Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2017 Número 1599 Ano 85

Resgate histórico da 2ª edição de Le livre des Esprits (1ª impressão rara de 1860)

novembro/2014 - Por Enrique Eliseo Baldovino

Recebemos de presente um precioso volume de Le Livre des Esprits, de Allan Kardec, da parte do Sr. Leandro Ramos de Souza, de Florianópolis/SC, raríssima Obra que adquiriu em Paris, o mesmo confrade espírita que teve a deferência de nos enviar a 1ª edição histórica e rara de Le Livre des Médiums, que tivemos o ensejo de comentar e analisar oportunamente no prestigioso Jornal Mundo Espírita,(1) edição que hoje encontra-se totalmente disponível para download,(2) digitalizada pela Biblioteca Espírita Virtual de Obras Raras da Federação Espírita do Paraná.(3)

Sensibilizamo-nos novamente muitíssimo ao folhear as páginas desse primoroso Livro, numa encadernação em excelente estado, após quase 155 anos (edição de 1860). E não poderíamos deixar de compartilhar com os nossos atentos leitores as conclusões doutrinárias e históricas de semelhante presente espiritual, em gratidão ao estimado confrade e às valiosas informações que ressumam do precioso volume.

Ao compulsar mais detidamente o raro exemplar, notei que tratava-se de uma edição realmente histórica, quase desconhecida do grande público e dos espiritistas, em particular, e uma grande emoção invadiu profundamente as fibras da minha alma, em reconhecimento a Allan Kardec, o notável Codificador do Espiritismo, que tantos sacrifícios fez para que chegasse até nós o imorredouro legado dos Espíritos Superiores que ditaram esse Livro-Luz.

A 1ª impressão rara da 2ª edição de 1860

Trata-se da 1ª impressão histórica e rara da 2ª edição de Le Livre des Esprits do ano 1860,(4) aquela edição que antecipou à 2ª e definitiva edição de O Livro dos Espíritos, inteiramente refundida e consideravelmente aumentada.

A 2ª edição definitiva também é conhecida como a 2ª impressão da 2ª edição de 1860, tal qual hoje a conhecemos, contendo as 1019 questões e os 4 LIVROS ou PARTES: Paris, Didier et Cie, Libraires-Éditeurs (35, Quai des Augustins), et Ledoyen, Libraire (Galerie d’Orléans, 31, au Palais-Royal); Imprimerie de P.-A. Bourdier et Cie, rue Mazarine, 30, com 474 páginas no original francês.

A 1ª impressão da 2ª edição de 1860 é o elo histórico entre a publicação da 1ª edição de 1857 (contendo 501 questões e 3 LIVROS ou PARTES) e a referida 2ª impressão da 2ª edição definitiva de 1860. A 1ª impressão também contém 4 LIVROS ou PARTES, inteiramente refundida e consideravelmente aumentada, com 1018 questões (ver o subtítulo: Afinal, são 1018 ou 1019 questões?) e o mesmo número de páginas (474) que o original francês da 2ª impressão (com 1019 questões), contendo ambas o Aviso sobre esta nova edição, feito por Kardec nas páginas I e II, tendo também os mesmos editores (Didier e Ledoyen) e o mesmo impressor (Bourdier) da edição definitiva.

Portanto, não há diferenças doutrinárias substanciais entre ambas as impressões, a não ser algumas alterações, em número de 6 – cinco acréscimos e uma supressão –, que o próprio Codificador Allan Kardec se encarregará de explicar, como bom pedagogo, numa ERRATA, colocada somente na 5ª edição francesa de Le Livre des Esprits, do ano seguinte, 1861 (ver neste artigo o fac-símile dessa preciosa ERRATA).(5) Comparamos também as paginações das duas impressões citadas, que são muito semelhantes, a exceção das palavras adicionadas nas mencionadas alterações.

A ERRATA histórica, que consta apenas na 5ª edição de 1861

Esta Errata histórica, encontrada somente na 5ª edição do Livre de 1861, será acrescentada, no ano de 1998, na última página de uma edição de Le Livre des Esprits, publicada pela FEB (Federação Espírita Brasileira), em trabalho conjunto com o CEI (Conselho Espírita Internacional), com a USFF (Union Spirite Française et Francophone) e com o IDE (Instituto de Difusão Espírita), página adicionada após a reprodução fotomecânica da 2ª impressão da 2ª ed. francesa de O Livro dos Espíritos, de 1860,(6) apesar da ERRATA ser posterior a esta data e a essa edição francesa.

A referida Errata,(7) assim como os diversos acréscimos e modificações realizados por Kardec na 13ª edição (1865) de Le Livre, já foram objeto de análises por parte do confrade Silvio Seno Chibeni, que, com propriedade, comentou e examinou detalhadamente os mesmos, também no Jornal Mundo Espírita,(8) o que nos dispensa de maiores repetições, pois que remetemos os leitores às correspondentes fontes bibliográficas.

 

Afinal, são 1018 ou 1019 questões?

Cremos que para dirimir definitivamente esta questão, se, afinal, são 1018 ou 1019 as perguntas e as respostas de O Livro dos Espíritos, é necessário pesquisar a fundo a citada Errata (reproduzida aqui em fac-símile) que o próprio Allan Kardec introduziu no final da 5ª edição [cinquième édition] de 1861 de Le Livre des Esprits, na página 475, cujo assunto não foi diretamente abordado pelo caro confrade Chibeni, pelo que transcrevemos primeiramente os dizeres franceses do segundo acréscimo [ajoutez], que depois traduzimos abaixo para o português, onde temos a clara resposta a quantas questões o Codificador referia-se:

Page 109, nº 226, à la fin de la remarque, ajoutez: Parmi les Esprits non incarnés, il y en a qui ont des missions à remplir, des occupations actives et qui jouissent d’un bonheur relatif; d’autres flottent dans le vague et dans l’incertitude; ces derniers sont errants dans la véritable acception du mot, et sont, en réalité, ce qu’on désigne sous le nom d’âmes en peine. Les premiers ne se considèrent pas toujours comme errants, parce qu’ils font une distinction entre leur situation et celle des autres (1015).

A nossa tradução, do francês ao português, é a seguinte, com letras negritas e cursivas também nossas, principalmente no número final, correspondente à questão nº 1015, indicada pelo próprio Kardec, número que norteia a nossa argumentação a favor das 1019 questões:

Página 109, nº 226, no final da nota, acrescentai: Entre os Espíritos não encarnados, há os que têm missões a cumprir, ocupações ativas e que gozam de uma felicidade relativa; outros se mantêm na indecisão e na incerteza; estes últimos são errantes na verdadeira acepção da palavra, e, na realidade, são designados com o nome de almas penadas. Os primeiros nem sempre se consideram errantes, porque fazem uma distinção entre sua situação e a dos outros (1015).

Analisemos o precioso parágrafo: a página 109 refere-se ao original francês de ambas as impressões, e o nº 226 corresponde à questão 226 de O Livro dos Espíritos (2ª Parte, cap. VI: Da vida espírita), aonde, segundo a Errata citada, deve acrescentar-se, no final dessa resposta, o parágrafo acima, após a seguinte frase: «(…) Espíritos puros, isto é, perfeitos, não tendo mais necessidade de encarnação.»

Como vimos no final da resposta nº 226, Kardec remete, entre parênteses, à questão 1015 (2ª impressão da 2ª edição definitiva), que diz claramente o seguinte, na 4ª Parte, cap. II: Paraíso, inferno e purgatório:

                   1015. – Que se deve entender por alma penada?

“Uma alma errante e sofredora, incerta de seu futuro, e à qual podeis proporcionar o alívio que muitas vezes ela solicita, vindo comunicar-se convosco”. (664)

O fato de Allan Kardec remeter, na ERRATA de 1861, à questão 1015 e não à de 1014, indica que o Codificador considerou preferível aquele número, que refletirá finalmente no total definitivo de 1019 questões.

 

Diferenças entre a 1ª e a 2ª impressão de 1860

A 1ª impressão da 2ª edição registra a questão anterior da alma penada como sendo a de número 1014 (ver fac-símile 1 da página 444).

A 2ª impressão da 2ª edição definitiva registra a mesma questão (da alma penada) com o número 1015 (ver também fac-símile 2 da p. 444), exatamente como Kardec remeteu-a na Errata da 5ª edição de 1861 de Le Livre des Esprits, demonstrando assim que, após as diversas reimpressões, a sua escolha recaiu no nº 1015 da edição definitiva. Se o Codificador quisesse remeter a referida questão segundo a 1ª impressão, o faria indicando o número 1014, o que realmente não fez.

As seguintes questões, 1016 e 1017, abordam a temática do céu; a de nº 1018 trata do profundo ensino do Cristo: “Meu reino não é deste mundo”, e a última questão 1019 é sobre a implantação do reinado do bem na Terra, respondida magistralmente pelo Espírito São Luís, presidente espiritual da Sociedade Espírita de Paris.

O equívoco tipográfico, com certeza da gráfica (isto é, a imprensa da época – imprimerie ou typographie: o que seriam as gráficas atuais), e que perdurou nas futuras edições francesas, encontra-se na falta de numeração da questão 1011 (na página 441 do original francês da edição definitiva), que aborda a ressurreição da carne e a reencarnação. Na 1ª impressão, esta questão também não é numerada, sendo a seguinte a de 1011, isto é, aquela que, nas reimpressões e edições posteriores, seria indicada corretamente como sendo a de nº 1012, concluindo esta 1ª impressão com 1018 questões em vez de 1019, sendo este último número o sinalizado e o escolhido por Kardec, ao indicar a pergunta 1015 (das almas penadas), na referência cruzada registrada na ERRATA, publicada por ele próprio um ano depois (1861).

Continuando com a análise da 2ª impressão, temos após a questão 1012, logo após o subtítulo Paraíso, inferno e purgatório; a seguir, a de número 1013, sobre o que se deve entender por purgatório, e a nº 1014, acerca da linguagem dos Espíritos, a respeito dos temas abordados no mencionado subtítulo (na 1ª impressão, estas três últimas questões levaram os números de 1011, 1012 e 1013, respectivamente).

Páginas dedicadas à Revue Spirite, no final da 1ª impressão

Após a p. 474, encontram-se, na 1ª impressão, 4 páginas dedicadas à Revista Espírita, de Allan Kardec, numeradas de 1 a 4, detalhando os artigos mensais publicados até esse dia, dos anos 1858 e 1859, encerrando essa divulgação da Revue Spirite com o seguinte aviso, que também traduzimos aqui: “O Terceiro Ano (1860) está em curso de publicação”.

Tanto os distintos pesquisadores espíritas Sylvino Canuto Abreu,(9) como Zêus Wantuil e Francisco Thiesen,(10) concordam que a 2ª edição definitiva (leia-se 2ª impressão) de O Livro dos Espíritos, foi lançada no mês de março de 1860.

Porém, nenhum deles registra a 1ª impressão, que é o objeto de estudo do nosso artigo, pelo que torna-se realmente histórico este precioso Livre que ora temos em mãos (e que disponibilizaremos oportunamente na Biblioteca de Obras Raras da nossa FEP), volume que deve ter sido lançado pelo missionário de Lyon entre janeiro e março de 1860, portanto, um pouco antes da 2ª impressão definitiva.

A Revue Spirite de março de 1860, p. 96, informa ao leitor, no seu penúltimo artigo, a venda de Le Livre des Esprits, segunda edição, inteiramente refundida e consideravelmente aumentada, transcrevendo na Revista o primeiro parágrafo do já referido Avis sur cette nouvelle édition.(11)

Vivência dos ensinos de “O Livro dos Espíritos”

Ao concluir a nossa pesquisa, somos imensamente gratos a Allan Kardec por colocar à nossa disposição tamanhos ensinamentos, ditados pelos Espíritos superiores da Codificação, Guias da Humanidade, que há mais de 155 anos nos concitam a viver os preceitos do Cristo, ora complementados e explicados pela Doutrina Espírita.

Que a viagem interior que O Livro dos Espíritos nos convida a realizar, no combate às nossas más tendências – que ainda temos no âmago –, possa ser uma realidade, na vivência verdadeira, cristalina e definitiva do ínclito Espiritismo em nossas vidas.

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REFERÊNCIAS:

(1) MUNDO ESPÍRITA. A 1ª edição histórica e rara de Le Livre des Médiums. Artigo de Enrique Eliseo Baldovino, com publicação de fac-símiles da Obra. Janeiro de 2013, pp. 10 e 11. Curitiba, PR: FEP.

(2) ________. O Livro dos Médiuns – Primeira Edição Francesa. Fatos em notícia. Outubro de 2013 (www.mundoespirita.com.br), p. 14. Curitiba, PR: FEP.

(3) BIBLIOTECA ESPÍRITA VIRTUAL DE OBRAS RARAS. Le Livre des Médiums. 1ª Edição de 1861. Paris. Didier et Cie, Libraires-Éditeurs. 495 páginas (www.bibliotecaespirita.com.br). Curitiba, PR: FEP.

(4) KARDEC, Allan. Le Livre des Esprits. Seconde édition, entièrement refondue et considérablement augmentée. 1ª impressão da 2ª edição. Com XLIV-474 pp., mais 4 páginas finais sobre as Revues Spirites de 1858 e 1859. Didier et Cie, Libraires-Éditeurs (35, Quai des Augustins), Ledoyen, Libraire (Galerie d’Orléans, 31, au Palais-Royal). Gentileza do Sr. Leandro Ramos de Souza [edição raríssima, com capa dura dourada]. Paris, 1860.

(5) KARDEC, Allan. Errata. Publicada pelo Codificador após a Table des Matières (Índice) de Le Livre des Esprits. Consta apenas na 5ème édition, com XLIV-475 páginas. Didier et Cie, Libraires-Éditeurs (35, Quai des Augustins), Ledoyen, Libraire (Galerie d’Orléans, 31, au Palais-Royal). Paris, 1861.

(6) KARDEC, Allan. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 2ª impressão da 2ª edição francesa de 1860, com adendos do Autor. XLIV-474 páginas, e com inclusão, no final do Livro, da Errata publicada na 5ª ed. francesa de 1861, pela Federação Espírita Brasileira, em trabalho conjunto com o CEI, a USFF e o IDE. Rio de Janeiro, FEB: 1998.

(7) CHIBENI, Silvio Seno. A Errata do Livro dos Espíritos. In: _______. Jornal Mundo Espírita de setembro de 2002, p. 10. Curitiba, PR: FEP.

(8) ________. Os acréscimos e modificações na 13ª edição francesa do Livro dos Espíritos. In: _______. Jornal Mundo Espírita de novembro de 2002, p. 5. Curitiba, PR: FEP.

(9) ABREU, Canuto. O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec (1857). Texto em fac-símile, versão em face. Primeiro Centenário. 1ª edição bilíngue, traduzida por Canuto Abreu. Reprodução fotomecânica da 1ª ed. francesa. Referência do autor à data de março de 1860 (lançamento da 2ª ed. definitiva de Le Livre des Esprits), página VII. Companhia Editora ISMAEL. São Paulo, 1957.

(10) WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: el Educador y el Codificador. Edição comemorativa em 2 volumes (892 páginas), com Índice Antroponímico, anexos e raros documentos Kardequianos. Tradução, do português e do francês, para o espanhol por Enrique E. Baldovino. 1ª edição. Referência dos autores à data de março de 1860 (lançamento da 2ª ed. definitiva de Le Livre des Esprits). Volume I, pp. 345-346, junto da Nota de Zêus Wantuil e do tradutor nº 243. EDICEI, 2007.

(11) KARDEC, Allan. Revista Espírita – Periódico de Estudios Psicológicos (Año III, 1860). Penúltimo artigo, intitulado: “En venta: El Libro de los Espíritus, segunda edición, enteramente refundida y considerablemente aumentada. Aviso sobre esta nueva edición”. Março de 1860. Tradução, do francês para o espanhol, de Enrique Baldovino. Com Notas do Tradutor números 158, 159 e 160 do Ano 1860, pp. 135-136 (www.ceanet.com.ar/revista-espirita-1860-allan-kardec). Brasília, DF: EDICEI, 2012.

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