Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Reverenciando a vida

novembro/2019

Foi no mosteiro beneditino de Cluny, na França, em 998, que o Abade Odilon deu início à celebração em memória dos mortos, dentro de uma perspectiva católica. Pela influência que esse mosteiro então exercia na Europa setentrional, propagou-se com rapidez a nova celebração, até porque veio a encontrar esse costume por todas as culturas, cada uma dando o seu entendimento e sua prática ao culto aos mortos.

Somente em 1311 foi sancionada, em Roma, oficialmente, a memória dos falecidos. Mas foi Bento XV, em 1915, que universalizou tal celebração dentre os católicos, cuja expansão da religião também auxiliou a difusão desse costume ainda mais.

A História, porém, registra que o culto aos mortos é uma prática das mais antigas e presente em quase todas as religiões. Esteve inicialmente ligada aos cultos agrários e da fertilidade, quando acreditava-se que, como as sementes, os mortos eram sepultados com vistas à ressurreição, o retorno à vida que deveria surgir de algo oculto e misterioso. Com essa crença, os antigos festejavam o dia dos mortos junto aos túmulos, com banquetes e alegria, costume ainda usado em certas culturas do planeta.

Retrocedendo no tempo, encontra-se, no Ocidente, o registro de que a filosofia dos druidas, na Gália antiga, deu origem às novas escolas espiritualistas, pois também cultuava o sentido da infinitude da vida, as existências progressivas da alma e a pluralidade dos mundos habitados; além do mais, a raça gaulesa tinha conhecimento dos mistérios do nascimento e da morte. Os gauleses reverenciavam em festa os Espíritos, não nos cemitérios, mas sim, em cada habitação, onde evocavam as almas dos defuntos.

Esclarece-nos Emmanuel1: Dentro, porém, de quase todas as ideias dessa natureza, no seio das raças primigênias, em seus remotíssimos agrupamentos, o culto dos mortos atinge proporções espantosas. Inúmeras eram as tribos que se entregavam às invocações dos traspassados, por meio de encantamentos e de cerimônias de magia.

As excessivas homenagens aos mortos, no seio da civilização dos egípcios, constituem, até em vossos dias, objeto de estudos especiais.

Toda a vida oriental está amalgamada nos mistérios da morte e, no Ocidente, pode-se reparar, entre as raças primitivas, a do povo celta como a depositária de tradições longínquas, que diziam respeito à espiritualidade.

Os tempos modernos nos apresentam a rememoração dos mortos segundo o resultado dessa miscigenação cultural, filosófica e religiosa, que se deu pelos caminhos da História. Cada um o fazendo ao seu modo e segundo suas verdades, por mais relativas que estas sejam.

No entanto, em todas as manifestações está presente a reverência à vida. Quer seja a vida espiritual, quando se entende que ela continua após a morte, quer seja a lembrança da vida enquanto estiveram juntos antes da morte, ou ambos. Religiosos ou não reverenciam a memória de seus familiares, amigos e afetos em geral.

O respeito que em todos os tempos, entre todos os povos, o homem consagrou e consagra aos mortos é efeito natural da intuição que tem da vida futura.2

Os espíritas temos, por nossa vez, visão própria sobre tal rememoração dos mortos, que estão vivos, com certeza.3

Sensibiliza, muito mais do que podemos supor, o lembrarem-se deles os que foram caros na Terra, quer seja no dia de Finados ou em outro dia. Se são felizes, esse fato lhes aumenta a felicidade. Se são desgraçados, serve-lhes de lenitivo.

Os Espíritos acodem no dia da comemoração dos mortos ao chamado dos que da Terra lhes dirigem seus pensamentos, como o fazem noutro dia qualquer, não se fazendo, assim, um dia mais solene do que os outros dias. Nesse dia, em maior número se reúnem nas necrópoles, porque então também é maior, em tais lugares, o das pessoas que os chamam pelo pensamento. Porém, cada Espírito vai lá somente pelos seus amigos e não pela multidão dos indiferentes.

Aquele que visita um túmulo apenas manifesta, por essa forma, que pensa no Espírito ausente. A visita é a representação exterior de um fato íntimo. A prece é que santifica o ato da rememoração. Nada importa o lugar, desde que seja feita com o coração.

Para Deus vale mais a intenção do que o fato em si. Por isso o respeito a cada manifestação, e a liberdade para tal.

Aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola, diz ditado popular.

Façamos do 2 de novembro um dia de reverência à vida, lembrando carinhosamente os que nos antecederam de retorno à pátria espiritual, e também os que estamos juntos, jornadeando pelos caminhos da existência terrena.

Aos que partiram, nossa prece, nossa gratidão, nossa saudade, nosso carinho, nosso amor!

 

Referências:

1.XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1981. cap. XV – item Culto aos mortos.

2.KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 2, cap. VI, q. 329.

3.Op. cit. q. 320 a 323.

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