Jornal Mundo Espírita

Março de 2019 Número 1616 Ano 86

Revivendo ensinos

Liberdade e responsabilidade

fevereiro/2017

Há muitos espíritas que pensam que a ação do Espiritismo deve ficar adstrita a esse ambiente de religiosidade e místico evangelismo que caracteriza, de modo claro e impressionante as reuniões dos vários núcleos de adeptos; há muitos outros que, reforçando essas pronunciadas tendências, chegam a relegar as ciências, as artes e a literatura para planos secundários e, infelizmente, há outros que, padecendo de fanatismo, criam para si um mundo estranho, abstendo-se de quaisquer reflexões que possam turbar a ordem de seus raciocínios no círculo vicioso em que vivem.

Os indivíduos menos suspicazes que se detêm a examinar essa desordem entre os adeptos do Espiritismo, essa imensa diversidade de pontos de vista, chegam a uma conclusão precipitada a respeito da sua utilidade como fator harmonizador no sentido de progresso. Sem penetrarem a fundo no exame das causas e tirando ilações rápidas dos efeitos que observam, esses indivíduos não podem deixar de incidir em grave erro, porquanto deve existir uma origem presente, próxima ou remota que explique satisfatoriamente esses desmandos.

A origem, a causa, está na liberdade de que gozam todos os Espíritos de aceitar ou rejeitar quaisquer leis, princípios, teorias e dogmas, venham ou não amparados por mestres, sábios ou cientistas.

Não existindo propriamente nenhum chefe a que devamos obediência, em consequência da universalidade dos ensinos, dos fenômenos e das teorias, é óbvio que, cada um, a despeito do que aconselha o bom senso, se julga com o direito de ter ideias próprias, embora em grande parte erradas, a propósito de todos os assuntos. Ora, como o progresso dos Espíritos é relativo e a diversidade de conhecimentos, tendências e sentimentos, entre eles, é enorme, conclui-se logicamente que não é possível existir nos núcleos que eles formam, a desejada harmonia no modo de pensar, de ver, de observar, visto serem desiguais em preparo intelectual e moral.

Será um mal? Não, positivamente, não!  Esses homens, bons ou maus observadores, pouco ou muito evoluídos, estão exercitando o direito natural de proceder livremente, direito que só se deve censurar quando o que o exercita causa dano ao culto sobre que pesa a sua influência material ou moral.

A liberdade ampla de fazer, ou deixar de fazer algo, traz em si, consequentemente, o condão da mais dilatada  responsabilidade. Ora, se um homem abusa do seu poder, arrogando-se o papel de mentor dos que lhe obedecem, aumenta o âmbito de suas responsabilidades e, ao invés de responder por si só, passa a responder por todos os atos dos outros que o imitarem, com a relatividade particular com que cada um tiver procedido, com maior ou menor intenção, no sentido do mal.

Embora a relativa desordem que se observa nos núcleos espíritas não seja mais do que o resultado do exercício de um direito, não devemos, todavia, deixar o campo livre aos maus raciocinadores. É um crime perante as sublimes leis que regem o Universo deixar de chamar à ordem, ao cumprimento do dever, os que se desviam e causam males a si e aos outros.

O Espiritismo, fatalmente, tem de exercer a sua influência na organização geral dos povos, desde o recesso dos lares que os formam até as relações que mantêm entre si.

Por conseguinte, estão em erro todos os que pretendem adstringir a influência da doutrina a este ou àquele campo, quando ela é chamada a instruir, educar e engrandecer todas as raças e todos os povos, em todos os domínios dos conhecimentos humanos, numa ascensão para a felicidade.

Oxalá cada homem se compenetre do que lhe cumpre fazer e compreenda que o horizonte do Espírito aumenta na razão direta do seu engrandecimento moral e intelectual.

Lins de Vasconcellos.
Jornal Mundo Espírita nº 829, de 21.7.1953.

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