ambiente psíquico, de sorte que, num meio social de aparências enganadoras, como o que caracteriza a Humanidade presente, cada vez mais se acentuam a decadência e a morbidez do Espírito.

O remédio para esse grande mal está em nós mesmos. Tudo depende do esforço que fizermos para melhorar os nossos pensamentos, tendo em mira um ideal que neles desperte vibrações mais em harmonia com a pureza de uma esfera espiritual elevada. Todo o mal está em nós, e de nós deve partir a reação contra o vírus que nos atrofia a organização mental e aniquila o senso da beleza moral.

Comecemos por formar o nosso ambiente psíquico. Na sua pureza está a nossa invulnerabilidade às influências perniciosas que nos envolvem a cada instante.

Flávio Luz
Revista de Espiritualismo, janeiro de 1923.

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